Wandering | Tonje Gravningsmyhr apresenta álbum que dialoga sobre o amor em todas as suas fases

O ecossistema que molda a composição, ao menos durante os seus momentos introdutórios imediatos, é de uma introspecção completamente e indubitavelmente entorpecente graças à textura psicodélica fornecida pelo flugelhorn. Nesse ponto, é importante salientar que o instrumento, muito além de sugerir o introspectivo e o amofinante, traz consigo um vislumbre espacial de nuances esotéricas que, de forma definitiva, rouba a lucidez do espectador. Felizmente, junto dele existe uma camada lírica em constante evolução que, graças à interpretação verbal perpetrada por Tonje Gravningsmyhr e seu timbre misto de agudez e nuances equilibradas entre o nasal e o grave, tenta devolver ao menos uma parcela significativa de consciência. Entre a presença de sintetizadores que despejam acidez e requintes atmosféricos de forma a flertar com uma roupagem associada à new wave, Nightwalk explode em um refrão de movimentação amaciada e fluida em razão da identidade da bateria presente na base rítmica. Dessa forma, se confirma o contraste entre a reflexão, a introspecção e o místico diante de uma paisagem sônica puramente sintética.

Ainda que nasça com sugestões rítmicas, mas não de uma forma de fato evidente, ou seja, soando apenas como uma ideia de cadência, a faixa já é capaz de oferecer noções sincopadas ao ouvinte desde os seus primeiros instantes sonoros. Com direito a um vislumbre sensorialmente transcendental a partir da saliência de um sonar de conotação fria e levemente bojuda, a faixa vai caminhando com calma perante um alicerce de energia mística e atmosférica com direito a ventos de uma dramaticidade prematura. Denotativamente brisante, a canção expõe uma construção melódica cheia de delicadeza, mas capaz de incitar reflexão, pesar e momentos de uma profundidade ambiente bastante intensa, You Do It Wrong consegue misturar inclinações swingadas com uma energia mista de lamentação e melancolia.

Depois que um som sintético e agudo recebe o ouvinte como uma clara imitação do processo crepuscular do nascer do dia, o piano entra em cena por meio da exortação de notas duplas e de conotação levemente grave. Trazendo a delicadeza para o centro da mesa, mas sem deixá-la atingir um patamar tocante e de ternura, a faixa consegue experimentar, curiosamente, uma conotação esotérica envolvente por meio de suas modulações melódicas sintéticas. Instrumentalmente minimalista, Up High se mostra como uma obra de aparência contemplativa que chama a atenção do ouvinte de uma forma genuína ao passo em que flerta, esteticamente, com inclinações de um folk de nuances curiosamente fantásticas.

O som dos trovões e dos raios cria um curioso contraponto com a desenvoltura da sonoridade sintética que se apresenta logo em seguida. Passados esses rompantes de súbita agressividade, a faixa encaminha o ouvinte para um momento regido por corpo e consistência, mas também por uma graciosa inclinação para com um onírico atmosférico. De aroma floral e uma conotação interessantemente romântica, Tight é uma faixa que, mesmo quando ganha novos elementos, os colca em cena diante de desenvolturas suspirantes e tão frágeis que indicam uma vulnerabilidade exacerbadamente emotiva.

É chegado o momento em que o álbum oferece e apresenta uma composição de ambiência mais palpável, consciente e graciosamente radiofônica. Diante de uma introdução calmamente puxada por um violão de ressoares delicados e frescos, a faixa chama a atenção por misturar, à agudez adocicada do instrumento, suspiros ácidos vindos da guitarra. Quando a bateria entra em cena, a composição passa a garantir, para si, precisão, pressão e um senso de fluidez que sugere, consequentemente, a maciez em suas nuances de continuidade estrutural. Ainda que seja a canção mais curta do disco, Wait For A While ainda conta com sobreposições vocais ululantes e de breves inclinações angelicais que lhe conferem uma aparência levemente celestial. 

Não apenas seguindo, mas, principalmente, amadurecendo essa conotação de contágio, mas sem ser necessariamente apelativa, Rome Wasn’t Built In A Day traz consigo uma estrutura estética que combina o compasso repicadamente amaciado da bateria, o veludo do riff da guitarra, brisas de uma psicodelia ousada sugeridas pela reprodução do sonar do hammond, rompantes cuidadosamente bojudos do baixo e um dulçor limpo oferecido pelo teclado. A partir daí, melodia se consagra firme e permite à Tonje a assumição de uma interpretação lírica intimista que ganha um encantamento gracioso com a valsa serena ofertada pelo violino.

Surpreendentemente, o que puxa a introdução não é mais o sintetizador, o piano ou qualquer outro instrumento previamente apresentado. Com seu veludo cuidadosamente estridente, o trompete entra em cena sugerindo uma maciez envolvente e de insinuações entorpecentes. Curiosamente explorando a sensualidade perante os pulsos tilintantes do pandeiro, o instrumento consegue expandir o aroma místico e tribal que Let This Go apresenta diante da presença de elementos percussivos de texturas sônicas opacas. Brisante e aromática, traz consigo uma espécie de consciência associada à necessidade de continuidade. Aqui, é importante mencionar que a tristeza existe, mas ela divide espaço com uma força que sugere a superação e um olhar penetrante rumo ao futuro incerto.

Wandering simplesmente ganha a atenção do ouvinte pelo seu caráter atmosférico, mas não apenas em sua forma categórica. Afinal, dentro desse escopo, existem questões sensoriais associadas à delicadeza, ao esotérico, ao místico, ao transcendental e até mesmo ao tribal. Uma combinação de ambientes e texturas que serve para atiçar a percepção do ouvinte e despertar, nele, toda a sua capacidade sensorial.

A partir daí, a viagem proposta pelo álbum fica mais interessante por escancarar uma profundidade que, às vezes, pode fugir do primeiro olhar. Diante de um instrumental que combina o protagonismo quase autoritário do sintetizador com elementos como bateria, guitarra, violão, violino e as excentricidades do flugelhorn e do trompete, o disco convida o ouvinte a viajar pelo veludo e pelo estridente, mas também pelo incansavelmente brisante que desemboca em sugestões que vão da reflexão à melancolia com notável versatilidade. 

Tais detalhes, presentes e enaltecidos principalmente no decorrer das sete primeiras faixas do material, destacam o fato de que Wandering navega consistentemente por todas as fases do amor, compreendendo a perda, a excitação e a saudade da estabilidade. Tudo dito de uma forma sensível, terna e, principalmente, tocante.

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