A maneira com que o violão puxa a introdução já coloca o ouvinte diante de uma melodia que exprime firmeza ao mesmo tempo em que se traduz diante de uma esfera delicada. Contagiante, a faixa chama a atenção pelo seu aspecto intimista e por não tardar em apresentar o enredo lírico. Dominado pela voz de timbre intermediário vinda na posse de John Michael Hersey, ele exibe silhuetas reflexivas que criam um contraponto sensorial bastante interessante. De veia acústica e contando com a textura tilintante do pandeiro como elemento a informar a cadência rítmica a ser seguida pelo restante do time instrumental, What Are You Looking For? não cresce em enegia, mas, sim, em elementos. Com a bateria em sua forma íntegra e o teclado, a faixa consegue transpirar precisão e uma fluidez amaciada que torna a sua paisagem ainda mais envolvente.
O interessante, aqui, é a maneira com que a guitarra se apresenta na dianteira melódica. A partir de um riff gordo e ecoante a ponto de causar uma audaciosa impressão psicodélica, ela transmite uma sensação de delicadeza, mas que não rouba a lucidez do ouvinte por completo graças à presença do movimentar do pandeiro na base rítmica. Delicada e introspectiva, mas experimentando um aspecto sensorial diferente daquele obtido na obra anterior, Aegean traz consigo uma postura ligeiramente mais expansiva e animada que conduz o ouvinte à aquisição de uma entrega mais gratificante. Ganhando um aspecto curiosa e levemente dançante por meio da levada rítmica amaciada proferida pela bateria, a faixa se beneficia de uma boa dose de frescor, mas sem alterar a identidade de seu escopo harmônico.
Fugindo um pouco do padrão das obras anteriores no que se refere ao estilo de introdução seguido, a presente obra traz o próprio Hersey como elemento de recepção. Com seu tom atraente, ele interpreta os primeiros versos líricos com uma ênfase mais incisiva, o que acaba dando às palavras um aspecto decididamente enfático, mas sem soar como ordem. Já em relação ao aspecto propriamente instrumental, a faixa explora uma desenvoltura suspirante que, de certa forma, enaltece a sua silhueta de delicadeza. Com o poder e o controle da técnica de storytelling, o cantor faz com que Pelham seja uma obra penetrante apenas no escopo lírico, mas, quando observada de um ponto de vista macro, a sua estrutura rítmico-melódica encanta de igual maneira com o seu compasso dançante com seu roots rock bluesado e sincopado.
Enquanto a guitarra domina a dianteira melódica com uma postura levemente swingada, mas completamente envolvida em uma postura de conotação intimista, o ouvinte é capturado por uma mistura de sensações que vai do conforto ao contágio. Porém, no instante em que o violão e o teclado se unem a essa paisagem, a fragilidade e o tom tocante se tornam protagonistas emocionais inquestionáveis. Ganhando a forma da primeira balada declarada de Quixote, Who Knew? explora uma tomada curiosamente romântica que esbarra em uma sutileza quase espectral que acompanha o ouvinte diante de uma esfera harmônica linear que serve como ecossistema de um enredo que trata do simples acaso do amor.
Tudo muda com a proposta sensorial da presente canção. Saindo da energia de balada romântica, aromática e introspectiva experimentada em Who Knew?, agora Hersey põe o ouvinte em contato com um roots rock autêntico com direito a guitarras distorcidas em uma tonalidade aveludada e de leves inclinações azedas. Agraciada não apenas pelo tilintar do pandeiro, mas por uma bateria de pulsos firmes e levada fluida, a faixa consegue combinar hipnotismo com sensualidade sem parecer piegas. Com boa participação do time de backing vocals, The Fortune Tellers explora um contágio de identidade atraente, mas não necessariamente radiofônico. Hipnotizante, a faixa é outro bom exemplo em que a letra tem tanta força de penetração quanto o próprio aspecto sonoro trazido pelo escopo instrumental.
Não é só o dançante que se evidencia diante da presente paisagem sônica. São o interior e o aroma propriamente rurais que se propagam através da sonoridade produzida pela guitarra. Fresca e contagiante principalmente pela tomada sincopada assumida pelo teclado, A Walk In The Park promete uma fluidez tão orgânica que o ouvinte nem sente o tempo passar. Leve, acima de tudo, a faixa, na forma da canção mais curta em duração de todo o álbum, explora não necessariamente a casualidade, mas especialmente a serenidade de um evento romântico que pausa a mesmice da rotina com um teor aromático e devidamente apaixonante.
Contando com mais elementos capazes de configurá-la como um produto de identidade roots rock, a canção se apresenta na companhia não apenas de uma guitarra cujo riff é capaz de uivar, mas principalmente do toque opaco e tilintante do cowbell que assume o devido protagonismo na sua função de contagem do tempo rítmico. Exibindo, a partir daí, um evidente teor rural, a faixa explora uma sensualidade inédita por um comportamento mais provocante e de inclinações levemente libidinosas que ganham razão de ser com o apoio da bateria e suas batidas que exibem a sujeira do chimbal aberto. Minimamente dançante e exibindo uma textura aveludada envolvente, Shake A Leg é incontestavelmente a canção com o maior apelo radiofônico do álbum que, felizmente, alcança esse patamar sem se desfazer da própria essência sonora.
O que John Michael Hersey entrega com Quixote não é um material de aspecto rural comum. Ele coloca o ouvinte em contato com uma coleção de canções que, definitivamente, defendem a verdadeira identidade do roots rock. Guitarras aveludadas com distorções brandas e movimentos sensuais, ritmos fluidos e dançantes e teclados participativos fazem com que o ouvinte se perca em uma experiência que combina contágio e leveza.
Inclusive, é interessante de pontuar que o disco ainda chama a atenção por conseguir trazer consigo enredos românticos que não destoam do restante das narrativas. Pelo contrário. Elas ajudam a escancarar a versatilidade dialética do próprio disco e expor a sensibilidade do cantor de uma forma bastante delicada e orgânica. Perceptíveis principalmente no decorrer das sete primeiras faixas de sua track list, Quixote ainda traz outros momentos interessantes.
One Cup Of Coffee, com a sua malandragem sensual denotativamente bluesada, e You Were Here, com sua tomada melodiosa, chiclete e empolgante que destaca o efeito lap steel, destacam a irreverência de Quixote. E assim, o disco evidencia a sua identidade tradicionalmente pitoresca.
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