Entre aspereza e um leve contorno propositadamente dissonante pronunciado pela guitarra, a canção já consegue oferecer claros sinais de tensão envoltos em um clima sombrio de nuances aterrorizantes. Surpreendentemente, porém, após uma breve pausa, o que acontece é o desenvolvimento instrumental para um instante cheio de maciez e sensualidade. Combinando as guitarras e a bateria em um compasso swingado e provocante a ponto de denunciar certos traços de libido, a canção rapidamente destaca ser uma faixa cover de Jailbreak, single do Thin Lizzy. Em tal versão, ao contrário da original, existe uma dose extra de crueza muito bem trabalhada pelo Circle Of Stone, o que possibilita ao ouvinte inclusive a clara identificação do baixo e sua contribuição em relação à somatória sônica da música. Com seu groove grave e de estridências pontualmente empregadas para salientar a identidade orgânica da obra, o instrumento entrega, além de corpo, a dose ideal de densidade. Defendendo a natureza sensual da composição, até mesmo o vocalista entra em cena por meio de pronúncias sussurrantes que instigam a atração e a libido. Com a presente interpretação, o grupo simplesmente rememora o clima sexy e urbano de uma Irlanda dos anos 70.
Mergulhando no sombrio absoluto por meio de guitarras distorcidas em riffs que transpiram o obscuro, a maneira como esses instrumentos se movimentam ilustra similaridades marcantes com o acorde do diabo performado, identificado e explorado por Tony Iommi em faixas como Black Sabbath e The Wizard. Suja, áspera e sensorialmente rascante, a presente composição tem defendida a essência de sua versão original. Sob os cuidados do grupo, Cornucopia, single do Black Sabbath, consegue, aqui, reviver a sua crueza, a sua intensidade e seu curioso torpor tal como foram explorados nos idos dos anos 70. Entre reverbs na camada lírica e um toque curiosamente opaco extraído das peles das peças da bateria, a presente faixa defende com unhas e dentes o seu caráter unicamente orgânico, teatral e levemente dramático.
O efeito espacial é muito bem defendido pela guitarra durante os momentos introdutórios imediatos da composição. Fluindo para uma etapa instrumental em que a textura da pele da caixa da bateria traz consigo uma identidade temporal marcante, a faixa permite que o ouvinte vá se ambientando nos idos dos anos 70. Ritmicamente pulsante, é interessante perceber como até mesmo o baixo, com sua natureza encorpada, preenche a base melódica com um compasso trotante. Trazendo consigo nuances que identificam ligeiras inclinações da new wave em sua paisagem sônica, uma característica que marcou o rock naquela época, podendo até mesmo citar exemplos como Billy Idol, Turbo Lover, em sua versão cover, traz toda a sensualidade e contágio do Judas Priest. Com seu hard rock áspero e suspirante, a canção tem defendida a sua essência sorrateira e provocante.

O riff é áspero e bruto, assim como os pulsos rítmicos. Duros, precisos e enfáticos, mas capazes de trazer consigo interessantes nuances de fluidez, são eles que imprimem a verdadeira intensidade da canção, permitindo que a linha lírica seja desenvolvida de forma a explorar a sensualidade sob uma ótica diferenciada. Entre timbres limpos e rasgados, o vocalista faz de Precious & Grace, um cover que destaca uma sonoridade mais pesada vinda do ZZ Top. Sincopada, a faixa, mesmo bebendo de certo grau de linearidade rítmico-melódica, consegue imprimir a irreverência do hard rock fundido a influências do southern rock.
Sob a adoção do efeito fade in, a canção vai nascendo de forma gradativa a ponto de permitir ao ouvinte a identificação cadenciada e ponderada da desenvoltura solitária da bateria. Subitamente, o silêncio se firma para, depois, promover a introdução do baixo e seu groove encorpado de tonalidade levemente grave. É então que o instrumental entra completo no cenário mostrando aquela sonoridade marcante que molda o despertar de Black Night, single do Deep Purple. Ao contrário da original, porém, a presente versão vem com uma identidade sônica mais limpa e não tão opaca, permitindo que o ouvinte deguste, com mais facilidade, todas as atribuições individuais dos elementos sonoros. Com (Basically) Black Night, portanto, os caras do Circle Of Stone entregam uma produção moderna a esse clássico híbrido do blues rock com hard rock dos anos 70.
Ela é crua, mas destacada pelo seu caráter sombrio e sorrateiro. Com uma introdução construída apenas por meio da sincronicidade entre baixo e bateria, a canção passa a contar com lampejos ácidos à espreita do que vem sendo colocado nos holofotes, criando um clima de tensão. Denunciando a presença de contrações que evidenciam uma postura regozijante por parte da guitarra solo, a faixa vai se aprimorando na exploração do sombrio a partir de uma linha lírica agressiva e regada a drive por parte do vocalista. Na posição de canção mais jovem a ser reproduzida e inserida na track list do EP, Devil’s Dance, single do Metallica, é trazida de forma a oferecer um contexto mais agressivo e soturno à paisagem que já vinha sendo moldada no material.
Covered In Stone não é necessariamente um trabalho celebrativo. Contudo, é evidente a sua construção como forma de homenagear e, principalmente, agradecer aos nomes da cena do rock que ajudaram o Circle Of Stone a moldar a sua própria identidade sonora. Abrangendo seis canções de bandas como Thin Lizzy, Black Sabbath, Judas Priest, ZZ Top, Deep Purple e Metallica, o EP mostra que a temática dos anos 70, com seu hard rock bluesado, tem mais peso do que o thrash metal noventista no que se refere à essência dos stoners.
Ainda assim, é interessante e belo observar o cuidado, o carinho, a naturalidade e a exatidão com que cada uma das músicas selecionadas é, aqui, interpretada. Proporcionando um perfeito clima de renascimento aos clássicos das décadas passadas, o EP também vem com a função indireta de apresentar a crueza e o orgânico como símbolo de autenticidade e excentricidade na música.
Mais informações:
Spotify: https://open.spotify.com/intl-fr/artist/23uU7ckSm03ite2pDDvnT5
Instagram: https://www.instagram.com/circleofstonemusic?igsh=Y2xwdHoyemw0eWl4



