Existe, durante seus primeiros instantes introdutórios, uma mistura de elementos sônicos digitais com a construção de um ambiente de conotação sombria. Nesse momento, o ouvinte, sem grandes dificuldades, é capaz de identificar singelos contornos industriais abraçando o contexto em formação, causando uma mistura de expectativa e tensão. Inclusive, não é difícil que a atmosfera acabe transpirando, de igual forma, nuances sci-fis em razão de sua estética brevemente tecnológica. Eis que uma voz masculina de timbre agudo e nuances azedas começa a preencher e executar o nascimento e a construção do enredo lírico. Exibindo um tom entorpecido de urgência, o cantor se utiliza dessas inclinações digitais para criar não apenas uma sensação futurista, mas, principalmente, distópica, calamitosa e descrente. De sonoridade estritamente linear com ligeiras mudanças em suas modulações, El Día Después ganha pressão, cadência e densidade apenas nos momentos em que se felicita da presença da bateria na ânsia de elaborar e ofertar um âmbito propriamente rítmico. Recriando uma interessante esfera estética setentista, a composição parece dialogar sobre o peso do desejo e a insuportável presença onipresente da culpa assombrando o inconsciente. Entre a necessidade da redenção e uma espécie de autopunição, a canção traz consigo a busca pelo perdão.
Aqui existe um toque de groove marcante. Mesmo assim, a essência e a identidade da sonoridade seguem o mesmo contorno digital, industrial, futurista e sci-fi da canção anterior. Mudando ligeiramente a sua forma a partir da exploração de uma movimentação levemente mais sensual, a presente faixa chama a atenção por trazer consigo nuances orgânicas e acústicas a partir da ondulação seca produzida pelo chimbal. Contagiantemente sincopada a partir do escopo rítmico em andamento, é interessante de se observar como o introspectivo flerta com certo quê de tensão. Ainda mais ousada é a inclinação à roupagem new wave vivenciada pela obra a partir da atuação do teclado em meio ao entremeio dos escopos melódicos e harmônicos. Conseguindo extrair de sua sonoridade uma singeleza estimulantemente dançante, mas de forma curiosamente robótica e humanoide, Oculto En Tus Ojos explora uma postura curiosamente sorrateira ao se aventurar por uma mistura metafórica de relacionamento, destino e amadurecimento. Misturando o sombrio com um toque provocativamente misterioso, a faixa traz consigo um caráter reflexivo potente.
Trazendo consigo diversas camadas sonoras sintéticas sobrepostas de forma a criar certa complexidade denso-reflexiva, a canção não se priva do oferecimento de lampejos dramáticos pinçantes a partir de um sonar grave que rouba, gradativamente, o seu protagonismo estético. Mantendo o sombrio, mas com um toque ainda mais acentuado de uma sensualidade vista apenas como uma maneira de produzir uma nuance macia em sua sonoridade, a composição se apoia na mesma estratégia de El Día Después no que se refere à contribuição da bateria como elemento a produzir um efeito de precisão, cadência e certo grau de densidade. Com um sintetizador capaz de criar uma atmosfera de elevação associada a um caráter de redenção, Tu Enigma marca mais um capítulo em que o Horizonte Lied traz em seu lirismo nuances de superação. Aqui, porém, existem questionamentos e críticas à ânsia pela fortuna na forma da ganância. Inclusive, há a discussão acerca do artifício do tempo como método sábio em prol do esquecimento dos absurdos vivenciados pela sociedade. O enigma parece ser uma ousada figuração da verdade acerca dos mitos criados como forma de manipulação social.

É chegada aquela que apresenta a cenografia mais sombria, asquerosa e cínica. A partir da performance da guitarra durante a introdução, o ouvinte é colocado em contato com uma energia curiosamente carniceira, espreitosa e debochada em um sentido agressivo. Pegajosa e soturna em certa medida, é interessante perceber que a canção traz consigo uma semelhante essência atmosférica em relação à sonoridade de bandas como P.O.D. e Korn. Com boa presença do sintetizador na criação de algo propriamente melódico, mas sem desviar da tomada sensorial obscura e cisuda, a obra ousa ao criar esferas dissonantes e caóticas que desembocam em um estado de tensão inevitável. Ritmicamente sincopada e de andamento curiosamente amaciado, Punto Crucial é uma faixa que lida com a necessidade do enfrentamento dos medos e das feridas do passado como uma forma de encontrar paz, superação e redenção. Acima de tudo, a faixa explora uma visão de autoconhecimento sem confetes ou enfeites. Com crueza, a mensagem sobre a divulgação da essência e, a partir dela, procurar certo amadurecimento, é nítida e clara.
É como se a faixa conseguisse criar a sensação de estar nas profundezas do mar, com uma audição opaca em que só a água e seus movimentos são capazes de criar um mínimo de ruído. Ao mesmo tempo, esse efeito sonoro parece corresponder com o imaginário do abissal e do nebuloso, criando um interessante tom de insegurança e vulnerabilidade. Explorando mais as texturas do que seu próprio som especificamente, a canção vai evoluindo de forma a trazer o tenso, o sincopado e o pegajoso a partir da fusão do sintético com o orgânico. Sob o efeito de reverb, o escopo lírico vai dominando o ecossistema como a voz do inconsciente falando diretamente com o seu hospedeiro. Diante dessa roupagem, Romper Una Era traz, assim como na faixa anterior, o orgulho como um ponto central de sua narrativa. Associando-se à ideia do tempo como um manipulador do estado de consciência, a composição busca criar certo senso de responsabilidade nos feitos do ontem nos dias de hoje.
Ao percorrer a sequência de faixas de Nuevos Horizontes, o ouvinte é colocado diretamente em contato com uma paisagem sonora industrial e digitalizada que, acima de tudo, é marcada pela exploração de texturas ante o aspecto propriamente sonoro. Entre brisas de maciez, requintes de sensualidade e um esmagador aprofundamento no senso de tensão e vulnerabilidade, o material caminha entre o distópico e o inconsciente com uma versatilidade invejável.
Misturando mensagens líricas que combinam amadurecimento e resiliência com questões associadas à culpa, ao orgulho, à ganância e à assumição da própria essência, o EP traz consigo uma análise social interessante acerca da culpa e da manipulação. Enfatizando o viés reflexivo do Horizonte Lied, Nuevos Horizontes, através de narrativas construídas no idioma espanhol nativo do grupo, funciona como um encerramento simbólico a um capítulo conflituoso na identidade sonora da banda.
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