Quando ouvimos um trabalho como este disco de estreia de Rose Ringed, intitulado “Mylène”, entendemos a importância de um artista em ser abrangente e absorver o máximo de influências para moldar sua sonoridade. Aqui, o DJ/produtor/baterista/pianista entrega uma mescla de estilos, criando sua própria sonoridade, nos fazendo imergir em uma viagem sonora de diversas facetas.

São 17 composições onde Ringed consegue destilar gêneros e subgêneros da música eletrônica, transitar pelo instrumental e faixa com vocal de uma forma natural, do qual o ouvinte não se dê conta, tamanha a naturalidade que tudo flui nas poucas mais de 1 hora e 13 minutos.

E, não bastasse isso, o artista ainda traz uma temática sentimental que explica o fundo emocional que praticamente todas as composições, possuem, já que “Mylène” é um disco que aborda a morte de sua amada mãe, uma bailarina de jazz, quando ele tinha apenas 11 anos. Embora pessoal, é universal como um guia para o luto, um exemplo de esperança, de dor transformada pela criatividade em arte e até mesmo alegria.

Porém, não estamos diante de um álbum piegas, que vive de escorar-se em lamentações, e sim de um disco onde Rose investe em melodias bonitas, além de diversas outras experimentações, que o deixam versátil.

Falando em beleza, a faixa de abertura, “Mama”, requer preparo, pois pode arrancar lágrimas já de início, inclusive com sua introdução tocante. Com um fundo onde prováveis sons de uma gravação do artista com sua genitora, a música tem batidas sublimes e bases atmosféricas com melodias introspectivas, enquanto ele canta uma homenagem de forma branda em holandês.

Em seguida vem “Blue Eyes”, uma faixa que já mostra o contraponto que mantém o álbum em equilíbrio. Instrumental, a faixa é daquelas que mesclam o synthwave e o EDM em batida dinâmica e teclados imponentes, com bases sólidas. “One More Time” chega mantendo esse synthwave, com uma roupagem atual, mas um clima digno das pistas ‘dark’ dos anos 80, um verdadeiro primor.

O trabalho todo tem um fundo erudito, hora com mais discrição, ora aflorando para dar mais requinte, como aqui na instrumental “Gave It All”, onde um simulador de violino aparece como principal fio condutor da melodia, deixando a faixa maravilhosa. Já em “The Boy Full Of Melodies”, quem tem essa função são os teclados, mostrando a importância e o diferencial da organicidade, mesmo em um trabalho preponderantemente de música eletrônica.

Com um começo tão misterioso e discreto, “Without You” vem com o house progressivo e é uma das faixas épicas do trabalho. Seus quase dez minutos provam a habilidade Ringed em unir elementos e fazer com que eles soem gradativamente, sem cansar o ouvinte.

Logo “Searching” retorna com vocal e um house atmosférico todo emotivo, onde os teclados aumentam sua intensidade com fluidez natural, e os vocais introspectivos balanceiam com o instrumental de forte energia. E, incrivelmente mantendo as características, a psicodelia e o tom dançante chega em “The Letter”, uma faixa com teor latino e espacial que extrapola o nível criativo de Rose.

A segunda metade do disco começa com a misteriosa “Begging”, uma faixa que retorna ao house, mas com um teor synthwave que a deixa atemporal e vocais góticos intimidadores. Enquanto isso, “That Day” é uma balada eletrônico de fundo psicodélico, onde Ringed coloca os sentimentos à flor-da-pele e faz um contraponto com sintetizadores dinâmicos ao fundo.

“Can’t Take It Anymore” é uma faixa inspirada no britpop ointentista, inclusive se utilizando de elementos vintage se entrelaçando com outros mais modernos e vocais versáteis. Enquanto isso, “I Miss You” é a primeira que chega com aquele teor atual de synthwave e R&B, num ritmo dinâmico, mas uma pegada um tanto quanto mais introspectiva, criando um bom equilíbrio.

E, o disco vai ganhando sua maioria de faixas com vocais no final, dando aquela impressão de que sua primeira metade é reflexiva e a segunda um desabafo, já que estamos em um trabalho conceitual.

O dance atmosférico “So Much Love To Give” é uma aula de energia e abordagem sublime, mostrando que nem tudo precisa ser intenso quando se necessita de algo enérgico. Destaque também para o refrão que nos pega de imediato. Enquanto isso, “Deep Inside” é uma balada gótica que tem um final mais apoteótico.

Estamos chegando ao fim, e o que impressiona é o quanto Rose consegue manter sua identidade variando em tudo. Um bom exemplo é “Gotta Let You Go”, que conta com vocais femininos e uma influência do dance, com dinâmica intensa, mas mantém a personalidade do artista holandês.

Chegando ao fim, Rose entrega duas faixas magistrais, não deixando aquele clima chato, pelo contrário, deixando um gosto de ‘quero mais’, mesmo depois de 17 composições. “Dream Forever” é bela e obscura, encantando por esse equilíbrio que resume um pouco do disco. Já “Forever” é uma instrumental que fecha o disco de forma eufórica e original.

Não é à toa que Rose Ringed tocou em eventos como Tomorrowland, Loveland, Val de Bagnes (Verbier), Lief Festival (Holanda) e seu próximo showcase HRMNY no Het Sieraad, no ADE, entre outros, além de programas televisivos e de rádio!

https://open.spotify.com/artist/1KML3dPprByep3tRnYSJDj?si=RLNFzJJGQiezeqyKv3HF2A

https://soundcloud.com/rose-ringed

https://www.instagram.com/roseringed

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *