Sabemos que grande parte da África foi ocupada pela França, cerca de 20 países dos 54 países do continente, ou seja, quase a metade. A ocupação francesa do Gabão teve início em 1849, com a fundação da cidade de Libreville. Mas foi com a exploração de madeira nas primeiras décadas do século 20 que a administração colonial se fixou de vez na região.

Situado na costa equatorial ocidental da África, o Gabão anteriormente uma colônia francesa, se tornou independente em 1960. A capital e maior cidade acabou se tornando a própria Libreville. Obviamente que com isso, as influências franco-europeias ficaram por lá.

Tita Nzebi, originária das exuberantes florestas de Mbigou, no Gabão, emergiu como uma voz poderosa no cenário musical internacional. Tendo se apresentado em palcos prestigiados como o Café de la Danse e a 360 Paris Music Factory, ela é um dos frutos dessa união França / Gabão e chega agora ao seu mais novo disco.

Mas, Tita preserva ainda mais a cultura gabonesa antes de entrar qualquer vestígios em seu som, inclusive optando por cantar no dialeto local. E isso você pode conferir em “Réminiscence”, disco lançado no último dia 20 e que traz muito bem toda essa essência.

Com 10 faixas, além de mostrar o talento de Tita, o disco é um testemunho da maturidade musical e da importância cultural de Tita Nzebi. Gravado em renomados estúdios de Paris e mixado no Real World Studios de Peter Gabriel (ele mesmo), o álbum explora as complexidades da experiência humana, da espiritualidade e das relações sociais.

Com uma carreira que abrange continentes, do Gabão à Índia, do Canadá à Alemanha, Tita combina habilmente ritmos africanos com sons modernos, cantando predominantemente em nzebi para afirmar uma identidade forte e um compromisso com sua herança cultural. Tudo moldando uma forte identidade.

O disco abre com a faixa título, que já deixa bem claro qual vai ser a metodologia e já mostra a inserção de uma boa gama de instrumentos. Com base em uma guitarra de bases típicas e a percussão cativante, a faixa prima por trazer um trabalho vocal impositivo de Tita e backings tribais.

Com um pouco mais de melodia “ETC.” é uma faixa que mantém a essência, inclusive do violão de dedilhados específicos e a percussão tribal, que aqui tem mais cadência com reflexo nos chocalhos. Os backings se fazem presentes novamente, mostrando que serão presenças constantes, e aqui soam um pouco mais sublimes.

“A´TA” chega e prova que as baladas africanas são ainda mais lindas, com uma leveza e ao mesmo tempo vibração magistral. Um dos refrãos mais fortes do disco, a música destaca ainda mais a voz de Tita, mostrando-a uma cantora simplesmente única.

Com uma veia mais climática, “MBAMA” é daquelas composições que intrigam, afinal de contas, consegue ser suave, mas manter uma energia estonteante. O piano discreto e as camadas de teclados bem-postas dão um ar mais global à faixa, sem nunca deixar a essência de Tita de lado.

Claro, uma dança intensa não ficaria de fora e o ritmo intenso chega com “KEK’DA”, uma das mais dinâmicas do disco, que surpreendentemente tem bases com fundo erudito, mostrando mais uma vez a versatilidade de Tita, que aqui sobe o tom nos vocais encantando mais uma vez.

Vibrante e com uma introdução tribal de arrepiar “31 AOÛT” é daquelas faixas progressivas, onde a emoção toma conta junto com a tensão de seu teor cheio de mistério. Além do clima soturno, a música encanta pelo trabalho vocal todo cuidadoso, onde Tita dá mais espaço aos backings, que acabam soando como uma base climática.

Voltando ao ritmo mais intenso, sem perder a sensibilidade e com boa dinâmica, “BA’ATE” é uma música que traz as melhores bases de guitarra e violão, sempre no dedilhado típico da afromusic e agora contando com backings femininos, dando ainda mais sutileza à faixa. Um solo de viola acompanhado por um baixo estonteante deixa tudo ainda mais lindo, mas a cereja do bolo é a participação de uma vocalista que faz um solo lírico e depois compartilha com Tita suas linhas.

“ARROGANCE” traz um ritmo intenso de volta e lá no fundo, mesmo que inconscientemente, mostra leves toques latinos. Um fundo com um piano bem sacado mantém, mesmo que de leve, a universalidade do trabalho.

Enquanto isso, “NZEMBI” vem pra provar que é a música mais requintada do disco, já que oferece um fundo orquestrado belíssimo, além de um piano magistral se mesclando com a percussão tribal típica, mostrando uma junção sensacional.

O disco fecha com a agitada “MBAMA Scène” em uma versão acústica e alternativa, mantendo o agito e encantando pelo clima que conseguiu variar. Oferecendo uma profunda reflexão sobre temas como transmissão, sabedoria materna, elevação espiritual e o dever da lembrança, “Réminiscence” é um disco que abre o leque da música africana, sem descaracteriza-la e isso é simplesmente uma façanha.

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