Shaven Primates chegam ansiosos com novo EP

Se existe um gênero musical que sempre se manteve regular, tanto musicalmente quanto midiaticamente, este sem dúvidas foi o rock progressivo. Surgido na Inglaterra em meados da década de 1960, o estilo começou misturando o rock com a música clássica, o jazz e o folk, trazendo músicas longas, letras complexas e muita técnica nos instrumentos.

A megalomania fez parte do estilo, principalmente nos anos 70, onde primaram por inserir viagens sintetizadas em suas composições, principalmente nas apresentações ao vivo, caracterizando muito o trabalho como algo pretensioso. Claro, existiu isso, mas, como quase tudo, tem seu lado positivo e o progressivo não seria diferente.

O progressivo, além de tudo, se tornou um estilo de fácil desenvolvimento e maleável, inclusive ganhando contextos com o heavy metal, tendo seu auge no final dos anos 80 e início dos anos 90. Hoje em dia, praticamente todas as subvertentes da música pesada se diluíram com o gênero, mostrando seu poder.

Não bastasse isso, o progressivo também se ramificou e dentre suas crias, temos o art rock. Para quem não conhece, o art rock é um subgênero que mistura a energia e a instrumentação básica do estilo com elementos da música experimental, da vanguarda e da arte erudita.

Também não é algo novo. Surgido no fim dos anos 1960, ele busca ir além do entretenimento comercial, focando em conceitos filosóficos, texturas sonoras inovadoras e forte apelo estético visual. Sua fusão com o progressivo começou por lá e hoje é mais comum do que se imagina.

Toda essa premissa chega para situarmos o leitor (futuro ouvinte) dentro do trabalho do Shaven Primates, que é um quarteto que transita pelo dark-wave, o mencionado art-rock e proto/pós-punk. Vinda de Oxford, Reino Unido, a banda foi formada em 2017 e busca expandir as fronteiras dos gêneros que compõem sua identidade musical.

Essa identidade transita e muito pelo art rock, sendo um de seus principais motes e eles chegam agora com um novo EP onde enfatizam isso. Intitulado “Kill The Algorithm”, o trabalho prima por trazer um tema central, sem ser conceitual, e uma viagem sonora que se expande, mas não deixa as características da banda de lado.

Com quatro faixas distribuídas em quase 18 minutos, o disco tem como temática geral a “Ansiedade e Controle”. A intenção inicial foi sora liricamente em contraste com os álbuns anteriores: “Chasing The Dragon” (que abordava o “Desejo”), “Birds Aren’t Real” (sobre pensamento alternativo) e “Child Of Dirt” (sobre traumas de infância e dependência). 

O disco abre com a enigmática (inicialmente) “Savior”. Uma faixa que respira rock alternativo, mas com o adendo de progressivo em suas guitarras e na alternância de ritmo sem perder a dinâmica. Sem sombras de dúvidas um convite perfeito para se enveredar no EP e entender a proposta do Shaven Primates.

Os destaques individuais da faixa ficam por conta do excelente trabalho da cozinha, que não fica apenas por conduzir o andamento e fazer o trabalho sujo, mas aqui mostra consistência e linhas que muitas vezes se desprendem do comum.

“Pioneer Way” é uma faixa que prima por trazer o proto punk mais na cara. Dinâmica e agressiva, a faixa soa direta, com guitarras de bases fortes e soando objetiva. Não à toa é a composição mais curta do disco, com seus três minutos e meio.

Aliás, um adendo. A faixa mais longa de “Kill The Algorithm” não tem cinco minutos e meio, o que mostra que a banda também traz uma façanha, que é apostar numa veia progressiva e conseguir explorá-la sem ultrapassar os limites ou cair nos clichês do progressivo, entregando faixas massantemente longas.

Pois bem, em “Feed”, o espírito alternativo retorna, mas dessa vez com uma luz um pouco mais acesa. De qualquer forma a banda ainda não cai sai de leves toques melancólicos e reflexivos, principalmente no que concerne ao verso da faixa. No final das contas a canção soa mais ‘alegre’ no refrão, o que costuma ser praxe.

Por fim, chegamos à faixa título que é a que encerra o disco e traz um contexto progressivo mais elevado e contraposto. “Kill The Algorithm” é a mais sombria e versátil do disco, além de mostrar técnica e sensibilidade. No entanto, uma faixa poderosa, onde a banda consegue se reinventar dentro de si.

O que devemos ressaltar é o fato do trabalho incluir, em meio às suas estruturas intrincadas, um refrão pegajoso e partes mais acessíveis dando um equilíbrio impressionante. Outro fator marcante fica por conta de seu final épico, cheio de emoção e com vocais (backings) que nos levam às lágrimas.

As considerações finais são as seguintes. “Kill The Algorithm” tem uma produção orgânica que só aumentam a qualidade do disco, deixando-o ainda mais prazeroso de ouvir. No entanto, estamos diante de um trabalho tão bacana, que apenas quatro faixas nos deixam aquele gostinho de ‘quero mais’.

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