Para entender o trabalho deste artista, temos que contar um pouco de sua carreira. Ainda mais se pensarmos o quanto este trabalho é complexo e exige atenção, não tendo nenhum tino comercial, se preocupando apenas em acrescentar à arte e também ao experimentalismo. Logo, entender a obra requer muita atenção.
O músico e filósofo David Rothenberg escreveu “Why Birds Sing”, “Bug Music”, “Survival of the Beautiful” e muitos outros livros, publicados em pelo menos onze idiomas. Ele também possui mais de quarenta gravações lançadas. Professor emérito no instituto de Nova Jersey, David, ganhou um Grammy pelo álbum “For the Birds”, na categoria de Melhor Box Set, em 2024. “Whale Music” e “Secret Sounds of Ponds” são seus livros mais recentes. “Nightingales In Berlin” e “Eastern Anthems” são seus filmes mais recentes.
Seu trabalho desenvolve experimentos, o que acaba acrescentando coisas novas à música, além de criar possibilidades para novas abordagens. E não seria diferente neste seu mais novo single, “Four Fold”. No disco, a ideia é criar um quarteto de improvisação baseado nas transcrições originais de cantos de pássaros de Olivier Messiaen, antes que ele as incorporasse à sua música. Existem 1200 páginas dessas transcrições disponíveis em seu Tratado sobre Ritmo, Cor e Ornitologia, e muitas delas têm a qualidade esboçada e sugestiva de partituras de jazz.
Falecido em 1992, Olivier Eugène Prosper Charles Messiaen foi um compositor, organista e ornitólogo francês. Um dos maiores compositores do século XX, também destacado professor de composição e análise musical.
Para a realização deste trabalho complexo, Rothenberg recrutou um time de músicos gabaritados. Claro, além do próprio, encontramos um elenco estelar de improvisadores de jazz mundial, todos com álbuns lançados pela ECM Records (selo especialista em jazz) e que agora trilham seus próprios caminhos. Temos aqui a Mestra do Jazz da NEA, Marilyn Crispell, a aclamada violinista folclórica norueguesa Benedicte Maurseth, a lendária estrela solo cigana tcheca Iva Bittová.
O resultado são onze composições experimentais, com contextos musicais intrincados e uma bela produção, que soa orgânica, deixando tudo nítido, o que é fundamental para a compreensão da proposta, que já fica bem clara na primeira faixa.
“Folding” é uma música que traz a essência do disco, abrindo-o de forma objetiva, apesar dos seus quase 8 minutos. Nela já encontraremos o clarinete acompanhado de um piano discreto, camadas de cordas bem-postas, o canto dos pássaros e vocalizações complementares.
“Ashilight” destaca bem o violino, encantando pela sua abertura misteriosa e burocrática, de onde tiram melodias belíssimas das cordas. “Syncline” já chega mais dinâmica e intimista, destacando o trabalho dos clarinetes de David, mostrando vibração e intensidade, já colaborando com os teores mais versáteis do trabalho. Uma música sensacional e que dá um chacoalhada no ambiente.
Tudo foi gravado em um longo dia no Nevessa Studios com o engenheiro de som Chris Andersen, que já trabalhou diversas vezes com Crispell e Rothenberg. Talvez isso explique a qualidade primorosa da produção, que se destaca tão bem em “Know No No”, a primeira música que apresenta elementos percussivos que se contrapõe a certo nível de introspecção.
Enquanto isso, com uma inspiração mais envolvente, “Ruffle” mergulha em notas agudas, o que acaba dando certo clima de suspense. A explosão em violinos faz um contraponto e deixa a faixa magistral. “Anticline” dá uma aula de junção jazz e erudito, com piano, clarinete e vocal duelando na medida!
“Magpie, Moth” é mais uma composição que prima por trazer vibração e sair do espectro melódico, dando consistência e mais variedade ao disco. Abrindo com um clima de suspense, num piano intimista, “Crinkle” encaminha-se para depois ganhar violinos dramáticos, o que acaba a tornando uma faixa mais com teor de trilha, do que exatamente experimental. Espaçadas, ela traz certa angústia, o que não é pejorativo, pois é uma coisa sensitiva.
Entrando na reta final, a belissimamente cantada “Soft Fall”, mostra a sensibilidade dos envolvidos, pois é uma música que traz um certo clamor. Tudo sem perder a essência que foi destilada no álbum até então. “Opposite of Time” é outra que dá sobrevida aos aspectos mais graves, entregando um trabalho que nos prende, aguardando o desfecho.
Por fim, a bela sacada de terminar o disco com “Unfolding”, fazendo o contraponto com a faixa de abertura “Folding”, temos outro épico, este passando dos oito minutos. Mas, a música traz o clarinete, instrumento oficial de David, como o centro de tudo, quanto o piano continua fazendo a cama e o violino aparece para complementar o final épico da faixa mais progressiva do disco.
Para que “Four Fold” seja um trabalho artístico ainda mais completo, o álbum é acompanhado por uma série de fotos de Ingo J. Biermann, veterano de muitas sessões fotográficas de estúdio da ECM. Logo, temos em mãos um trabalho que une arte, ciência e serve muito para abrir novos horizontes para música em geral.
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