O que você pode fazer em 19 anos? Se você tiver 19 anos provavelmente está começando os percalços da vida adulta, sendo chamado de geração Z e vivendo com intensidade a vida digital. Assumir responsabilidades é inevitável e ter conhecido o mundo de uma visão jovem já é uma realidade.
Mas, em 19 anos a vida pode mudar muito e quem tinha 20 anos há 19 anos atrás hoje está com 39 pronto para entrar nos ‘enta’, ou seja, 40, 50, 60 em diante. Quem tinha 40 anos já está na terceira idade. Muita coisa acontece em 19 anos e estamos falando disso por um motivo que condiz muito com este lançamento.
O cantor e compositor Brendan Ranney, dono de uma sonoridade melódica e emocionalmente crua, retorna após 19 anos com “Slightly Out of Focus”. O novo disco não poderia ter um sentido melhor que não fosse voltado ao particular, mas o artista é tão talentoso que consegue abordar isso de uma forma que sirva como inspiração para todos que ouvirem o álbum.
Trata-se de uma obra profundamente pessoal, centrada no violão e na narrativa de histórias, que explora temas como perda, autorreflexão e redescoberta. Ou seja, vivências que muita gente em comum passa e/ou passou, talvez passará.
Para quem não conhece muito bem o artista, Brendan Ranney é um cantor e compositor indie de Claremont, Califórnia. Ele é primo do falecido Clay Cole, apresentador do programa ‘The Clay Cole Show’ (sediado em Nova York entre 1959 e 1968).
“Slightly Out of Focus” surgiu a partir de um processo de autorreflexão e introspecção do próprio Ranney, ao revisitar os motivos que o levaram a praticamente desaparecer e abandonar a música — algo que ele acreditava ser definitivo. A ideia de compor um álbum nasceu quando ele descobriu uma caixa contendo poesias inéditas escritas por seu pai, que também era um poeta publicado.
Apesar de ser o debut do artista, o disco de 10 faixas escancara a experiência de Brendan com a música, sua versatilidade e o talento em construir composições atemporais, que transitam por estilos moldados nos últimos 40 anos.
Um bom exemplo disso já podemos encontrar na primeira faixa, “My Existence (No Not Today”, que é uma faixa que se envereda pelo indie (principal proposta de Brendan), mas que ainda caminha pelos trilhos do post-punk e alternativo, ganhando leves pitadas de rock clássico. Impossível uma faixa de abertura resumir um disco tão bem quanto esta.
“Last Ride” mostra já na sequência aquilo de melhor que Brendan sabe fazer que é mesclar o indie com o folk, numa abordagem elétrico-acústica que prima pelo lado moderno do estilo, trazendo bom-gosto e equilíbrio. “Second Son” chega com um leve toque soturno e uma abordagem introspectiva onde os graves e vibrações chamam atenção.
Uma versão de ritmo e abordagem diferenciada de folk chega com “Where I’ve Been”, mostrando forte personalidade do artista, que consegue soar diferenciado e vai nos mostrando sua personalidade, além de moldar sua identidade com maestria.
Bebendo na fonte do rock alternativo, com um belíssimo trabalho de guitarras, além de entregar influências do shoegaze, “I Remember You” é uma faixa inquieta, onde timbres reverberados e distorcidos trazem um clima tenso e vocais intimidadores. Enquanto isso “I Don’t Want To Go” chega com um leve toque melancólico com direito a instrumentos de câmara dando um clima de outono ao fundo. De melodia bem-posta, a faixa é daquelas que conquistam de imediato.
“Blady Road” chega para representar aquele indie excêntrico, onde a psicodelia e um toque exótico dão as caras. Mas, não pense que estamos diante de uma faixa que é um bicho de sete cabeças, mas sim de um som de aspectos incomuns, mas sem ser experimental.
“Here With You” é aquela americana que deixaria Eddie Vedder orgulhoso, inclusive com uma levada e abordagem que lembra bem a carreira solo do vocalista do Pearl Jam, mas contando com a personalidade de Brendan ali, com suas linhas vocais particulares.
Enquanto isso, “Might Not Be” chega com um ritmo de despedida, mesmo sendo ‘ainda’ a penúltima faixa. Com ritmo cadenciado e um estilo vocal que evoca aquele ritmo de hino de adeus, a faixa encanta pela sua aura leve, mesmo tendo melodias mais introspectivas.
Não poderia ser diferente, mas fechar dessa forma foi de uma felicidade gigante por parte de Brendan, já que “Sail Away” é uma faixa poderosa que emana o indie folk que ele tanto aprecia e caracteriza o seu som, mostrando ainda que a música pode ser uma deixa para mais coisas por vir.
E, por falar nisso, nossa única ressalva fica por conta disso, afinal de contas, com o talento e sensibilidade de Brendan Ranney, ele não merece ficar apenas em “Slightly Out of Focus”, nem nós! Logo, além de ouvir esta belíssima obra, ficamos no aguardo por muito mais!
https://www.facebook.com/brendanranney
https://open.spotify.com/artist/6lsKevVWkGFguODnSwRHqs?si=5M1ah2OBQ4GXhCbPrxSVrQ
https://on.soundcloud.com/9eBIQ5ZtfqyoPcrcs1




