Já teve aquela sensação de ouvir algo que lhe parece genérico, mas que vai se transformando em algo que passa longe de ser isso e a cada audição fica mais original do que se imagina? Pois bem, é disso que se trata este mais novo disco do Bubblegum Cistern, dupla de Knoxville, Tennessee, nos Estados Unidos.
E, com isso, eles provam o poder e infinidade de sensações e sentimentos que a música pode proporcionar, colocando-a como uma arte que pode ser mutável até mesmo dentro do processo de relação entre a obra, o artista e o consumidor, o que não deixa de ser fantástico.
Para quem não conhece, o Bubblegum Cistern é um projeto independente de Eddie Stephenson (vocais/cordas) e John Seeber (teclados/percussão). Cidadãos comuns, com trabalhos alheios a música e filhos para criar, eles se conhecem desde a 3ª série, o que torna tudo aqui ainda mais em ‘família’. Afinal de contas, é um bom tempo para se criar uma química e isso não falta aqui.
Há seis anos eles vêm preparando o trabalho, trocando demos e buscando uma sonoridade bem própria, mas sem querer reinventar a roda, o que acaba colaborando e muito para que o álbum tenha uma audição tranquila e prazerosa.
Desde o ano passado eles têm trabalhado nas gravações, o que resultou neste disco chamado “SYZYGY”, que é uma das melhores estreias que o leitor (futuro ouvinte) irá encontrar por aí. Afinal de contas, é impossível algo soar tão versátil, mesclar tantos estilos e mesmo assim ser tão característico como tal.
O disco, de nove ótimas composições e menos de 40 minutos, ainda nos oferece uma produção orgânica, mesmo contendo elementos eletrônicos. Fato é que a dupla evidentemente trabalhou com processos analógicos e isso deixou tudo ainda melhor e de mais fácil compreensão, além de honesto e real.
“Low Gravity”, faixa que abre o disco, é uma música que soa versátil e intrincada, surpreendendo em abrir o disco com uma energia diferente, mas contagiante de abertura. A faixa traz um rock alternativo cheio de groove e leves toques de soul e funk, mas um besunte indie.
“Orbiting” soa mais etérea, com guitarras reverberadas e limpas, nos remetendo ao shoegaze. Só não o é porque ganha uma batida e vibração mais intensa por parte da cozinha. Porém, o leve toque soturno se contrasta com essa vibração mais intensa e abordagem diferenciada que a dupla traz.
O funk e o groove intenso retornam na terceira faixa “Tether”, mas com a pegada que somente o duo sabe entregar. Um leve toque futurista e moderno, muito parecido com eletropop, mas sem o minimalismo do estilo. Além do instrumental poderoso e que pulsa na medida, um teclado de fundo, discreto, entrega camadas contagiantes.
Como se não pudessem nos surpreender mais, chegam com uma balada belíssima, que bebe na fonte do indie, mas traz um leve contexto clássico ao fundo. Trata-se da híbrida acústica e elétrica “Back To Phoenix”, que também revela a versatilidade e talento Eddie, com seus vocais joviais.
“Lunar Bound” traz as guitarras de volta, mas seu fundo bebe no synthpop, o que dá um equilíbrio ótimo. Os timbres e a produção aveludada da faixa e mais uma vez o trabalho vocal consistente e versátil chamam atenção. E tudo sem mexer um dedo na identidade do Bubblegum Cistern.
“From Over The Sunrise” mostra como o duo tem a capacidade de inserir qualquer sonoridade à sua fórmula. Já que, além do contexto indie rock que o principal mote, inserem elementos mais clássicos com um piano em ritmo latino ao fundo, o que soa simplesmente sensacional.
E quem não imaginava que a dupla poderia trazer algo envolto de psicodelia moderna e uma veia progressiva, eis que eles entregam a incrementada em sintetizadores, “Space Time Don’t Continuum”, uma das faixas mais bacanas do disco, além de trazer um sabor agridoce, onde o sofisticado se junta com o pop e Eddie exacerba seu vocal inspirado pelo soul.
E eis que o synthpop dá as caras novamente, mas acompanhando um rock alternativo como base de guitarras e um besunte dream-pop em uma das composições mais interessantes do disco, a magistral “Re/Entry”, que pode também soar como uma das mais sensíveis, apesar de não se tratar de uma balada.
“High Gravity” (sacou a relação com o nome da primeira faixa) e deixa uma sensação de satisfação, mas também como uma deixa de que algo pode chegar num futuro próximo. Equilibrada, a música é um bom resumo de tudo que é destilado no disco e não cai em pieguismos que costumam permear as faixas de encerramento.
Com temas variados, alguns mais reflexivos e outros mais leves, até mesmo para momentos mais dançantes e festivos, “SYZYGY” é um disco que agrada em cheio e não dá espaços para repetições. Sem dúvidas eles acertaram o alvo. Ouça e comprove.
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