A música precisa e muito de criatividade e muitas vezes muitos artistas confundem isso com experimentalismo. E eis o grande erro. Inovar ou buscar uma abordagem própria nem sempre está ligado a experimentalismo e quando isso acontece temos que saber discernir para reconhecer um trabalho da forma mais justa possível.
Temos aqui algo do tipo, que pode por em cheque essa distinção, mas que, acima de tudo, é algo de qualidade ímpar. Isso porque estamos diante de algo excêntrico, que inova e, pasmem, também entrega um contexto experimental, mas que não o tem como o foco principal. Mas, antes de falar do disco, apresentemos o artista.
Hoxsey é um artista independente radicado em Austin, no Texas. Ele conquistou um espaço singular no cenário da música alternativa, combinando harmoniosamente elementos de indie rock, atmosferas góticas, energia punk e paisagens sonoras experimentais com composições profundamente narrativas.
Abordando a música como um diário pessoal, Hoxsey preserva momentos fugazes, emoções e experiências por meio de composições imersivas que se recusam a ficar confinadas a um único gênero. Em colaboração com Peppermilk, Hoxsey criou uma obra teatral e inquietante, que transforma o imaginário de circos itinerantes, cidades esquecidas e artistas misteriosos em uma rica tapeçaria de som e história.
Com uma visão artística que abraça as facetas mais sombrias e insólitas da experiência humana, Hoxsey convida os ouvintes a vagar por mundos habitados por fantasmas, personagens e memórias que se recusam a desaparecer — criando uma música que é, ao mesmo tempo, nostálgica e surpreendentemente singular.
Produto desse processo criativo, ele chega com este mais novo single, “Ghost We Keep”, que se apresenta como uma jornada ambiciosa de 11 faixas por um universo surreal, povoado por personagens esquecidos, paisagens assombradas e os espectros que carregamos dentro de nós.
Inspirando-se no imaginário evocativo dos circos itinerantes — estradas de terra que desaparecem na escuridão, tendas desgastadas pelo tempo, artistas misteriosos e cidades abandonadas —, o álbum cria seu próprio mundo cinematográfico, em vez de funcionar apenas como entretenimento passageiro. Vagando por diversos estilos e com uma aura sóbria horrorífica, o disco pode agradar a fãs de diversos estilos.
Abrindo com um som de citara, “Skeleton Key” já deixa de cara o contexto macabro que irá permear o álbum, mostrando também a versatilidade e o acordeom que darão um grande diferencial, além dos vocais eruditos e agressivos. Com um ritmo inspirado pelo folk e música latina “The Road” traz o peso à tona, com explosões de batidas intensas e guitarras poderosas.
Com um sino de relógio, inclusive na marcação da batida, “Josaphina” entrega um olhar mais intimista, que caberia muito bem nas histórias originais dos irmãos Grimm. Enquanto isso, o apelo industrial e com direito a acordeom sintetizado aparece em “Charm Cider”, uma faixa poderosa, além de manter o contexto intimista.
Seguindo uma linha transitória, com esse tempo de marcação de relógio, “Old Man Mackenzie’s Basement” surge como um interlúdio muito bem sacado e que faz uma ponte bem sacada para o horror rock de “The Introduction of Sgt. Capone”, onde as guitarras soam pesadas e consistentes.
“Pixelated Whorror” traz uma veia inspirada pelo rock alternativo e chama atenção pelo trabalho vocal mais sensível, mas não abandona, em momento algum, a aura intimista e horrorífica do trabalho, deixando tudo mais soturno e com um leve toque onde a inocência e o suspense se entrelaçam.
“Scratches” é um interlúdio mais breve, com menos de um minuto, que abre caminho para a trinca final que já começa com excentricidade. Afinal de contas, “Julian Man”, além de trazer um trabalho percussivo e de baixo diferenciados, onde os instrumentos pedem o protagonismo, soa como a mais diferenciada e experimental do disco.
“A Ride With the Four Horse Men in 1888” chega com um trabalho mesclado, de sintetizadores muito bem desenvolvidos, além de peso e uma pega que retorna o som ao industrial. O ritmo digno de um conto de fadas dos horrores ajuda a faixa ter um contraste que faz ela uma das melhores do disco.
Enquanto isso, “Corpses Ball Room” fecha o trabalho com um contexto interessante. Agridoce, a música traz uma aura um tanto quanto enérgica, mas de fundo levemente melancólico, onde o pop pede passagem pela primeira vez, mas de uma forma macabra. Ao menos um ritmo diferenciado e um ângulo introspectivo deixam a faixa menos clichê por sua posição no trabalho.
Fantasmas, monstros internos, cadáveres e metáforas para a sociedade atual podem ser encontradas nos detalhes desse disco que se torna cada vez mais revelador a cada audição.
“Ghost We Keep” foi criado intencionalmente como um trabalho para ressignificar o Halloween e o faz sem querer inventar moda, mas agregando para o período que hoje se tornou algo global. E o objetivo é alcançado sem que se faça música para ouvidos exigentes, mas sim atenciosos e que gostam de algo diferenciado.
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