Four Lemmas | Udeigwe lança álbum inspirado em ideias matemáticas e estruturas de demonstração

É interessante perceber que a canção não segue uma métrica quadrada, engessada ou padronizada. Não tem nem ao menos uma introdução no modo tradicional. Afinal, ela não se baseia em uma construção gradativa ou em elementos propriamente melódicos. Aqui, a faixa aposta no som opaco dos tons como forma de produzir o seu amanhecer através de repiques que já induzem o ouvinte a perceber um andamento mais requebrado. Assim que o enredo lírico entra na direção dos holofotes, o ambiente é tomado por uma voz masculina de nuances graves que desenha o enredo verbal de forma leve e quase esvoaçante. Na companhia de um baixo bem trabalhado na questão do groove, o escopo lírico é tomado por um fôlego de densidade para evoluir em meio à sua cadência ondulante. Introspectiva no que diz respeito à sua postura, Prologue: Four Lemmas vem na forma de um texto motivacional e educacional melódico no intuito de instruir o ouvinte a ter uma vida mais leve e a construir uma sociedade mais igualitária e pacifista.

Fugindo da introspecção entorpecente e transcendental da canção anterior, o que acontece durante o despertar da presente faixa pode ser definido como um completo oposto. A sensualidade vem com força por meio da sinergia afiada criada entre bateria e baixo, a qual, inclusive, destaca, com bastante clareza, a métrica 3×4 assumida pela cadência rítmica, o que, por si só, garante o sincopado e uma boa dose de swing. De base atmosférica em razão da união das texturas do piano e do teclado, a faixa vai se destacando pela presença de instrumentos de sopro que deixam o seu ambiente ligeiramente mais vivo. O interessante, nesse ínterim, é perceber que Lemma I: Orthogonality bebe de uma estrutura de natureza linear, mas que não chega a incomodar o ouvinte pela simples razão de ser completamente repicada e quebrada, ocasionando a percepção de movimento, mesmo caminhando diante de uma mesma conjuntura de partituras. 

O veludo é a primeira textura que invade o cenário a partir da desenvoltura do teclado em meio à reprodução do som do fender rhodes. Aromática e até mesmo com uma delicadeza que a difere esteticamente das obras anteriores, a faixa caminha por meio de passos levemente trotantes a partir da bateria, mas sem causar uma guinada de rapidez em sua cadência. Amadurecendo, portanto, diante de um ambiente harmonicamente linear, Corollary I: I Don’t Care traz consigo uma figura aromática e suave embasada, principalmente, na maciez como textura principal. 

O sincopado atinge outro patamar durante Lemma II: Sparse Matrix. Tal característica, trazida especialmente por meio do andamento rítmico proposto pela bateria, entra diretamente em contato com um hipnotismo sinérgico alcançado pelos ligeiros melismas adotados por Udeigwe e pela desenvoltura dos trompetes. Mesclada entre versos líricos melódicos com outros de natureza puramente narrativa, a faixa, mesmo contando com os instrumentos de sopro citados e pela combinação de texturas produzida pelo teclado, caminha por uma atmosfera harmonicamente linear, razão pela qual adquire, por parte do espectador, uma percepção sensorial amofinante.

Ainda que a bateria seja o elemento responsável por puxar, solitária, a introdução da composição, rapidamente ela é agraciada pela presença do dulçor amaciado do teclado na criação de uma esfera de natureza sensorial aconchegante. Na forma da segunda maior canção do álbum em relação à duração, Crollary II: LU Principle bebe de uma ambiência irresistivelmente embriagante que convida o ouvinte a uma irresistível vivência de expansão do inconsciente. Delicada e intimista, a faixa chama a atenção pela breve sensualidade alcançada pela bateria em meio à sua desenvoltura rítmica, tornando-a uma obra dançante e entorpecente.

A firmeza surge como um caráter marcante, expressivo, atraente e, consequentemente, capaz de contagiar o ouvinte. Diante do compasso desenhado pela bateria, a precisão e a consistência tornam a introdução um momento quase hipnótico e audaciosamente viciante. Entre bumbos duros e um chimbal seco, o que a faixa oferece é uma estética crua, orgânica e sincopada que dá a base e a força ideais para que o baixo surja encorpado e trotante na base melódica. É a partir daí que a bateria assume uma desenvoltura sem receita. Sempre repicada diante do seu caminhar pelas superfícies dos tons, ela auxilia na obtenção de uma curiosa silhueta sinistra e sombria, nuances defendidas, inclusive, pela forma como o cantor vive as frases líricas.

Após um breve verso lírico narrativo funcionando como uma simples e breve introdução verbal, a canção mergulha em uma conjuntura rítmico-melódica sincopada a partir da sincronia entre baixo e bateria. Contudo, nessa faixa em especial, a guitarra também assume boa dose de protagonismo. Com sua agudez mansa, ela interage com a bojudez dos trompetes de forma a criar uma atmosfera tranquila e relaxante, mas também de grandes brisas entorpecentes. Misturando versos líricos falados com outros cantados na companhia de um gracioso time de backing vocals, Corollary III: Pose FM combina swing, suavidade e frescor de forma bastante envolvente.

Misturando nuances rítmicas latinas, as quais induzem à percepção do forró, por meio de seu compasso repicado, a bateria, na função de instrumento introdutório, se aventura na exploração da versatilidade da haste da caixa como fator de oferecimento de novas texturas à sua desenvoltura. Com seu som opaco, ela permite que a canção adquira uma nota de swing mais elevada, o que ocasiona em uma aquisição de movimento mais perceptível e saliente. Diante disso, Lemma IV: Estable Equilibrium marca a sua natureza experimental e a capacidade de Udeigwe fundir paisagens sônicas com uma base sensual consistente.

Ao ouvir atentamente Four Lemmas em sua máxima conjuntura, o ouvinte pode até ser fisgado, em um primeiro momento, pelo jazz como gênero musical-base de sua construção sonora. Porém, conforme o disco avança, outros ambientes sônicos vão sendo notados. De influências africanas a latinas, o material explora a sensualidade e o swing como seu ponto forte, detalhe que se comprova pela maciez e naturalidade com que o baixo desenha os grooves que preenchem as bases melódicas.

No entanto,a bateria também se apresenta como um instrumento cheio de brilhantismo e musicalidade. Afinal, é ela quem indica a métrica do jazz, do afrobeat e do forró. É ela quem denuncia a sensualidade por meio de suas frases repicadas e quebradas. É ela, inclusive, que carrega parte da alma experimental do disco. De todo o modo, o teclado, o piano e a dupla de trompetes também contribuem sobremaneira para a criação de atmosferas aveludadas e devidamente swingadas.

Diante de versos líricos mistos de tons narrativos, melodiosos e reflexivos, toda essa conjuntura rítmico-lírico-harmônico-melódica torna Four Lemmas um disco de natureza motivacional a ponto de flertar até mesmo com nuances espirituais, o que casa com a intenção de Udeigwe. Aqui, o cantor usa de sua musicalidade para, simplesmente, falar de identidade, ambição, independência e o equilibrado balanço entre composições conceituais e a improvisação expressiva.

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