Infinity Fall III | Watch Me Die Inside anuncia EP que aborda o estado de suspensão entre a função, a perda de identidade, o vazio e a resistência

O drama pode ser a primeira camada sensorial que surge em mente a partir do primeiro sinal sonoro emitido pelo piano diante de suas duplas de notas de caráter cuidadosamente adocicado. Expondo, de imediato, uma postura de inquestionável lamúria, o instrumento caminha a passos lentos, evidenciando um compasso baseado na métrica típica do downtempo, reforçando o seu viés emocional cabisbaixo e entorpecente. O interessante, contudo,é perceber que, a cada nova esquina melódica avançada, uma camada de sonoridade sintética e conotação atmosférica ganha breves notoriedades a partir da base sônica. Diante dela, a canção chega a até experimentar traços de uma delicadeza tocante, mas o grau da sua dramaticidade é tão intenso que a pungência restringe a profundidade da comoção. Quando o enredo lírico se anuncia, a canção é tomada por um escopo emocional de nuances surpreendentemente lacrimais em razão do timbre adocicado, frágil e suavemente aveludado do vocalista, o qual cria uma similaridade linear em relação àquele de posse de Josh Paulino. De interpretação lírica capaz de exortar uma profundidade sentimental gritante, ele transpira não somente a tristeza em sua forma simples, mas especialmente a angústia, o desespero e a agonia por meio de súplicas. Ganhando precisão e uma equilibrada dose de pressão a partir da levada rítmica ofertada pela bateria, Uneasy se mostra uma obra que parece relatar o conflito existente entre os puros ímpetos de insanidade e os sinais de lucidez no controle de uma mente completamente instável e à beira do caos.

Depois do desespero atroz e descontrolado, o EP vem ofertar ao ouvinte um momento de calmaria e suavidade. Mesmo que o piano continue caminhando a passos lentos, as suas notas não mais sugerem o mesmo grau de sofrimento e desespero. Aqui, sua tonalidade no entremeio entre a agudez e o grave sugere uma fragilidade envolvente que transpira uma conotação reflexiva marcante. Mantendo, de igual forma, os passos diante de um alicerce sensorialmente dramático, a presente faixa se vale de um comportamento postural gélido, mas envolto em estímulos reflexivos inquestionáveis. Explorando sons ambientes de forma a alcançar uma profundidade sensorial e adquirir uma ousada noção de imensidão solitária, a faixa traz consigo sinais que traduzem a ideia de desmotivação e, portanto, ausência de interesse. O interessante aqui é perceber que, conforme avança, a canção se felicita pelo seu escopo rítmico pulsante, mas não padronizado na métrica 4×4, e se envolve em meio a um interessante sopro de veludo exposto, aparentemente, por um teclado que reproduz a identidade sônica do fender rhodes. Boring, a partir dessas percepções, transpira uma essência melancólica pungente que é gentilmente engrandecida pelos uivos contorcidos pela sobreposição de voz usada como backing vocal, detalhe que dá ainda mais peso dramático à obra por esboçar a dor em forma de ondulações líricas.

O caos se instaura. Não há padrão rítmico. O piano se movimenta de forma acelerada em relação às paisagens harmônico-melódicas até então esboçadas. Ao mesmo tempo – e pela primeira vez – o baixo é percebido por meio de um groove áspero diante da base melódica. Felizmente, assim que o enredo lírico começa a ser construído, tanto a bateria encontra a sua devida cadência quanto as modulações verbais passam a emanar os seus contornos melódicos. O interessante é notar que, conforme avança, a obra vai assumindo uma essência audaciosa de contemplação e agonia, algo expresso pela interpretação vocal, especialmente. Surpreendentemente, durante o refrão tudo entra em um momento de harmonia entorpecida em que o drama é sentido desde o ritmo até as próprias notas expressas pelo piano. Com uma atuação verbal que oferece sinais do metalcore como um ingrediente marcante presente na sua sonoridade, a faixa-título ainda choca o espectador com as suas inesperadas quebras rítmicas que criam atmosferas bastante diferenciadas entre si, mas sempre ligadas pelo fio da melancolia.

O que Infinity Fall III apresenta ao ouvinte é uma viagem sônica cheia de experiências sensoriais marcantes e uma profundidade emocional rascante que supera facilmente os limites do som. Com bastante presença do drama, da melancolia, da lamúria e do torpor como ingredientes comportamentais obrigatórios, o EP ainda é marcado por uma atividade de mixagem muito bem feita.

Afinal, por meio dela cada instrumento consegue ser devidamente estudado tanto em sua desenvoltura individual quanto em conjunto e, a partir daí, identificar a sintonia instrumental alcançada. É assim que se nota o grau de densidade e precisão que as obras possuem em razão dos devidos destaques a figuras como a bateria e o baixo no desenho sonoro.

Agraciadas por uma camada lírica muito bem interpretada, cada uma das faixas soa como um produto com a própria alma. Uma alma sofrida e chorosa que se contorce não em razão do foco na morte, ideia concebida a partir de uma brisa sombria pegajosa presente no desenrolar do EP, mas, sim, em virtude do exame das mentiras reconfortantes que sobrevivem dentro de nós muito depois de a verdade ter chegado.

É assim que, com Infinity Fall III, o Watch Me Die Inside aborda o estado de suspensão entre a função, a perda de identidade, o vazio e a resistência. Por conta disso, aqui o ouvinte não é visto como um detalhe passivo, mas como testemunha de uma condição que não é amenizada, apenas tornada visível.

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