Depois que o som ambiente do aviso tilintante do elevador chegando ao andar solicitado, a canção é respaldada por uma introdução instrumental mansa proporcionada pela maciez do violão. Rapidamente, porém, ele é acompanhado por uma bateria que se apodera do escopo rítmico por meio de uma levada 4×4 que serve de respaldo para os uivos distorcidos e agudos da guitarra que surgem em seguida. Enquanto eles ecoam de forma sequencial, uma voz aguda e levemente ácida entra em cena começando a moldar o escopo lírico. De tonalidade bastante semelhante àquela de Geddy Lee, esse timbre é usado perante uma cadência que oferece uma segunda base de movimento ao ouvinte, uma vez que o âmbito rítmico-melódico se apoia em uma estrutura linear. É nesse ínterim que The Lift, mesmo agraciada por um baixo encorpado de groove trotante, expressa uma espécie de folk cuja harmonia obtida cria um parentesco interessante em relação ao que se obtém em The One I Love, single do R.E.M..
O piano se apresenta por meio de notas de tonalidades semelhantes, mas capazes de construir um movimento que brinca entre noções crescentes e decrescentes como uma verdadeira onda. Delicada, mas curiosamente transpirando um contorno prematuramente melancólico, a faixa vai evidenciando a sua postura introspectiva ao mesmo tempo em que exibe inclinações que indicam a reflexão. Surpreendentemente, assim que o restante dos instrumentos entra em cena, diversas referências e universos sonoros se unem de forma audaciosamente sincrônica. Citando a bateria em primeiro lugar, ela se apodera da base rítmica com um compasso acelerado e sincopado cuja essência traz a estrutura fidedigna do forró, detalhe que lhe proporciona um caráter de excentricidade marcante, algo seguido, também, pelo baixo. Por outro lado, a flauta, com seu dulçor aveludado, introduz o folk sob uma ótica hipnótica, mas não agressiva ou intransigente. Combinando sensualidade e uma natureza sincopada, Stockholm Syndrome Reversed se destaca, inclusive, por ter seu escopo lírico narrado por uma voz feminina doce, mas firme.
Ele surge por entre notas de conotações graves, mas respaldadas por certa agudez que auxilia na obtenção de um caráter sensorial dramático. Ainda que esteja elaborando uma cenografia suave, o piano faz da introdução um movimento de brisas levemente transcendentais que insere uma brisa curiosamente gélida no ambiente. Ao mesmo tempo, o ouvinte consegue se deparar com uma textura áspera, rompendo com a fluidez do instrumento de teclas de forma a se assemelhar à figura do vibra slap. Introspectiva, a obra é agraciada por um enredo lírico introduzido de forma lexicalmente narrativa pela mesma voz masculina que recepcionou o ouvinte na faixa de abertura do álbum. Entre suspiros profundos, sons estridentes que cessam, tilintares que sugerem uma identidade onírica e um consequente estímulo entorpecente, Half-Life é liricamente narrada pela voz feminina apresentada durante a segunda obra do material. Interessantemente, ela, respaldada por sobreposições vocais que conferem à presente faixa uma nuance ecoante, parece disseminar a ideia de resiliência por meio do auxílio do suavizar do violão na dianteira melódica.
Aromática, delicada e capaz de transpirar uma sensorialidade curiosamente nostálgica, a faixa apresenta uma sonoridade macia, aconchegante e envolvente de forma a exortar até mesmo um caráter de bondosa compaixão. De escopo rítmico sincopado, mas gracioso, e de escopo harmônico-melódico de fácil digestão, Damage vem com um desenho estrutural radiofônico, mas longe de ser apelativo. De pronúncias líricas mais aceleradas do que o próprio escopo instrumental, o que ocasiona em uma interessante quebra de cadência, a faixa encontra, nos versos verbais, rimas e trechos com metalinguagem que destacam certa ousadia por parte do Ghost Of Panama.
É como se o violão adquirisse uma textura ressonante em razão da proeminência de seu som e dos leves ecos que produz. Inclusive, a sua estética arpegiante traz muito da identidade alcançada por Pete Townshend no amanhecer de Behind Blue Eyes, single do The Who. Adornada por uma base sintética, mas de natureza atmosférica, essa melodia vai, gradativamente, dando à canção contornos mistos de reflexão e contemplação. De baixo groovado, mas frágil, The Ultimate Maybe caminha de forma a trazer um movimento que sai da lamúria e encontra a potência suficiente para alcançar a superação. Tudo isso diante de um frescor de natureza dramática que abraça o espectador de maneira terna.

Aqui existe uma interessante e bem colocada sobreposição melódica entre os uivos da guitarra sob o efeito do lap steel e um violão seco dominando a base melódica durante o processo introdutório. O interessante é que, mesmo marcada por um sabor levemente azedo, graças à tonalidade vocal da cantora, a canção consegue fazer com que o dulçor se sobressaia como sabor. A partir do instante em que o chimbal entra em cena exalando a sua identidade seca, a composição tem exortados os seus primeiros sinais de compasso rítmico. Contando com um baixo de groove encorpado e trotante, além de um piano de dedilhares sabiamente açucarados, Ghost Of Your Perfume se apresenta como uma música que mistura nostalgia, melancolia e romance em um enredo envolvente, penetrante e marcante.
Não é apenas a suavidade que chama a atenção no decorrer da audição completa de suas 10 faixas. The Last Food On Earth se destaca pela forma como combina contemplação, intimismo e reflexão sem parecer piegas ou até mesmo dogmático. Diante de silhuetas folks adornadas por harmonias de extrema delicadeza, o disco fornece torpor, mas não a ponto de roubar a consciência do espectador. Aqui, a morfina vem apenas como uma maneira de promover a expansão sensorial.
A partir daí, não fica difícil o mergulho profundo perante universos que misturam introspecção, nostalgia, melancolia e toques graciosos de romance. Capazes de serem bem perceptíveis graças a um trabalho equilibrado de mixagem, essas características fazem com que o disco seja um produto denotativamente envolvente, especialmente em razão da sintonia existente entre os cantores.
Apesar dessas questões serem muito bem salientadas no decorrer das seis primeiras faixas da track list, o álbum ainda tem Afterlife como outra grande composição. Afinal, a canção apresenta um contexto psicodélico em meio à base folk de forma a exortar o dramático e o transcendental. Com ela na soma, portanto, The Last Food On Earth traça a anatomia e o ciclo de vida de um relacionamento de forma bastante sincera.
Mais informações:
Spotify: https://open.spotify.com/intl-fr/artist/0GDVoxzYsjpQQifflI5Fd8




