Chant! | Vidura Barrios lança álbum que caminha entre a vibração devocional e o instrumental meditativo

Não é uma canção comum, definitivamente. Afinal, a sua introspecção requer maturidade para ser vivida na profundidade sugerida, além de ser construída a partir da fusão entre o atmosférico e um canto melismático cujas inflexões sugerem diretamente a assumição de uma postura unicamente meditativa. Inevitavelmente, enquanto o ouvinte acompanha a movimentação ondulante promovida pelo vocalista em meio ao seu tom intermediário de base nasal, o torpor não aparece como sugestão, mas, sim, como um estado de espírito inevitável que se apodera do perispírito do espectador com delicadeza. Trazendo o minimalismo estético-estrutural em sua forma léxica, Krishna Invocation é um prelúdio que coloca sobre a mesa o oriente e o hinduísmo com suavidade e, curiosamente, frescor.

A introspecção continua sendo a rainha da sensibilidade. Diante do sonar metálico, reverberante e levemente estridente daquilo que parece ser o swarmandal, a composição não apenas exalta a atmosfera indiana como prevê certa sensualidade como forma de ofertar as primeiras pitadas de movimento. E por falar nele, a opacidade dos batuques do dholak contribui perfeitamente para a elaboração de um estado de fluidez muito bem associado a um dinamismo singelo que não atrapalha a fragilidade estética da obra. Rapidamente, o ouvinte é colocado em contato com frases líricas cuja interpretação obedece a esse viés de fragilidade estética. Com a sua tonalidade cuidadosamente agridoce, o vocalista embala o espectador em uma mistura de consciência e torpor, algo que é bastante estimulado pelo acompanhamento do time de backing vocals e sua identidade ecoante. Estruturalmente macia e com uma movimentação de natureza orgânica, Govinda Gopala Madana Mohana, abraçada pelo idioma sânscrito presente na camada lírica, segue uma linearidade harmônica rígida no decorrer de seus mais de sete minutos de duração, mas encanta pelo seu viés devocional sem qualquer sinal de apelação.

É interessante perceber que existe, aqui, uma mudança significativa na tonalidade assumida pelo vocalista. É verdade que ele ainda segue o preceito da delicadeza, mas, aqui, sua postura parece mais séria e reflexiva do que as assumidas nas obras anteriores. Na companhia do sitar e de sua sonoridade levemente metálica e estridente, o cantor caminha perante uma movimentação mansa embalada pela acidez controladamente aguda do harmônio desenhando o universo da camada harmônica. Ao primeiro contato com o time de backing vocals, que, assim como aconteceu em Govinda Gopala Madana Mohana, faz sobressair um tom agudo e feminino, a camada lírica adquire contornos indubitavelmente contemplativos que imediatamente capturam a sensibilidade do ouvinte. Felizmente, ainda que exista, sim, uma linearidade harmônica em seu desenvolvimento, Rama Raghava consegue oferecer movimento a partir das modulações líricas assumidas pelo time vocal, o qual transborda vulnerabilidade.

A introdução da presente composição, ainda que apoiada uma vez mais na proposta da sensibilidade associada à introspecção, traz consigo um instrumental ligeiramente mais trabalhado. Combinando o som separado e metálico do sitar com o batuque opaco do dholak, a composição ainda avança na inclusão, agora mais evidente, do kartal e de sua contribuição metálica, brilhante e repetitiva. Inquestionavelmente entorpecente, Hare Rama Hare Krishna Kirtan inunda a sua própria atmosfera com um viés etéreo penetrante, hipnótico e simplesmente incontestável. Como a obra mais longa em duração de todo Chant! por superar a marca dos 11 minutos, a canção chega a combinar contemplação com uma pitada de densidade presente até mesmo na forma como o tom do vocalista se combina ao dos backing vocals. Mudando ligeiramente a sua estrutura rítmica por permitir uma desenvoltura ligeiramente fluida do dholak, a faixa consegue até desfrutar de um frágil dinamismo, mas se vende simplesmente pelo seu caráter entorpecente.

Surpreendentemente, o ouvinte entra em uma sintonia energética completamente diferente daquelas até então propagadas pelo material. Com o auxílio decisivo da acidez aguda do harmônio, a faixa invariavelmente acaba mergulhando em uma sensibilidade sensorial mais sombria e densa que rompe com aquela suavidade etérea sugerida especialmente durante a execução da canção anterior. De movimentação lírico-interpretativa mais lenta, o que sugere a ideia de uma espécie de manipulação em relação à vibração energética, a canção acaba conseguindo até mesmo diminuir o poder de lucidez sugerido pelos timbres metálicos do sitar presente na esfera melódica. Como a segunda maior faixa em duração do álbum, Hare Rama Hare Krishna, com apenas alguns segundos a menos que a sua antecessora, é marcada e exaltada pelo apoio descarado do reverberar insistente e sequencial do harmônio durante toda a sua execução. A partir dela, a base harmônica é dominada por uma acidez consistente que contribui demasiadamente para a assumição de um estado de espírito inteiramente letárgico. 

Existe, sim, uma densidade na atmosfera da canção que se anuncia. Nem tanto em razão do instrumental, mas principalmente pela tonalidade adotada pelo cantor diante de sua interpretação lírica, a composição acaba garantindo para si a mesma energia que aquela obtida na faixa anterior. Como uma espécie de interlúdio que bebe da mesma formatação entorpecente de Krishna Invocation, Krishna Brija Mantra chega a sugerir uma vivência sensorial flutuante, mas com ligeiras notas sombrias em sua formatação.

108 Names Of Shri Vishnu chama a atenção por apresentar ao ouvinte uma camada sensorial não oferecida até então. Longe da acidez, dos tons brilhantes e metálicos, bem como do reverberar do harmônio, a presente faixa coloca o ouvinte em contato com veludo, textura oferecida por uma sobreposição vocal denotativamente vulnerável que acompanha a camada lírica principal. O que definitivamente chama a atenção na presente faixa é a sua natureza especialmente contemplativa, mas cujo caráter de elevação espiritual se torna fortemente evidente pelo apoio do violino na camada harmônica a ponto de criar uma espécie de camada espiritual sobre o corpo lírico. 

Não é um disco para as massas, definitivamente, mas Vidura Barrios parece não se importar muito com isso. Afinal, com Chant!, o que se entrega é a crença e a fé em forma de música. É a devoção perante uma atmosfera que une harmonia, melodia e ritmo de uma forma simétrica e comandada pela vulnerabilidade.

Apresentando sete canções com lirismos inteiramente construídos com base no sânscrito, o disco põe o ouvinte em contato direto não apenas com o ambiente indiano, mas, principalmente, com a atmosfera hinduísta. E a julgar pela sua instrumentação, pautada exclusivamente pela excentricidade, essa cenografia é muito bem construída. Com isso em mente, Chant! soa como um material meditativo de viés sensorial hipnoticamente entorpecente.

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