WATERSHED | Markus Mehr lança EP que consiste na busca por um material sonoro do início da guerra russa contra a Ucrânia

Causar estranheza é uma capacidade de fato surpreendente e até mesmo visionária. Contra tudo o que se sabe sobre a gradatividade do som e da estrutura que se espera encontrar em um processo de introdução, a presente composição oferece o novo, o que acaba fornecendo o audacioso e o ousado. Com seus instantes de silêncio verdadeiramente incômodos rompidos por um som grave e de inclinações levemente estridentes, a faixa vem com um desconforto interessante ao fazer da solidão o seu palco idiomático. Crescendo de maneira a fazer essa sonoridade reverberar a partir de um movimento cíclico ascendente e descendente, a faixa vai fazendo com que a própria textura do chiado, além de lhe conduzir a um caminho de pura crueza, funcione como o único elemento palpável capaz de manter a lucidez e afastar, mesmo que com muito esforço, os ímpetos de letargia. Day 17 é uma faixa silenciosa e é justamente essa essência que a torna tenebrosa, desconfortável e até mesmo sombria. Ainda assim, não é apenas interessante, mas essencialmente importante perceber que a obra não esconde as suas fraquezas, o seu lado vulnerável e de extrema instabilidade. 

Da mesma forma que na canção anterior, a presente obra se anuncia a partir do breu, do vazio. Diante de um aspecto completamente solitário e nebuloso, um som de conotação sintética treme com dificuldade bem ao fundo a ponto de demonstrar a sua fraqueza do jeito mais natural possível. Ganhando aparentes inclinações guturais conforme avança em meio à sua própria desenvoltura, a faixa chama a atenção por dar a impressão de se pautar em estímulos sensoriais afligidos pelo viés fantasmagórico emanado. Promovendo a percepção de contornos de natureza interessantemente transcendentais, a faixa parece fornecer uma tomada imediatista e urgente por meio de um acelerado crescente de um som sintético levemente estridulante que antecipa a surpreendente ênfase dada a um detalhe que parece ser proveniente da buzina amplificada de uma locomotiva. E o que choca é que, com a mesma velocidade em que surge, ele se esvai, dando a ideia de uma trilha sonora de longas-metragens de terror e suspense. Enquanto navega por Day 15, o ouvinte consegue conviver com o torpor e com o delírio na mesma medida, deixando até mesmo dúvidas sobre as fronteiras que dividem a realidade da alucinação.

Diferente das suas antecessoras, o que White Dove Black Sky apresenta é uma introdução que não dá muito espaço ao vácuo, ao silêncio. Apenas com breves ausências sonoras, a canção se apresenta ao ouvinte e rapidamente põe em cena uma sonoridade de estridência vulnerável que carrega consigo grande semelhança com o barulho emitido pela maquita. Ecoante e ganhando a companhia de nuances que aparentam o farfalhar de folhas e papéis, essa identidade sônica faz com que a faixa acabe se traduzindo como a união de diferentes cantos de variados pássaros, elucidando que o que parecia maquita é, na verdade, o cantarolar de uma coruja interagindo com diversas aves. Cheia de contrapontos e quebras rítmicas, White Dove Black Sky oferece ao ouvinte, inquestionavelmente, uma paisagem noturna e mística que tem, em si, a essência do experimentalismo.

Tal como a sua antecessora, a presente faixa deixa de lado o silêncio e explora sons provenientes de métodos não convencionais. Estridentes e de texturas rasgadas, as nuances sônicas, em um primeiro momento, chegam até mesmo a parecer retiradas de elementos percussivos, mas basta um pouco mais de evolução para perceber a sua natureza sintética e de natureza instável. E por falar em evolução, é a partir do seu crescimento estético-estrutural que a obra se permite transpirar uma base sonora de caráter surpreendentemente atmosférico capaz de sugar a lucidez do ouvinte e torná-lo refém da própria existência. Surpreendendo por fornecer um viés épico a partir de um sonar de identidade curiosamente adocicado aparentemente proveniente de um teclado ou de um órgão emulado, Day 7 tem torpor, tem pungência, tem drama e tem uma introspecção letárgica marcante que divide espaço com as inserções esganiçadas. 

Dialogar sobre WATERSHED não é uma tarefa fácil. Definitivamente não. Afinal, além de se tratar de um EP com uma lista de faixas enxuta que, compreendendo um total de quatro capítulos, ainda se posiciona como um material instrumental, o que aumenta a sua própria complexidade. Necessitando fazer com que o som funcione como um enredo completo, compreendendo harmonia, melodia, ritmo e letra, o material faz mais do que isso, ele parece ter a capacidade de romper a parede do distanciamento e fazer com que tudo seja sentido como na posse do próprio ouvinte.

Entre o caos e o torpor, o atmosférico e o introspectivo, o EP traz consigo momentos de estridências marcantes e de silêncios incômodos que destacam a identidade da vulnerabilidade sem dizer de quem ou para quem. Explorando ambientes solitários que consequentemente despertam a melancolia e o lamento, WATERSHED é onde Markus Mehr busca a sonoridade que representa o início das investidas bélicas da Rússia contra a Ucrânia ao mesmo tempo em que assume a essência de uma súplica pela paz, pela liberdade e pela democracia.

Mais informações:

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