Não é a primeira e nem será a última vez que falamos aqui sobre a música eletrônica, sua expansividade e o quanto sua trilha é infinita para criatividade. Com o avanço da tecnologia, tudo se tornou ainda mais produtivo e abrangente, porém, não podemos dizer que a qualidade é algo de garantia.
Mas, não tenha dúvidas que ainda temos muitas coisas boas surgindo, porém em um funil cada vez mais entupido, o que requer que os artistas se desdobrem diante de suas propostas. Caso contrário, não terão como não passarem batidos e isso trará uma frustração e tanta, além de desperdiçar talento.
Afinal de contas, a música que não empolga nem sempre é feita por artistas medíocres. A execução é uma coisa, já a criatividade é outra. Isto é, você pode ser um excelente músico e um mau compositor ou vice-versa, ou os dois. São fatores normais e mais uma prova de que o equilíbrio é a base de tudo.
Voltando ao cenário eletrônico, há quem ainda acredita que os trabalho dentro do gênero e suas facetas regram em serem artificiais. Ledo engano, pois há muita coisa orgânica por aí e temos em mãos um grande exemplo disso, que acaba de lançar um novo EP.
Mas, antes de falarmos sobre a obra, apresentemos um pouco do criador. Consequential, o projeto musical nascido em Bury St. Edmunds, Inglaterra, é uma fusão de energia bruta e batidas profundas. Criada em campos lamacentos, a sonoridade do Consequential é uma mistura única de linhas de baixo marcantes e melodias cativantes. Influenciada por fontes não convencionais, como observar pássaros construindo seus ninhos deitados no sofá, a música representa uma fuga revigorante do comum, ressoando com ouvintes que anseiam por algo novo e empolgante, mas também nostálgico e relaxante.
A origem do artista tem uma história curiosa. Bury St Edmunds foi onde a lendária banda de punk rock The Clash trouxe sua turnê On Parole para o Corn Exchange. O show tumultuado resultou em reclamações de danos à propriedade e embriaguez pública. A proibição da música ao vivo surgiu como resultado do concerto de 1978, o Conselho Municipal de St Edmundsbury efetivamente proibiu música ao vivo contemporânea em prédios públicos por quase 20 anos.
Historiadores musicais locais descobriram que Bob Marley se apresentou no Corn Exchange no início da década de 1970, acompanhando o cantor de reggae Johnny Nash. Logo Bury St Edmunds tem um papel fundamental na história da Magna Carta. Um cronista relata que, em 1214, um grupo de barões se reuniu na Abadia de St.Edmunds e jurou obrigar o Rei João a aceitar a Carta das Liberdades, uma proclamação de Henrique I. Foi o precursor direto da Magna Carta, um ano depois.
Isso explica um pouco do contexto caótico e da mensagem de “I’ Alive”, o novo trabalho de quatro faixas de Consequential, que chega impondo respeito e trazendo sua identidade ainda melhor moldada. O resultado é uma coleção que apresenta o liquid drum and bass elevado a elementos de R&B e trip-hop, proporcionando uma experiência sonora que soa contemporânea e atemporal.
A primeira faixa, “Body Language”, traz influência da black music em sua essência. Com paredes atmosféricas iniciais interessantes, que abrem as cortinas para os trabalhos percussivos entrarem com seu protagonismo e ainda pavimentar caminhos para que R&B trilhe as estradas mais calmas.
Enquanto isso, “Emjoy The Moment” é uma faixa que transita pelas vocalizações femininas, entregando um trabalho mais inspirado no baixo excêntrico, com graves de vibrações canalizadas, além de uma dinâmica que deixará fãs trance bem interessados. O fundo sombrio e levemente introspectivo serve como contraponto e caiu como uma luva.
Eis que chega a faixa título e muita coisa ainda por surpreender. Em maio a batida consistente e rápida, característica mais comum entre as faixas, ele insere um trabalho mais sombrio de fundo, com harmonias eruditas, piano, além de um complemento que deixa a vibração distorcida, dando mais peso. Vocais femininos também comandam a faixa, que tem uma letra um pouco mais significativa de ode à vida.
Por fim, “Touch Down” é a faixa mais moderna do disco, e não que as outras sejam datadas. A abordagem da composição carrega um besunte pop mais forte, porém sem deixar as características do trabalho de lado, muito pelo contrário, o trabalho percussivo desenfreado está lá, mandando bem como nunca.
Não tenha dúvidas que a experiência de 12 minutos de “I’m Alive” é suficiente para o leitor (futuro ouvinte), entender bem a proposta de Consequential, que é mais um daqueles casos que provam a organicidade da música eletrônica. Abrangente, mas com os pés no chão, ele deixa mais um registro que se torna um marco de sua carreira, porém que sobe bastante seu sarrafo. Logo, na próxima empreitada, ele terá trabalho em dobro para no mínimo igualar o ápice que ele atingiu com seu novo EP.
https://open.spotify.com/artist/3NhWYMDBgnzH5pKOiniStQ
https://www.soundcloud.com/consequential
https://consequential.bandcamp.com
https://www.youtube.com/@consequentialuk




