Lá vamos nós de novo para uma ode ao rock sueco e, obviamente, escandinavo. Expliquemos. Se existe um lugar no mundo que entrega trabalhos de qualidade, tanto em produção quanto originalidade e talento, é o norte da Europa. E, por lá ouvimos muitas coisas de diversos gêneros, mas alguns com mais ênfases.
O heavy metal e a música eletrônica estão entre os principais, claro, sempre com colaboração de seus subgêneros. O fenômeno não é por acaso. Por lá há incentivos para a música, inclusive vindos do governo. Mas, há algo a mais na água destes países, afinal de contas, nem sempre quantidade significa qualidade e por lá, as coisas costumam vir acima da média.
Temos aqui o ÅHM, que é uma dupla sueca, originária de Linköping, que cria um rock alternativo orgânico com raízes no grunge dos anos 90, mas moldado pela atmosfera mais sombria do pós-rock e do pós-metal.
Surgido da lendária cena hardcore e indie de sua terra natal durante a década de 1990, o ÅHM conquistou um espaço próprio no cenário do pós-grunge e do rock alternativo mais pesado. A dupla sueca trabalha com total independência criativa, cuidando de cada etapa da produção — desde o posicionamento inicial dos microfones até a masterização final.
Logo, notamos que eles têm procedência, afinal de contas, viver o cenário pessoalmente da sonoridade do qual eles apostam faz uma grande diferença e mostra muito conhecimento de causa. Tudo de forma natural, como podemos conferir neste seu mais novo EP, “The Mechanics of Falling Apart”.
Com seis faixas, a banda mostra bem que sabe se identificar dentro do grunge, mas o principal de tudo é o leque aberto e o flerte com diversos outros estilos. Isso amplia a gama do duo e deixa o disco versátil, tornando sua audição ainda mais prazerosa.
O disco começa com “Rotor”, uma faixa que traz o atípico da introdução com vocais em coro, o que já mostra que a dupla quer sair da zona de conforto. Logo guitarras gordurosas chegam e o grunge de uma forma atual é apresentado com consistência e muito bom gosto. Tudo com timbres naturais, mas uma produção atual que não deixa de lado a organicidade.
“The Drain” chega também com uma forma mais intimista, porém com um lado mais tradicional, lembrando bastante Alice In Chains, mas logo a banda ganha personalidade com os vocais limpos em leves efeitos e um tempero inspirado no post-punk, que deixa tudo com mais identidade.
O single prévio “The Ash Of The Sermon – Alternative Version”, assim como o próprio nome já diz, ganha uma versão alternativa, mas mantém a essência intacta e a qualidade primorosa do grunge com leves toques de doom. A música, nesta especial ocasião, encanta pelo leve toque dramático e um baixo marcante, que domina as viradas entre os riffs básicos de guitarra.
Com um violão intimista, “You Will Yield To Me”, começa da forma mais introspectiva possível, com vocais quase sussurrados e um ar misterioso. A faixa se mantém nessa pegada mais branda, dispensando a cozinha, mas optando por um violino que deixa o clima mais sorumbático ainda.
A música dá um gancho à versão alternativa de “Memorial Garden – Alternative Version”, que ganha uma repaginada mais moderna, automaticamente também soando com mais peso e consistência, resgatando no EP a essência do grunge com pegada atual.
“Fall Apart” é um doom grunge com elementos de post-rock onde a banda faz a música típica de fechamento, ou seja, mais intimista, com ar de despedida, mas sem cair em clichês piegas. Lenta, com guitarras limpas de licks simples em sua maior parte, a progressão vai até distorções mais intensas e um final industrial apoteótico.
“The Mechanics of Falling Apart”, em sua gravação e produção, traz algumas particularidades interessantes. A bateria e as guitarras foram gravadas sem o uso de metrônomo, permitindo que as músicas respirem, evoluam e se desenvolvam de forma natural, em vez de ficarem presas a uma grade rítmica rígida.
Em termos líricos, o trabalho transita por temas como abuso de poder, desilusão política, luto e colapso pessoal. A instabilidade da política global, a realidade dos transtornos mentais e o lento processo de autoconhecimento também permeiam os conceitos e casa perfeitamente com a proposta sonora da banda.
A habilidade do ÅHM em fazer um som de vanguarda sem soar datado é outro grande ponto do trabalho, mas não somente isso. Apesar de atemporal, sua música consegue ser um elo para o presente e até mesmo encaminhar o que eles propõem para um futuro próximo.
Sem dúvidas estamos diante de uma ‘banda’ que sabe onde pisa e muito mais, consegue fazê-lo de uma forma natural, sem deixar os principais quesitos do estilo de lado e ainda inserir sua personalidade de forma catedrática e cheia de identidade. O problema de “The Mechanics of Falling Apart” é não ser um disco maior.
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