É muito bom receber alguns trabalhos que tem, além da música, vários outros propósitos e estes propósitos englobam a honestidade que preserva todo um legado, traz essência e mantém a alma dessa arte que nos encanta. E temos aqui um grande exemplo disso, que é o novo disco ao vivo do The Sven Curth (huge) Trio.
Comandado pelo multi-instrumentista, cantor e compositor Sven Curth, o disco, além de ter a sua função em si, que é expandir uma apresentação ao vivo e oferecer esse som ao maior número de pessoas, traz uma luta particular contra essa infestação de IA (a inteligência artificial) que tem invadido o cenário.
E ele mesmo explica. “Este é o meu quinto álbum, e pela primeira vez, é uma apresentação ao vivo com banda. Num mundo onde a inteligência artificial invade tudo, senti que era o momento certo para apresentar alguns bons músicos fazendo o que amam para o público. Há calor, amor e, acima de tudo, humanidade”, aponta o artista.
E isso é consequência do que Sven sente ao fazer música, afinal de contas, não se trata somente de compor e tocar. “Sou cantor, compositor, guitarrista e toco banjo. Meu interesse pela música se divide igualmente entre uma busca incessante por composições comoventes e bem elaboradas e uma obsessão por me tornar um músico melhor em meus respectivos instrumentos. Gosto de experimentar diferentes gêneros, com canções de temas diversos que incluem comentários sociais, humor, reflexões sobre a vida e, em geral, bobagens. Ou pelo menos é o que espero”, diz.
“Live at your local Waterhole” é fruto disso tudo e traz uma equipe e tanta em seu contexto, algo que faz com que imaginemos que nada poderia dar errado aqui. Ao lado de Sven temos Kyle Murray (bateria/vocal), Colin Dehond (baixo/vocal), Jenny Curtis (vocal/percussão/ukulelê) e a participação especial de Chris Carballeira nos teclados, este último que tem uma presença fundamental.
Com um som orgânico, como era previsto, o trabalho, que teve uma pré-mixagem, contou com gravação de Eric Munley, foi mixado por Tom Varga e o próprio Sven Curth, sendo que a masterização ficou por conta de Kevorkian Mastering.
A viagem passa por nove composições, que transitam do country, passando pelo folk, estacionando no blues e com uma leve carona pelo rock. A jornada dura um pouco mais de 53 minutos, e tudo compensador. O leitor (futuro ouvinte) irá confirmar isso no final!
“How Come?” abre o disco de uma forma um tanto quanto tímida. Não, não é que é uma faixa sem energia ou introspectiva, mas não tem a energia de uma faixa de abertura e vai ganhando corpo durante sua execução. Na verdade, se trata de uma música excelente e de arranjos detalhados, além de backing vocals primordiais e um refrão todo sentimental.
“Rain” mantém a introspecção, mas por ser um blues à flor da pele. Com uma guitarra magistral e bateria jazzística, a faixa é poderosa e traz à tona um lado mais sisudo da banda. Temos que confessar que “Worse Before Better” trouxe a energia no momento certo, sendo um pop country de vanguarda com ritmo bem interessante.
E esse agito se intensifica no country quase honky tonk de “My baby hates me when I’m drinking”, uma faixa veloz que traz guitarra e órgão furiosos, e mantém a peteca no alto. Mantendo o bom humor, mas com uma versão um pouco mais branda e levada blues descontraída “Jesus Loves Tractor” tem uma sacada impressionante, com destaque para o equilíbrio que a cozinha mantém na faixa e passa despercebido.
Resgatando um pouco mais de seriedade (no bom sentido), eles entoam “Wonder What”. Mesmo assim, com equilíbrio, a descontração é mantida e uma veia inspirada no reggae se revela. Basta ver a levada, o solo de guitarra e os teclados de Chris, que aliás, fazem um trabalho espetacular e fundamental no disco, sustentando bases com maestria e bom gosto.
Com um ritmo contagiante e um refrão espetacular, “Let There Be Light” é uma faixa que prima por trazer um refrão que pega, mas foge do convencional por ter frase grandes e intensas. Enquanto isso, “Of weddings” traz o country blues de volta, do jeito que Johnny Cash gostaria e aprovaria, sem pormenores, porém com mais elementos elétricos.
Fechando o disco, “Go Away, Cloudy Day” retorna com uma pegada reggae, principalmente na levada, porém um tanto quanto mais mesclada com o country e guitarras bluesística que aparecem com mais ênfase, quase que dividindo-se com as linhas vocais.
Infelizmente “Live at your local Waterhole” possa ser lembrado num futuro próximo como algo jurássico, mas felizmente, para os verdadeiros amantes da música, isso é um elogio. Afinal de contas, o disco traz um trabalho memorável, com ótima gravação, organicidade, todos instrumentos realmente tocados, além do calor humano que a música necessita. Ouça no melhor volume e seja feliz!
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