This Monologue Conversation | I Plead Irony lança álbum que ficou 10 anos em produção

Ela já tem um início marcante, mas não por ser explosivo, intenso ou soturno. Longe de convenções, a obra não traz consigo um despertar melodioso, manso e gradativo. Não basta apenas ele ser desenhado a partir do baixo, como, inclusive, o próprio instrumento domina, para além da base sonora, a superfície. E para fechar a conta das surpresas, seu som não é limpo ou encorpado, mas distorcido, sujo, áspero e com chamativos requintes de estridência. Como uma espécie de prelúdio ou presságio, tal elemento permite que o restante dos instrumentos entre em cena com a mesma sintonia do distorcido e com flertes intransigentes em relação à ideia da dissonância. Enquanto a guitarra se apresenta entre contorções, a bateria, em uníssono, traz consigo golpes enfáticos que se traduzem em precisão e pulso. Mesmo diante dessa paisagem, o ouvinte ainda consegue encontrar resquícios melodiosos capazes de sugerir inclinações para com o rock alternativo, mas mantendo a sua base stoner. Esboçando traços de um breve caos associado a um desejo por intensidade, Architect Effect acaba mergulhando em um tom dramático a partir do despertar do enredo lírico proclamado por uma voz masculina de timbre intermediário. Transpirando boas doses de agonia, o vocalista transforma a composição em uma espécie de peça melancólica, mas sem a natureza apelativa da pungência.

Aqui existe um cenário diferente que enriquece a conjuntura do álbum já durante o desenrolar de seu segundo capítulo. Afinal, Inside The Lines não enxerga a luz através de melodias naturais, mas sim a partir de frases rítmicas repicadas e dinâmicas que, além de trazerem texturas crocantes, conseguem transformar o seco e o bruto em algo surpreendentemente toante. Fluindo para momentos de introspecção, mas sem deixar a dramaticidade entrar, a canção explora uma interessante camada de frescor conforme a guitarra se livra da distorção áspera para encontrar certo grau de leveza em meio à sua própria desenvoltura. Sincopada e com traços de fluidez suficientes para promover a atenção do ouvinte, a faixa traz consigo um refrão de caráter radiofônico que ressoa na mente do ouvinte em looping devido ao seu grau de pegajosidade.

Não é necessariamente um pé no freio da intensidade até então desenvolvida. Porém, é inevitável a percepção de uma ligeira descida no tom da sonoridade. A partir desse detalhe, a canção coloca o ouvinte em contato com uma melodia mais branda e com uma fragilidade que chega a sugerir a reflexão. Minimamente swingada, a composição é marcada por um refrão melodramático pulsante que a torna, definitivamente, a primeira balada declarada de This Monologue Conversation. Entorpecente, Call In The Sun chama a atenção por oferecer uma estrutura rítmico-melódia que indica boas similaridades estéticas com o som construído pelo Kings Of Leon, banda cujo cantor, Caleb Followill, possui timbre parecido com o do cantor do I Plead Irony.

A intensidade e o sabor azedo retomam com grande potencial já a partir da introdução de Settle Or Raise. Diante de um riff distorcido e pendendo para o grave, a guitarra pede por um ritmo firme e pulsante que é construído de imediato. Entrando nessa mesma sintonia, o vocalista também pronuncia os versos líricos com mais ênfase e entrega, dando à obra um interessante e audacioso caráter de urgência que flerta, inclusive, com o imediatismo. O curioso, porém, é observar a existência de traçados lírico-interpretativos que, junto à instrumentação, põem o espectador em contato com  contornos de um torpor ousado.

O fato de ser puxada pelo reverberar sujo do chimbal aberto já dá à composição uma característica de dramaticidade inquestionável. Em união ao tom adotado pelo cantor, essa sensibilidade se concretiza, além de trazer consigo notas de um soturno penetrante e pegajoso. Inclusive, existe, conforme o escopo sonoro se desenvolve, a presença de um elemento sintético que deixa o ambiente mais denso e tenso em meio à exploração da melancolia que se apresenta como ingrediente viral. Diante dessa paisagem, Undone se apresenta como uma composição de entrega e profundidade emocional que conduz o ouvinte a um instante de visceralidade tocante que o prende e o contamina. 

Explosiva e intensa, mas sem exageros, a composição pega o ouvinte a partir do choque elaborado pela união dos pulsos rítmicos explosivos e do riff distorcido e intermediário da guitarra. Agraciada pelo grave azedo e estridente do baixo na base melódica, a canção não esconde a densidade e a sua força sonora, contribuindo para a disseminação de um bom grau de eletricidade. Curiosamente, ao se atentar ao aspecto melódico oferecido pela obra, o ouvinte logo percebe uma similaridade audaciosa em relação ao formato da estrutura desenhada por Ludwig van Beethoven para a sua 5ª Sinfonia. Tal detalhe destaca até mesmo a grandiosidade e a dramaticidade expressas nos momentos iniciais da composição, que se transforma em uma espécie de agonia entorpecente que captura o espectador e o torna refém de Nervous System. 

Não dá para dizer que o que o I Plead Irony traz é somente um material embasado no universo do rock. Afinal, conforme o ouvinte caminha pela sua track list de 11 capítulos, ele se depara com momentos de suavidade, torpor, intensidade, dramaticidade, acidez e visceralidade combinados com um instrumental estridente e impulsivo, mas igualmente soturno. 

Ainda assim, não é apenas o caráter dramatúrgico que chama a atenção. Precisamente, é o caráter teatral que o material oferece que deixa os ouvidos do espectador eriçados e atentos, até porque é de surpreender a forma como o grupo funde influências beethovianas em seu desenho sonoro. E isso é perceptível no decorrer das seis primeiras faixas.

Claro que, na soma de destaque, Death By Internal Combustion, com a sua introdução narrativa, cética e desesperançosa, além de seu refrão pungente e possuinte da maior duração entre os demais títulos, merece igual brilho. Com ela no fecho dialético, This Monologue Conversation, após 10 anos de produção, atinge a luz do dia e oferece enredos que refletem o medo, identidade, autodestruição  e conformidade.

Mais informações:

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