Confira o peculiar novo disco de Cale Anderson

Para falarmos das peculiaridades deste disco e de seu autor, temos que apresentar um pouco do que os moldaram e como feito (ou talvez não). Afinal de contas, temos em mãos um trabalho excêntrico, que exige atenção, mas que pode ser compreendido por todos caso seja ouvido com calma e boa vontade.

Cale Anderson é um compositor, músico e produtor australiano que, segundo ele mesmo, não faz a menor ideia do que diabos está fazendo. Ele começou a tocar um teclado Yamaha logo após 2001, criando pequenas canções e improvisando naquele piano digital baratinho. O instrumento trazia ‘samples’ de outros pianos, metais, orquestras, violoncelos, guitarras, etc., que soavam muito bem quando acompanhados por uma batida de bateria ao fundo. Às vezes, até mesmo o ‘sample’ de macaco ou o de leão ficavam sensacionais sobrepostos àquele som de violoncelo barato e cafona.

Cale começou a experimentar o violão Takamine F340s (modelo de 1970) do pai. Não era a versão da época do processo judicial da Martin, mas sim a versão com o ‘headstock’ redesenhado e o logotipo da Takamine que vemos nas lojas hoje em dia. Ele tocou esse violão até enfrentar uma crise de saúde mental em 2022, quando o destruiu — literalmente reduzindo-o a milhares de pedacinhos… Talvez pedacinhos resumissem bem o som que ele propõe, mas isso falaremos mais à frente.

Enfim, com estes mais de 20 anos na música, Cale moldou seu som, que na verdade continua sendo moldado e chegamos então ao seu mais novo disco, este “Yemaya”, onde ele trilha caminhos do que chama de ‘folktronica’. Isso mesmo, um folk mesclado com música eletrônica, pois seu som, ao mesmo tempo em que é sintetizado, traz uma essência clássica, o que dá todo diferencial.

Liricamente, o disco é uma obra devocional de adoração à Deusa que abrange diversos gêneros, incluindo — mas não se limitando a — música eletrônica, espiritual/devocional, hip-hop, folktronica e art pop. O álbum foi composto para descrever um certo nível de paixão que acompanha tanto o romance quanto o amor por um poder superior.

Ainda no nível técnico, “Yemaya” teve todos os instrumentos afinados entre 443,90 Hz e 445 Hz, estabilizando-se em torno de 444 Hz. O projeto foi criado utilizando apenas o Maschine Mk3, um pouco de guitarra e um microfone Rode NT-1. Os plugins utilizados são quase exclusivamente da UVI; alguns exemplos incluem Synth Anthology, Quadra, Cameo e Volcum.

Pois bem, o disco abre com “We all Come from the Goddess”, uma faixa que começa com sons de tubo e um coral de batalha, em um aspecto um tanto quanto medieval, mas com o adendo dos sintetizadores. Sem dúvidas, a música já representa bem a peculiaridade do álbum.

Enquanto isso, “Mother of Souls” é uma faixa que entrega algo mais moderno, uma batida sobreposta e um baixo grave vibrante e provando a versatilidade do som de Cale. O primeiro elemento acústico e vocais dramáticos aparecem em “The Peral Of The Woman God”, mas por pouco tempo, já que a faixa apresenta consistência assim que começa suas distorções e vibrações.

“444” traz um pouco de new age e synthpop aos tempos atuais, quando se mescla com leves toques de hip-hop e chama atenção também por suas vocalizações melódicas e sentimentais. Enquanto isso, “Project Kali”, mesmo mantendo as características do que Cale moldou, tem um ar mais melódico e é uma das mais acessíveis do disco. Findando a primeira metade do disco, “The Mindless Serenade” é um quase um interlúdio e só não o é porque prima pela batida de boa dinâmica, graves chamativos e uma melodia de fácil assimilação.

“Invicible Heart” chega um pouco introspectiva, apesar da levada descontraída. Talvez esse sabor agridoce faça da faixa uma das mais interessantes do trabalho (presta atenção no teclado diferenciado dela). Enquanto isso, “Imperfections” traz uma beat dinâmico e bases sólidas, soando versátil dentro de si e também com uma melodia cativante.

A faixa título chega de fato como um trabalho instrumental. “Yemaya” é uma música com graves consideráveis, batida com elementos se sobrepondo e camadas de sintetizadores que vão do ruído aos mais harmônicos, gerando uma música moderna, mas sem deixar a veia clássica de lado.

Indo para a reta final, temos alguns bônus interessantes, que nos faz ter percepções diferentes, na ocasião, as faixas escolhidas foram “444”, que deixa mais evidente suas camadas atmosféricas e “Mother of Souls”, que tem seu brilho mantido com maestria, mesmo dispensando os vocais, se mostrando uma das principais composições do disco. Mesmo com apenas 24 segundos, “Outro” fecha o disco com impacto, provando que tudo é diferenciado em “Yemaya”.

Músico e produtor, cantor e compositor de Victoria, Austrália, Cale Anderson consegue trazer o diferenciado sem soar forçado e sem se preocupar com qual status sua sonoridade irá atingir. Sem dúvidas, o disco deixa seus objetivos bem claros e ainda nos oferece uma viagem experimental sonora.

https://www.caleanderson.music

https://www.caleanderson.bandcamp.com

https://www.YouTube.com/CaleAnderson

https://www.instagram.com/caleanderson_

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