Enquanto muitos governantes fecham fronteiras e criam muros, a música não só ultrapassa fronteiras, como as rompe e as expande, provando que a vida é muito melhor que isso. Temos aqui um bom exemplo disso e que ainda nos oferece uma sonoridade diferenciada, recheada de elementos e navegando por diversos gêneros.
O Sugar Scars é um projeto musical binacional de dois DJs multi-instrumentistas que vivem em regiões fronteiriças entre os EUA e o México. Um é de El Paso, Texas, e o outro de Juarez, no México. Eles chegam agora ao segundo álbum, onde provam que nem sempre as ondas musicais nos levam onde queremos.
Sim, porque a ideia inicial era criar um som que mesclasse influências culturais de diferentes países, mas, ao ouvirmos seus discos, em especial este “Dark Spark-White Light”, que acaba de ser lançado e mostra eles ainda mais abrangentes e originais, primando por uma sonoridade que passa perto do irrotulável.
Tematicamente, o novo disco tem um tema centra, que celebra uma realidade honesta e a expressão única de uma Pessoa Sombria que vê a Luz Branca e se reconcilia com ela. As faixas se desenrolam em temas que se conectam, mas não se tratando exatamente de um álbum conceitual.
O disco começa com a atmosférica e intrigante “Sad Rain”. De forma branda e introspectiva ela se inicia unindo sintetizadores de fundo e uma guitarra discreta e fundamental, enquanto o trabalho vocal se dobra mesmo que de forma sutil, como praticamente decorre no disco. As batidas criam expectativas que nos imergem ao restante do disco.
Já em “Dark Charm” essas batidas se intensificam, nos levando a uma pista de dança gótica, onde darkwave dá as caras, inclusive com elementos percussivos complementares e vocais praticamente sussurrados. A veia industrial é nítida e notaremos que irá aparecer diversas vezes no disco. Uma das melhores do disco, não é a toa que foi escolhida como um dos inglês.
Quando chegamos em “Deathtiny” vemos o quanto eles são versáteis sem perder a essência. Mais uma faixa dançante, a música ganha um pouco mais de luz, mostrando um lado indie electronic e vocais descontraídos, sem descartar o certo ar sombrio e melancólico que a sonoridade do Sugar Scars proporciona.
“Mermaid”, o outro single prévio do disco, segue um pouco a premissa de sua antecessora, mas é mais versátil e orgânica, inclusive trazendo elementos do dream-pop. Falando em dream-pop, a banda explora bem essa vertente, mas sem cair na zona de conforto do estilo. Como podemos observar em “Mantra” e sua guitarra limpa e sintetizadores distorcidos, além do fundo gregoriano que deixou tudo mais interessante.
É incrível como “Dark Spark-White Light”, ao seu decorrer, toma forma como um disco único e homogêneo, o que já podemos sentir em sua metade. Isso mostra o quanto a dupla conseguiu criar uma identidade.
“Hum” tem bases sólidas e dá continuidade a tudo que foi executado até então com muita propriedade. Enquanto “With Me” retorna com a sobriedade do indie electronic, com foco nos vocais versáteis, indo do agudo mais descontraído a de fundos sombrios e graves. Tudo com um ritmo mais intenso e uma melodia levemente mais pra cima.
Queres uma batida indie pop cativante, mantendo o ar empoeirado da produção e dos timbres característicos do projeto? “Hedonistika” entrega isso, mostrando que o tempero agridoce é um dos principais fatores do disco. “Check Yo Self” é tão descolada quanto sua grafia e chama atenção da inserção de um teclado e dedilhados de guitarras hipnotizantes, o que mostra uma das intensões dessa faixa muito bem trabalhada.
Anunciando um fim longe de ser trágico, mas apenas de um disco maravilhoso, “Burnet Sedition” é um faixa instrumental que consegue, sem os vocais, mostrar praticamente tudo que se encontra em “Dark Spark-White Light”. Bateria programa com dinâmicas e interseções ora graves, ora mais estridentes, sintetizadores com camadas atmosféricas e distorcidas se sobrepondo, guitarras empoeiradas com dedilhados bem sacados e uma vibração muito particular.
Para encerrar com “Just Go”, temos um alento e tanto, pois estamos diante de mais uma destreza da dupla, que insere elementos acústicos, entregando uma balada típica, mantendo a essência. Uma faixa com teclados climáticos ao fundo, um violão de bases simples, a bateria e percussão com dinâmica na medida e mais um trabalho vocal em dueto. Encantadora.
“Dark Spark-White Light” é um disco que prova que muitas vezes tomar um direcionamento natural em suas propostas acaba gerando uma identidade, pois é o que acontece aqui com o Sugar Scars. A banda molda suas características, consolidando de vez o seu som.
No mais, andando por caminhos da música eletrônica, o rock, dream-pop, indie electronic, synth e darkwave, eles conseguem soar abrangentes e dão uma abordagem que propiciam um som que pode ser apreciado por todos. Tudo sem cair em tinos comerciais e soar comum. Ouça no melhor volume!
https://soundcloud.com/thesugarscars/haight
https://www.youtube.com/watch?v=Pr2BiZzrKxU
https://open.spotify.com/artist/3WCaN9QEGnSeC67w0n1LCQ?si=iexUhGpcTgOfulGMNY_W0g
