Soft Lad | Johnno Casson aka Snippet lança álbum definido como um recorte da vida em tom menor, sombrio e melódico

Dizer que é ousadia pode ser até enxuto demais. Afinal, o que Johnno Casson propõe é iniciar o álbum não com uma faixa preludiante comum, tradicional. Ele transforma The Simplest Things, em meio aos seus míseros trinta segundos de duração, em um produto que, tal como o nome sugere, explora e se aprofunda na simplicidade da vida. Nos momentos de aparente pequenez. O canto dos pássaros, em uma perfeita sintonia aguda, se sobrepõe ao badalar do sino percebido ao fundo, o que surte em uma conotação não apenas bucólica, mas culturalmente interiorana. A partir daí, o delicioso e o confortável se fundem em meio à natureza e à aura mansa do ecossistema de uma cidade pequena, longe da movimentação dos grandes centros urbanos.

Saindo de um lo-fi ambiente, a presente canção tem seu início marcado por uma sonoridade propriamente instrumental. A partir de um groove bojudo, mas certamente firme, elaborado pelo baixo a partir de sua sonoridade que pende à secura, a composição acaba conseguindo desembocar em vislumbres quase imperceptíveis de sensualidade no que tange ao aspecto da maciez. Surpreendentemente, o que acontece em seguida é a aparição de uma sonoridade digitalizada que beira o estridente. Mergulhando diante à pureza da significância do experimentalismo, a composição se percebe caminhando por meio de uma espécie de dissonância sincopada de brisas introspectivas. Eis então que o enredo lírico começa a ser elaborado, colocando o ouvinte em contato com uma voz masculina intermediária usada por Johnno Casson de maneira a criar uma sensorialidade sussurrante que induz à percepção de um comportamento sorrateiro e observador. Harmonicamente linear, Too Many Snakes In The Long Grass se destaca por se aventurar na degustação de diferentes texturas em meio à sua execução.

Nascendo de forma concisa e com uma densidade equilibrada ocasionada pela homogênea intersecção entre o baixo e a bateria, a faixa coloca o ouvinte em um cenário de movimentação fluida com direito a uma breve conotação de sensualidade. Sincopada diante da sua delicadeza percussiva, a composição evidencia uma base sonora consistente em que os instrumentos se apresentam em meio a uma inquebrantável sinergia. Ao se mostrar madura, portanto, é interessante perceber como a música faz de sua própria crueza algo contagiantemente atraente. Embebida em nuances que sugerem a introspecção, Some Days tem seu enredo lírico nascido a partir de cantarolares sobrepostos de forma a criar uma combinação de tons que vai do grave a uma leve brisa de falsete. O curioso é perceber que, nesse contexto, a interpretação verbal sussurrante perpetrada pelo vocalista recicla aquela postura sorrateira sugerida durante a faixa anterior. Ainda assim, aqui há um tom que beira a reflexão diante de uma generosa camada de torpor.

Se o torpor se fez presente de alguma forma durante a execução da canção anterior, aqui esse teor sensorial é explorado de maneira mais profunda e intensa. Conseguindo, a partir dele, roubar a percepção consciente do espectador, a presente composição se permite explorar alguns requintes atmosféricos de forma a tornar o seu ecossistema embriagante de maneira incontestavelmente léxica. Se maturando diante de sonoridades suspirantes, calmas e brisantes que se contrapõem à postura lúcida do baixo existente na base melódica, a faixa tem a sua camada lírica construída sobre uma interpretação sussurrante tal como se estivesse sob um efeito de alucinação, de embriaguez. Acompanhada por uma sonoridade de movimentação amaciadamente ondulante em sua aparência sintética, ela vai assumindo um contexto valsante capaz de perfumar o ambiente com um aroma floral e romanceado. Diante disso, You Played A Good Game se destaca por fundir o brisante e o cru com uma base interessantemente bluesada em razão de seu compasso em 4×4.

Ganhando um contexto sincopado, atraente e de brisas swingadas chamativas, mas não necessariamente expansivas, a canção nasce diante de uma sonoridade seca, mas repicada, o que sugere uma conotação de movimento fluido e atraente. Se sobrepondo a esse escopo rítmico-melódico, Casson surge em meio a uma linha verbal pronunciada de forma mais falada do que propriamente cantada. Agraciada por uma base atmosférica de nuances amofinantes, Sometimes I Fade desemboca em um refrão em que o lirismo assume uma postura melódica e, em meio a uma melodia sintética e equilibrada entre acidez e torpor desenhada pelo teclado, propõe a ousada pincelada de melancolia em seu ecossistema.

De beat pulsante e incontestavelmente cru capaz de denunciar os flertes perante a utilização da densidade dos subgraves, a composição se anuncia diante de um contexto que sugere o intrigante. Ganhando sobrevoos de um ácido sintético vulnerável, a faixa acaba, invariavelmente, namorando sabores mais tendenciosos à new wave. O curioso, porém, é se atentar ao fato de que Make It All Go Away, mesmo embasada nessa acidez digitalizada, é agraciada pela presença de elementos percussivos que lhe entregam o tribal como importante detalhe de sua conjuntura estrutural. Capaz de incitar o espacial conforme avança em meio à sua própria desenvoltura, a faixa acaba ganhando a presença de um sonar estridente que, entre pulsos sincopados, chega a incomodar o espectador de maneira aparentemente proposital. Uma textura que, visivelmente, se contrapõe ao torpor iminente e inescapável fomentado pela obra, especialmente pela camada ululante de backing vocals.

O que o ouvinte presencia ao mergulhar na audição de um material como Sot Lad é a pura comprovação do experimentalismo. Não se importando com o mainstream ou com aquilo que é tido como radiofônico, Johnno Casson preenche o material com uma mistura do sintético e do orgânico de forma a criar um som híbrido marcado pela consistência e pela densidade.

Sem qualquer menção de drama o pungência, podem até existir instantes em que a melancolia se faz presente, mas em hipótese alguma ela é o caráter sensorial majoritário diante da totalidade do presente conteúdo. O que há em grande escala é o introspectivo e o torpor, quesitos muito bem mesclados à maciez e a ligeiros requintes de sensualidade espalhados por meio de nuances estéticas cruas e de aparências que beiram o espacial.

Se destacando por dar grande ênfase à sinergia alcançada entre o baixo e a bateria, o disco tem como principais chamarizes as suas seis primeiras obras pelo fato de elas ilustrarem, de forma mais clara e precisa, cada um dos apontamentos listados até aqui. Ainda assim, títulos como Panama, que entre o baixo e seu toque tilintante parece alcançar um compasso semelhante ao do xote; a sombria I Keep Running Away From Myself; e Every Single Moment Of Joy, com sua extasiante e etérea atmosfera, pesam na totalidade do disco. Elas auxiliam no fato de Soft Lad trazer a introspecção a partir de conceitos de sobrevivência, humanidade e o amor em sua forma emocionante.

Mais informações:

Spotify: https://open.spotify.com/intl-fr/artist/6HUkNbWWOERkQKQNzjARub

Site Oficial: https://www.johnnocasson.co.uk/

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Soundcloud: https://soundcloud.com/snippet

Bandcamp: https://snippetcuts.bandcamp.com/

YouTube: https://www.youtube.com/channel/UCCglGwoEQm3_IdDLIEoSr-A

Instagram: https://www.instagram.com/snippetcuts/

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