Não é apenas brisante. A maneira com que o violão, em meio aos seus dedilhares responsáveis por produzir uma sonoridade delicada e aguda, interage com os pulsos secos, mas igualmente encorpados do baixo, faz com que o cenário construa uma energia de completo deleite. De uma introspecção envolvente, aromática e confortavelmente amaciada. Nesse ínterim, é interessante perceber que a presença dos chiados se mostra marcante diante da exploração de uma textura cuidadosamente áspera que chega a roubar, do estado letárgico disseminado no cenário, a lucidez do espectador. Colocando o lo-fi como um importante ingrediente estético-estrutural, esse detalhe consegue explorar ainda mais a espacialidade cinemática que compreende a totalidade de Enterstellar. Chamando a atenção inclusive pela existência de nuances etéreas e, portanto, espirituosas, envolventes e penetrantes, a faixa faz, da calmaria e da leveza, o seu principal alicerce sensorial. Propoisitadamente ou não, esses detalhes são mais trabalhados a partir de uma valsa aparentemente perpetrada por algo que parece ser uma dupla de violinos que sustenta o veludo e a fragilidade de uma forma tocante.
O vilolão continua sendo a estrela tanto da sonoridade em sua totalidade quanto do escopo melódico que dela é originada. Cuidadosamente reverberante e ocasionando a construção de uma natureza ligeiramente espirituosa, a faixa traz consigo uma delicadeza ainda mais intensa do que aquela observada no decorrer da composição anterior. Mansa, fresca e vulneravelmente sensual no sentido da textura da maciez, Eridanus parece explorar uma roupagem de conotação neo-clássica que se mistura em meio a uma base sônica gentilmente atmosférica e pulsos rítmicos tão suaves que lhe conferem um curioso estado de ternura.
Seguindo a mesma roupagem neo-clássica exposta na obra anterior, Novus Astra é melodicamente construída por um violão que explora dedilhares ligeiramente mais acelerados que lhe conferem uma identidade suavemente sensualizante. Diferente do que foi observado em Eridanus, porém, a presente faixa traz um violino propriamente orgânico abrilhantando a camada harmônica com uma valsa aveludada, aromática e esvoaçante, mas com direito a curiosas brisas de uma melancolia emotiva e quase chorosa. Diante dessa constatação, não é difícil ao ouvinte identificar a existência de um drama se fazendo cada vez mais marcante no cenário sônico-conjuntural em exercício. Interessante pontuar que os violinos são, aqui, elementos capazes de oferecer um consistente viés reflexivo que encanta e emociona verdadeiramente o ouvinte.
Oferecendo uma levada melódica mais atraente no que tange uma postura mais aberta e expansiva ao invés do intimismo dramático e de incinuações minimalistas, a presente canção se destaca por trazer o violão diante de uma construção melódica pautada na exploração de um som mais grave, ocasionando em uma nova vivência de texturas e sensações. Estruturalmente ondulante, Gravity chama a atenção por, a partir da suave mudança dos acordes adotados, sugerir novas percepções sensoriais de forma a enaltecer a fragilidade e, portanto, a delicadeza, sem se deixar ser capturada pela pungência e pelo drama em sua forma crua.
Já a partir dos primeiros acordes, a presente canção mostra uma pungente ruptura em relação à trinca neo-clássica até então vivenciada. Densa e com direito a notáveis traços soturnos, a canção, em razão da melodia em tom mais grave e de espaçamento largo entre asd notas, o que causa abertura para o surgimento de um viés ligeiramente dramático, traz o sombrio para o centro dos holofotes. Diante de delicadas mudanças de escalas melódicas, a canção, assim como em Enterstellar, traz a presença dos chiados como um importante elemento a ofertar crueza e uma textura levemente áspera em meio ao propósito harmônico-melódico em exercício. Com rompantes curiosamente sensuais a partir de um breve rebolar efetuado pela guitarra em meio ao seu riff agudo e aveludado, Materia Oscura se consagra como uma composição swingada que tem, como base, o atmosférico, o torpor, o sombrio e o dramático – algo enaltecido pelos lampejos graves e devidamente soturnos do violoncelo.

A delicadeza parece surgir, aqui, com uma postura mais expansiva. Envolta em um aroma convidativamente floral que quase chega a beirar o romance, a faixa traz o violino como importante elemento na sua construção harmônico-melódica. Ainda assim, é inquestionável que a figura do violão segue sendo o protagonista da sonoridade em construção. Diante dele, a composição é agraciada pelo senso de fluidez e por uma vulnerabilidade atraente que, consequentemente, desperta a atenção do ouvinte. Indubitavelmente penetrante em razão da encantadora forma como que os instrumentos aqui listados interagem entre si, Event Horizon se consagra como uma obra valsante, contagiante e bastante perfumada.
Ao percorrer Home: Universes, o ouvinte é convidado a um verdadeiro embate. Bem trabalhado e elaborado de forma a exaltar uma vasta gama de musicalidade, o disco põe, frente a frente, o torpor e a lucidez. O etéreo e o terreno. O atmosférico e o cru. Mas o que mais chama a atenção no decorrer de suas 13 faixas é o charme e o sentimentalismo existentes em meio a cada sonoridade – detalhe que, surpreendentemente, percorre diferentes universos.
Ao se tratar de um conteúdo instrumental, o material precisa ter o som muito bem construído e, talvez, mas não necessariamente, lapidado. A partir daí, a experiência obtida pelo ouvinte é completa, profunda. E aqui, esse contexto traz o violão como sua base, seu espírito definidor. É com ele que se têm os primeiros sinais de tensão, de delicadeza, de frescor e de densidade. Enfeitando o cenário, violoncelo, violino e guitarra vêm para oferecer harmonias que penetram e envolvem. Que encantam. Que dão movimento às emoções de forma equilibrada.
Isso tudo é muito bem visto no decorrer das seis primeiras faixas do disco. Mas, Entropy, ao trazer o violão explorando modulações influenciadas pela base do maqam em contato com um violino dramático; e Vis Viva, em razão de seu tom sombrio-swingado que, por entre o beat, destaca a influência do flamenco; e Singularity, com seus ecos cinemáticos e pulsos ritmicos cuidadosamente sincopados, enaltecem a versatilidade e a criatividade ilimitada de Tamer Sağcan diante de Home: Universes, o segundo capítulo de sua trilogia Home.
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