Definitivamente é difícil não se deixar comover com um ecossistema que, além de delicado por meio de sua estrutura sônica intimista, é repleto de gentileza, compaixão e um toque de cuidado que amolece até mesmo os corações mais rígidos. Aromática diante de sua desenvoltura minimalista, a canção faz do piano o elemento-chave para a criação de um campo sensorial pungente e profundo. Não é de se surpreender, portanto, que as lágrimas acabem escorrendo livremente pelo rosto diante do protagonismo cálido vivido pelo instrumento. No entanto, se engana profundamente quem pensa que a emoção está resguardada apenas no quesito instrumental. Ulrich Jannert, com seu timbre afinado e coim inclinações para com um sabor adocicado, em virtude de sua escola de canto, dá a I’ve Walked Through Fire uma perfeita intersecção entre soul e R&B de caráter lírico motivacional que enaltece o senso de identidade em relação à questão da individualidade. Ser quem se é é o que vale. E nada mais importa.

Tal como aconteceu na canção anterior, o piano é aquele elemento que rege a atmosfera com uma delicadeza palpável comovente. Ainda que mais fresco em relação à sua desenvoltura anterior, o instrumento, aqui, se vale por uma curiosa junção sensorial entre nostalgia e melancolia, mas, claro, com um toque marcante de uma postura inclinada à reflexão. Mergulhado especialmente na cena da música soul, Jannert se apresenta por entre melismas cheios de sentimentalismo. Não é de se espantar que, a cada rompante que ele constrói com a experimentação de versos cantados em maiores extensões vocais, o ouvinte se veja não apenas com lágrimas nos olhos, mas completamente arrepiado em razão da profundidade emocional e da sensibilidade exacerbada possuintes pelo cantor. Na companhia do violão na ânsia de surtir na elaboração de uma camada de serenidade, a faixa-título é, simplesmente, um chamado da liberdade. Um grito pela independência e pelo senso libertário rumo à busca de conquistar os sonhos idealizados.

Ainda que a faixa tenha seu despertar puxado por uma mesma veia sonora em relação aos títulos anteriores, aqui o que acontece é o desenvolvimento de uma paisagem sônica mais séria, reflexiva. Surpreendentemente, a maneira com que a bateria se movimenta na construção do escopo rítmico fornece à obra uma sensorialidade sensual e macia embriagante. Com seus golpes tão delicados a ponto de surtir na construção de sons de natureza opaca, a bateria ainda se apropria de instantes em que explora uma sonoridade levemente mais áspera em razão da influência da esteira da caixa. Sem interferir em sua fragilidade estrutural, no entanto, a canção acaba usando esse elemento percussivo também para tornar Not Too Late For You um produto com uma boa camada de dramaticidade. Macia, sensual e cheia de compaixão exalada pela sua sonoridade totalizante, a faixa é mais um produto motivacional de Wander Still. Ao contrário, ou melhor, completando o contorno narrativo da faixa-título, Not Too Late For You vem com a intenção de mostrar ao ouvinte que nunca é tarde para ousar, para aproveitar a vida da melhor forma. Para viver o puro sem as amarras da tensão, da preocupação e dos compromissos que preenchem a agenda sem deixar tempo suficiente para a simples contemplação da vida.

Dentro desse minimalismo estético que chega trazendo a introdução da nova composição como um brisa regida por um senso gracioso de leveza e tranquilidade, existe um toque melancólico surpreendentemente marcante pelo seu contorno postural cabisbaixo e, consequentemente, entristecido, que rouba qualquer menção de alegria ainda vivo no interior do espectador. Aqui, porém, é nítido o viés de súplica entregue de maneira sincera, pungente e orgânica por Jannert. Ganhando inclinações dramáticas conforme se percebe a presença de pulsos percussivos firmes preenchendo a arquitetura sônica, Step Into The Light é uma canção em que mostra a força e a resiliência do indivíduo perante a dor, a depressão, as sombras. Um produto que ensina a lutar contra os próprios demônios para voltar a ver a luz do sol brilhar novamente na vida de quem a busca e a deseja. Uma canção que traz o medo não como impedimento, mas como uma arma que torna o indivíduo mais forte.

True To YOU já vem com uma estrutura sônica completa desde seu início imediato. Contando com voz, bateria e piano interagindo juntos e ao mesmo tempo em uma mesma cenografia sônica, é interessante de se observar como a canção tem, no teclado, aquele elemento que oferece uma cama de compaixão e singeleza em meio a uma intensidade emocional tocante explorada pela interpretação lírica assumida pelo cantor. Aqui, inclusive, é até possível de se identificar similaridades entre a cadência lírica desenvolvida pelo cantor com a melodia criada em Over My Shoulders, single do Mike And The Mechanics, provando, curiosamente, uma ligeira inclinação para com a temática estrutural do pop.

Wander Still não pode ser definido como um disco comum. Ele é um material que se vale mais de suas mensagens líricas do que propriamente de seu enredo harmônico-rítmico-melódico. Afinal, ele não se baseia no virtuoso em momento algum. É a simplicidade estético-estrutural que comanda a sua trajetória sônica. E é exatamente esse um de seus mais importantes diferenciais.

Nesse quesito, é difícil, se não impossível, não mencionar o poder, a entrega, a intensidade, a pungência ofertada por Ulrich Jannert em cada palavra por ele proferida. É um sentimentalismo tão cru, tão vivo, tão pulsante que o ouvinte sempre se percebe tocado e estimulado. É como se Jannert, dotado de uma sensibilidade incomensurável, funcionasse como um ser divino de presença onipresente, trazendo ensinamentos sobre como viver e como se amar.

Mesmo que isso fique bem claro durante a execução das cinco primeiras faixas de sua track list, Wander Still é, em sua plenitude de 18 títulos, um produto motivacional que fala com a alma para o coração de todos aqueles que aceitam ser tocados pelas suas aulas de serenidade, resiliência e, acima de tudo sabedoria. Um disco de instrumental simples, mas que, ao se apoiar na sonoridade do soul, atinge patamares quase sobre-humanos de sensibilidade e compreensão da vida.

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Mais informações:

Spotify: https://open.spotify.com/intl-fr/artist/1lu3StHbJz1S4d6sUmvgPC

Instagram: https://www.instagram.com/ulrich_jannert/

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