Novo disco de Music By Jeremy dá continuidade à estreia no cenário

Estreias sempre apresentam momentos ambíguos dentro da música. São super delicadas e podem funcionar como realmente um começo, mas se não tomar cuidado tudo pode ir por água abaixo. Logo, elas também devem ser vistas (aqui no caso ouvidas) com cuidado, pois é toda uma carreira que está começando.

A criatividade e a empolgação costumam estar em alta nestes momentos, mas a euforia pode por tudo a perder, ou seja, as estreias são aquela faca de dois gumes. Normalmente funcionam, mas exigem muito do artista para que ele marque seu território num cenário prolífico, onde não soar diferenciado pode passar despercebido.

Jeremy, o cara por traz desde projeto chamado Music By Jeremy, é um cantor, compositor e multi-instrumentista de Banbury, na Inglaterra, e faz sua estreia com um projeto que desafia os limites habituais de um primeiro trabalho. Bebendo de uma vida inteira de referências musicais — moldadas pela honestidade confessional de John Lennon, pela maestria narrativa de Bob Dylan e Randy Newman, e pela reinvenção destemida de David Bowie —, Jeremy criou algo raro: uma obra madura e plenamente realizada, que não abre mão da ambição nem da verdade emocional.

Trabalhando de forma totalmente independente em um estúdio caseiro, ele toca violões, guitarras e baixo sem trastes, utilizando ferramentas de IA generativa — treinadas com sua própria voz — para compor a banda que ele não pôde reunir presencialmente. Como leitor (futuro ouvinte) pode ver estamos diante de um artista que desfruta da tecnologia atual e não descarta ferramentas complementares para o seu som.

Com isso, além de uma estreia ousada, ele traz criatividade híbrida o que gerou este seu disco de estreia. Trata-se de “Scenes From a Well Worn Path (Side Three)” que é a terceira parte de um álbum duplo de quatro segmentos e 24 faixas que funciona como uma autobiografia estruturada em cenas fundamentais. Enquanto os dois primeiros lados voltavam-se para o interior, o terceiro lado volta-se para o exterior — expondo problemas em vez de emitir opiniões, levantando questões em vez de oferecer respostas.

O disco, que saiu exatamente hoje, traz ideias complexas, apresentadas por meio da música em vez de discursos, condensadas em faixas bem estruturadas — com duração entre três e três minutos e meio — que convidam a audições repetidas e se encaixam perfeitamente tanto em playlists mais intimistas e focadas na letra quanto em contextos de produção musical mais elaborada. Ou seja, além de inteligente, o álbum conta com objetividade.

Na verdade, desde a primeira composição, “No Price On Earth”, notamos que Jeremy transita pelo rock, pop, blues, folk e indie. Sempre trazendo também timbres e instrumentações entre o acústico e o elétrico, deixando esse entrelace interessante e mantendo um equilíbrio magistral. Tudo com a sofisticação digna dos britânicos.

Voltando à faixa, temos em mãos um indie folk com resquícios de blues, que dão o contorno necessário à faixa. Nesse aspecto, Jeremy revela o direcionamento vocal, que soa jovial, casando muito bem com os tempos atuais e com aquela característica pop que se encaixa em diversas vertentes.

“I Don’t Know”, uma das principais músicas do disco, chega como uma balada folk magistral e cheia de sensibilidade. Com um violão de base, a música traz um violino que chora invadindo nossos corações sem pedir licença. O destaque fica por conta do trabalho vocal que beirou os falsetes sem se perder nos momentos mais altos. A letra constrói uma canção de amor sob a forma de uma demonstração matemática fracassada.

“Economice Possibilities For Our Grandchildren” chega com um groove contagiante, que chega a nos lembrar do samba brasileiro. Mas, o mais curioso é que Jeremy insere uma melodia que deixa a faixa no seu contexto pop sem perder um pingo da identidade que desenvolve no disco. O título remete ao ensaio de Keynes de 1930 — abre com uma citação de Macbeth para analisar como a abundância surgiu e foi apropriada. Simplesmente uma façanha.

Mantendo o revezamento entre agito e partes mais intimistas, chega agora “How Much Is Enough”, uma composição que não soa exatamente como uma balada, mas sim com um aspecto introspectivo, uma veia mais sisuda e um ar sombrio que traz um violão inspirado pelo blues, dando toda uma sofisticação.

Já em “Market Square” o indie pop pede passagem na hibridez entre violão e elétrico, com prevalência do primeiro e chamando atenção em um aspecto interessante. A faixa traz um trabalho vocal com backings discretos, mas essenciais para trazer toda a sensibilidade da composição à tona, o que encanta de imediato.

Fechando o disco temos uma faixa atípica para a sua posição, o que é um alívio para todos que ouvem música com frequência. Afinal de contas a faixa não fica naquele clima de despedida, pelo contrário, traz um agito digno que deixa o ouvinte mais pra cima, porém com o equilíbrio de uma sensibilidade sempre incrível, que transparece no disco todo.

https://www.musicbyjeremy.com

https://open.spotify.com/artist/6OAOyiI4qMC53BavqatZCI

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