Audren traz sonoridade madura e aula de resiliência em novo disco

Audren já esteve em nossas páginas e é aquela artista que tem aquela história curiosa com David Guetta que é sempre bom relembrar. Quando ela começou sua vida musical, David Guetta ouviu suas músicas e disse a ela: “Não estamos no mesmo ramo. Você faz música para músicos.” Embora nunca tenha sabido se a declaração de Guetta era um elogio, Audren a recebeu como uma confirmação de sua assinatura musical.

Mas, se você se deparar com qualquer single de Audren, irá imaginar que o renomado DJ estava errado se desprezou a sonoridade da cantora e compositora britânica, ou estava muito certo caso tenha sido um elogio. Afinal de contas, ela apresenta algo maduro e de muito bom gosto.

E aqui temos uma artista que trabalha com seus parentes. Na casa de Audren, a música é um assunto de família. Ela sempre trabalhou com seu companheiro, o guitarrista, produtor e arranjador Chris Rime, e suas duas filhas, Sydney Rime (pianista) e Jemily Rime (cantora/baixista). Todos estão aqui, neste mais novo disco.

Porém, antes de chegar a este momento de pura consolidação, Audren teve um caminho árduo. Depois do ‘aval’ de Guetta, ela continuou a desenvolver sua música se baseando em gêneros e subgêneros como indie pop/jazz/neo soul de uma forma intimista e cheia de alma, com arranjos complexos e refinados executados pela nata dos músicos, como Christian Martinez (Ray Charles, Diana Ross, Natalie Cole), Roger Biwandu (Salif Keita, Joe Zawinul), Mike Rajamahendra (Michael Bublé), Chris Rime (Marcus Miller), Federico Malaman (George Benson, Al Jarreau, Wilson Pickett, Kid Creole).

Audren lançou alguns álbuns e singles e vendeu sua música para filmes, TV e videogames. Muitos anos atrás, uma personagem de videogame foi inspirada nela. Ela era Audren, The Gypsy, no jogo “Darkstone” (1 milhão de itens vendidos) e sua música ‘The Darkstone Will Shine’ causou sensação mundial e impulsionou sua carreira musical.

Infelizmente, logo depois disso, Audren, acometida pela doença de Lyme, desapareceu do mundo da música. Incapaz de cantar, ela se concentrou em sua escrita e – como diz o ditado, “há sempre um lado bom” – tornou-se uma autora best-seller na França, onde mora. Com muita determinação e medicamentos, ela finalmente conseguiu voltar à música.

“Think Freedom”, seu mais novo disco, é resultado dessa superação e resiliência, mas quem pensa que estamos diante de um disco piegas se engana. Com 11 faixas, o disco traz um equilíbrio sonoro, lírico e emocional que transcende a arte e deixa o ouvinte mais à vontade.

O disco abre com a sugestiva “New Age”, que traz elementos acústicos e um trabalho vocal primoroso, nos remetendo àquele folk de trilha sonora de contos de fadas. Mas, Audren não dispensa uma abordagem mais moderna, inclusive com um baixo pulsante e camas de teclados perfeitas.

Logo em seguida ela entrega a misteriosa “The Good Road”, que tem um começo mais introspectivo e se solta no decorrer da faixa. O groove e o toque modernos de “When Freedom Dies” chegam impressionante, com um trabalho instrumental diferenciado que ganha o ouvinte de imediato, graças ao refrão espetacular.

Logo em seguida, “Smile, People Smile” chega com um groove de funk, mas tudo equilibrado, com um trabalho vocal inspirado pelo soul. As linhas de baixo intrincadas e os metais propícios chamam atenção. Ela é precedida por “We’re All Lost”, faixa que é uma balada inspirada no piano e traz um refrão belíssimo.

O carro-chefe, que foi lançado como principal single, “We Want Funkey!”, chega exatamente no marco da metade do disco. Dançante e atemporal, a faixa serve exatamente como termômetro do disco, soando como a mais abrangente. Já “Flowers in the Snow” traz um piano clássico se inspirando numa balada jazz comovente e com um show de controle vocal de Audren.

Enquanto isso, “A Beautiful Movie” traz o funk de volta e prova um fenômeno incrível. Audren consegue entregar outra abordagem do estilo, mais moderna e sem perder a identidade. Logo vem um requinte, mas que não deixa o contexto pop. Trata-se de “Big Boomerang”, outra prova de equilíbrio e que encanta pela sua levada quebrada muito bem sacada.

“Si Tu Veux, Monsieur” chega com pompa, uma boa dinâmica (talvez a melhor disco) e mostra os metais cumprindo a função de dar ainda mais vibração. Para a penúltima faixa do disco, ela mantém uma essência importante, o que faz um contraste direto com a sua sucessora.

Afinal de contas “True Love” é um soul moderno revestido de R&B, onde além dos graves fenomenais, traz linhas vocais primordiais. Conduzindo com destreza suas linhas, Audren conta com um trabalho primoroso de backing vocals, que dá todo um contexto climático e intimista, fechando o disco com maestria.

“Think Freedom”, além do contexto musical refinado traz letras sinceras com melodias inesquecíveis, sendo um retrato poético do mundo difícil em que vivemos e um convite para torná-lo mais tranquilo e belo. Resiliente, assim como a própria Audren.

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