Se alguém ainda não entendeu que música e arte em geral, além de entreter, traz conhecimento e só agrega ao ser humano, deveria rever seus conceitos. E, antes que chegue aqueles afoitos por conflitos, isso não é uma regra. Temos música para apenas divertir, música para cumpri alguma função, para dançar, para preencher vazios, para pesquisas, enfim, uma infinidade de coisas.
Mas, é inegável que a arte é uma forma de evolução e quando nos deparamos com um trabalho que segue tal premissa, soa ainda mais encantador e completo. Afinal de contas, é algo que, além de nos gerar entretenimento, nos traz conhecimento, seja ele útil ou não. Se bem que conhecimento nunca é inútil.
Temos aqui um destes casos. Trata-se do West Wickhams, que é formado por Jon Othello e Elle Flores, uma dupla psicodélica ‘Noir Deux’, originária de Tresco, nas Ilhas Scilly. Tresco é famosa por ser a ilha das almas perdidas e abrigar plantas subtropicais e figuras de proa de navios naufragados.
Recentemente, eles se mudaram para Richmond, Surrey, onde as criaturas reinam. Os West Wickhams são uma gangue rival imaginária dos ícones do estilo punk, o Bromley Contingent. Suas influências incluem vários nomes e instrumentos, tais quais Mary Shelley, Abadia de Whitby, órgãos de tubos, flores, gatos de bolinhas, dark punk, romances góticos e autobiografias de rock and roll, mitos antigos, castelos, pintura abstrata, euforia, névoa, outono, Halloween, ilusões de ótica, Edgar Allan Poe, Daphne du Maurier e Andy Warhol.
Tem noção do quanto estes caras possuem de conhecimento e os passam? Pois bem, tudo isso em apenas um EP de 5 faixas intitulado “Sakura” e quase instrumental. O título remete à cerejeira ornamental japonesa, dos quais tem-se conhecimento da existência de mais de 600 tipos. E essa escolha tem um conceito por trás.
Trata-se dos “Pathos das coisas”, que refere-se ao conceito japonês de ‘mono no aware’, que descreve a consciência da transitoriedade da vida e a sensibilidade melancólica que surge ao contemplar a efemeridade das coisas, como as flores de cerejeira que desabrocham e caem. Espetacular não? E nós achando que estávamos diante de algo apenas ‘botânico’.
Pois bem, segundo o duo, essa sensibilidade estética para “o pathos das coisas” destaca a profunda compreensão e a sensibilidade à natureza transitória da vida, um conceito fortemente associado à flor de cerejeira.
Na arte e cultura japonesa, as flores de cerejeira (sakura) simbolizam a natureza fugaz da vida através de sua curta e bela floração, o que define o ‘mono no aware’. Essa filosofia enfatiza a beleza transitória da existência e incentiva a apreciação do momento presente. O simbolismo é encontrado em diversas formas de arte, incluindo pinturas, poesia e até mesmo desenhos de quimono, onde a beleza efêmera das flores serve como um lembrete da natureza frágil e impermanente da vida.
Além de apresentar isso musicalmente, o West Wickhams prima por trazer em sua música o que casa com essa temática e o faz muito bem. A começar pela faixa púrpura de abertura “Up To The Old Tricks” (que ganhou um clipe), que traz um movimento de teclado gótico synthwave, uma batida sútil e vocais chorosos que quase recitam um poema. A música deixa clara a proposta da banda.
Proposta que se consolida de vez em “Ice Block”, uma composição onde a banda traz influência de The Cure e o post-punk dessa era, porém com uma pegada mais orgânica e bem própria. O teclado misterioso e discreto de fundo, além da bateria estridente que explora bem o prato são os grandes charmes do trabalho.
Logo chega “As The Cameras Shuts”, que coloca o trabalho em um lado mais sombrio e experimental, onde eles apostam no órgão de tubos como condutor da melodia. As guitarras de bases inspiradas no post-punk chamam atenção pelas palhetadas repetidas que primam por trazer um ar hipnótico.
E, por falar em ar hipnótico, “EQ The Viper” é uma faixa que traz esse conceito, com um teclado de fundo que nos remete ao suspense, além de um baixo que faz a marcação cerrada no ritmo, vibrando na medida. Mais uma vez o trabalho vocal é falado, aqui ao fundo, dando um ar ainda mais de suspense à música, que tem um trabalho de bateria bem interessante.
O disco fecha com a enigmática e entorpecente “Save Yourselves”, uma música que prima por trazer sons psicodélicos, nem sempre pareados, ora desconexos de sintetizadores, que dão bases a uma batida sublime, que praticamente permeia o disco todo. A faixa sem dúvidas, é uma representação musical do tema do trabalho, inclusive nos gerando cores avermelhadas e rosas na mente.
Não tenha dúvidas que, depois de ouvir “Sakura”, não seremos mais o mesmo e teremos um momento grande de reflexão sobre aquilo que acabamos de absorver, tão mágica é a arte encontrada neste disco que tem pouco menos de 14 minutos e nem percebemos o quão imediato é. Acima de tudo diferente!
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