Nem sempre na música recebemos algumas homenagens póstumas cheias de saudade e com aquele certo drama que um luto proporciona. Alguns artistas sabem homenagear de uma forma com a qual provavelmente aquele exaltado gostaria e temos em mão um bom exemplo disso com esse disco magistral chamado “A Wink Is As Good As A Nod To A Blind Mule”.
Não bastasse isso, para diferenciar ainda mais esse tributo ao músico e compositor James Masters Patterson, as faixas que compõem o disco foram compostas e cô-compostas pelo próprio James, que era um amigo muito próximo de David Moore, que aqui chega ao lado da banda Westridge.
O peculiar título do disco, algo que, em uma tradução livre siginifca ‘uma piscadela vale tanto quanto um aceno de cabeça para uma mula cega’, reflete o senso de humor peculiar de Patterson, algo que Moore sabia que seu falecido amigo teria apreciado.
Este álbum de estúdio representa quase dois anos de trabalho meticuloso, com Moore reconstruindo pacientemente as partes de bateria, compasso a compasso, utilizando MIDI de gravações anteriores — notavelmente sem o auxílio de IA — antes de colaborar com músicos que gravaram suas partes em locais que variam de Dallas e Pittsburgh a Albuquerque e o Reino Unido.
Participam de “A Wink Is As Good As A Nod To A Blind Mule” nomes gigantes como Jay Michael Smith e Brian Patterson (da banda The Speaker Wars), Hollan Holmes (do selo Spotted Peccary), Fred Sullivan (das bandas 56 East Band e Daphunk), Ralph Galetti (da banda Disclaimers), Abbie McKinney (filha de Ralph), Jackie Dwire (da banda AmberAlexis) e Stuart Epps — este úlitmo engenheiro de gravação do álbum “Coda”(1982), do Led Zeppelin, e do primeiro álbum da banda The Firm, que também trabalhou com Bill Wyman, Paul Rodgers e Jimmy Page.
A história por trás do disco reflete amizade e socialização. A semente foi plantada na mente de Moore no dia em que Jim foi sepultado. Ele queria que o mundo conhecesse aquela alma gentil e de fala mansa, que foi seu parceiro de composição, melhor amigo… um irmão em um momento crucial da vida de David.
O projeto se concretizou quando Moore retomou o contato com Brian Patterson (sem parentesco com Jim) após mais de trinta anos. Brian tinha acabado de começar a tocar baixo na nova banda de Stan Lynch, The Speaker Wars. Brian o convidou para uma festa privada onde a banda tocou em 2024; lá, ele foi apresentado ao guitarrista Jay Michael Smith. O resto é história.
Parte desta história é esse magistral disco de 13 faixas, onde o melhor do rock e outros estilos coirmãos são destilados em quase 50 minutos de pura honestidade sonora, som natural e nada de inteligência artificial.
O disco é aberto pela cativa e instrumental “Chasing The Mothership”, uma faixa dinâmica, onde o rock e blues caminham juntos, com destaque para as linhas precisas e independentes de baixo que auxiliam os belos riffs de guitarra. Os vocais aparecem em “Miss-A-Lay” um rock clássico objetivo e sem firulas, direto e com leves toques de country.
Voltando ao blues rock, mas com um ar mais moderno e leves toques de hard rock, a banda incorpora “Mysteries Of Life”, música que tem licks de guitarra contagiantes e um ritmo cativante. Enquanto isso “The Wizard”, ainda com sua veia blues, ganha leves toques de southern rock, mantendo a versatilidade e também a identidade do projeto.
“Loves Is a Blind” chama atenção pela aparição mais constante dos teclados, em camadas fundamentais que dão todo o diferencial à música. Com um riff espetacular de guitarra, “Y-Grene Fosecrous Atanos” é daquelas faixas que parecem simples, mas soa peculiares.
O marco do meio do disco é “Bryn Mawr”, uma composição que traz modernidade e um trabalho de guitarra que soa como um dos melhores do disco. “Eternal Deceiver” a princípio nos parece se enveredar pro heavy metal, com seu início que deixaria o fã de Judas Priest atento, mas ainda preserva o rock clássico que permeia o projeto.
“Love Is The Victory” chega com um trabalho de batida seca e incorpora sintetizadores mais psicodélicos, mostrando-se mais fora da casinha, porém ainda com a identidade da banda intacta. O country rock dá as caras em “Land of Sunshine”, que ainda carrega também leves toques do folk e traz um trabalho vocal belíssimo.
“That Little Funk Tune” traz guitarra e um baixo sujos, com um ritmo cheio de groove, fazendo jus ao nome, enquanto “When Lightning Strikes” chega com uma veia psicodélica dinâmica e agressiva, soando como uma das faixas mais diferenciadas do disco.
Fechando o trabalho temos “Time”. Nada mais justo do que um disco aberto por uma faixa instrumental ganhar seu fechamento com outra. Só que desta feita uma música psicodélica, com direito a cruzamento de violão e sintetizadores, dando um ar de viagem intergaláctica subliminar. Homenagem mais que justa!
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