De imediato, o que salta aos ouvidos e à percepção do espectador é um groove encorpado em razão da desenvoltura proposta pelo baixo dominando a base melódica. Ao seu lado, a bateria entra em cena com uma levada rítmica pulsante em sua métrica simples de forma a exortar uma natureza seca. Eis que o fender rhodes começa a preencher o âmbito harmônico com um veludo aromático que, de imediato, faz, do ambiente, um cenário onírico de pura alucinação. De devaneio. De brisa. Não é à toa que, com a sua presença, o contexto sonoro da composição vai sendo agraciado por uma identidade cada vez mais madura em meio à sua natureza aveludada. Inclusive, esse cenário passa, com notável facilidade e clareza, a exibir uma silhueta de nuances psicodélicas que muito rememoram a roupagem sônica criada e largamente difundida pelo Pink Floyd. É diante desse torpor extasiante que o enredo lírico enfim começa a ser devidamente explorado. A partir de uma voz masculina de inclinações fanhosas vinda de Mike Moule, o ecossistema da obra passa a ser respaldado por uma postura introspectiva que contracena homogeneamente com uma cuidadosa sensualidade. Ritmicamente linear, Coming Down se constrói perante uma calmaria contagiante e atraente que enaltece uma leveza fresca embasada na pureza do blues.
A maneira como a bateria entra em cena já destaca, sem qualquer tipo de cerimônia, o intimismo e a delicadeza como a base sensorial da composição que se mostra em seu processo de nascimento. Destacado pelo seu pulso e pelo seu chimbal igualmente seco, o instrumento anteriormente citado se põe capaz de construir um ritmo suave e frágil, mas cheio de uma sensualidade que, aqui, é completamente ausente de um caráter propriamente sexual. Promovendo a maciez, portanto, o compasso percussivo é, ainda, responsável por oferecer um gracioso viés de aconchego que ganha força com os suspiros do violão. Estimulando um perfume floral de inclinações romanceadas, essa interação instrumental faz nascer uma valsa sedutora cheia de paixão e cumplicidade, encantando e, consequentemente, chamando a atenção do espectador de forma orgânica e sincera. Ganhando uma silhueta esvoaçante a partir de um teclado que imita o veludo esvoaçante do violino, a faixa-título começa a fortalecer a sua paisagem conjuntural assim que o enredo lírico se evidencia a partir de uma linha verbal introspectiva, cuidadosa e com traços de uma nostalgia envolvente. Ainda que seja amadurecida na presença de uma base rítmica que, quanto mais avança, mais se mostra linear, a canção conquista a atenção do ouvinte por meio de sua narrativa sincera e de seu carinho tão tocante que chega a ser transcendental.
Saindo do viés delicado belamente explorado na canção anterior, Moule surpreende ao levar o ouvinte a um ambiente regido pela sensualidade em um tom propriamente mais sexy. Provocativa e de uma atração irresistível, a faixa chama a atenção do espectador em razão da união de seu beat sincopado e de sua guitarra cujo riff áspero emprega mais charme e um cinismo audaciosamente excitante. Casando com essa proposta, o próprio cantor entra em cena com uma interpretação lírica mais violenta, se é que é possível defini-la assim. Com um timbre rasgado e uma postura mais solta, o vocalista se une homogeneamente ao swing elaborado pela estrutura em vigor e despeja notas ainda mais penetrantes de uma ardência sensual. Sendo palco da fusão entre resquícios do soul observados na escola lírico-interpretativa e do blues na sonoridade instrumental, Where’s The Money Gone se mostra a canção mais quente do EP até o momento.

Retomando a calmaria estacionada na faixa-título, Killer começa a sua caminhada conjuntural perante uma sintonia afiada e suave entre bateria e violão. Macia e cuidadosamente pulsante, não fossem as ligeiras modulações melódicas executadas pelo instrumento de corda, ela seria completamente hipnotizante e entorpecente em razão da rígida linearidade rítmica. Inclusive, até mesmo a maneira como Moule vive as palavras que compõem o enredo verbal é embebida em um mesmo grau de ciclicidade. Ainda assim, é interessante perceber que o vocalista, com sutileza, vai imprimindo, diante de sua interlocução, sinais de uma melancolia que vai preenchendo o ambiente de maneira sutilmente gradativa a ponto de mal ser percebida, mas com um poder sábio de se fazer presente, mesmo que de forma frágil. Felizmente, existe um momento em que o cantor explora tons que se aventuram em uma maior extensão vocal diante do surgimento de uma guitarra suspirante. Com sua sonoridade aguda e envolta em uma leve acidez, o novo instrumento consegue romper o marasmo estético-estrutural e devolver o ouvinte à sua própria lucidez, ainda que não interfira na essência consistentemente brisante da obra. E mesmo assim, a consistência e a densidade são qualidades muito bem asseguradas em razão da presença transparente do baixo e de seu groove encorpado que, por vezes, se pronuncia por meio de momentâneos rompantes gordos.
É verdade que Only Love, mesmo se tratando de um EP, se mostra um tanto curto. Ou talvez seja a sua envolvência, algo tão bem trabalhado, que não deixa o ouvinte sentir o peso do tempo perante a sua completa execução. Sendo uma coisa ou outra, o fato é que, com o material, Mark Moule entregou uma junção de ecossistemas moldados em delicadeza, intimismo, frescor e, principalmente, serenidade.
Ainda que a melancolia e o torpor sejam qualidades sensoriais igualmente exploradas perante a totalidade do material, o amor, a paixão, o carinho e a textura da maciez causam um estado de conforto irresistível e viciante, mesmo nos momentos em que há uma aventura em meio à sensualidade em seu tom devidamente sexy. Perante esse universo sônico-sensorial, Only Love se consagra como um material que captura a autêntica e crua energia que reflete o compromisso do artista para com a sua própria visão artística.
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Spotify: https://open.spotify.com/intl-fr/artist/7MhJyhgAr9PNjUcomzptWP



