Remit lança disco de estreia e acerta em cheio o alvo!

“Naarm” (ou “Narrm”) é o nome tradicional na língua Woiwurrung, falada pelos Wurundjeri, para a área onde hoje se encontra a cidade de Melbourne, na Austrália. É um termo que significa “lugar” e reflete a importância histórica e cultural da região para os povos aborígenes da Nação Kulin. 

O termo é cada vez mais usado em conjunto com “Melbourne” ou como um termo alternativo, especialmente em contextos culturais e acadêmicos, para reconhecer o legado aborígene da cidade. O Remit, trio australiano de rock alternativo, faz exatamente isso, e já ganha pontos por essa preocupação e o resgate histórico que pratica.

Talvez essa seja uma das respostas que o disco de estreia, que eles lançaram recentemente, dê, já que seu título chega com o sugestivo nome de ‘Questions Unanswered’ (‘perguntas sem respostas’, em uma tradução livre). Mesmo que feita sem querer já é algo que desperta o conhecimento no ouvinte.

Mas, em termos líricos, o disco não segue essa premissa exatamente. Liricamente o álbum se move em três direções distintas: uma luta apoética com o coração partido; um uivo existencial para um mundo sem sentido; e uma raiva apolítica diante de uma mudança aparentemente impossível. Todas cheias de reflexões e questionamentos.

Musicalmente a banda também tem a resposta na ponta da língua. Eles têm como grande mote o rock alternativo, do qual não fecham o leque e flertam com diversos outros estilos. A mescla inicial traz elementos do post-punk, punk e garage, sendo que os flertes trazem elementos do krautrock e doses homeopáticas de metal.

Escrito nas profundezas do infame e misterioso “bunker de concreto” subterrâneo da banda — um espaço úmido e mal iluminado mais parecido com um abrigo pós-apocalíptico, “Questions Unanswered” foi gravado no Lily Street Studios em Coburgo, coproduzido e mixado por Simon Maisch, além de masterizado pelo renomado engenheiro Don Bartley.

O disco traz timbres instigantes, orgânicos, que deixa tudo visceral, fugindo um pouco das modernices que assolam o cenário atual. Com timbres bem escolhidos, a sonoridade capturada no lançamento deixa o som da banda mais honesto, além de casar perfeitamente com a proposta da banda, deixando tudo natural.

O equilíbrio do trabalho se dá também no fato de contar com 8 músicas distribuídas em pouco mais de 40 minutos, onde eles exploram em tempo médio a técnica diferenciada, mas que sempre joga em prol do conjunto-da-obra. Isso gera também um tracklist equilibrado onde, em momento algum, a peteca cai.

O disco começa com a magistral “Are You Compliant?”, uma faixa que traz uma base longa e moderna de guitarra, com um baixo intimista e vocais introspectivos, que já começa com questionamentos. De andamento semi cadenciado, a música prima por progredir se mantendo tensa, como se obrigasse (no bom sentido) o ouvinte a cair de vez no disco. Um leve toque de Bowie tempera tudo.

Já “Debunker” chega toda intrínseca e excêntrica, com as guitarras influenciadas por Tom Morello (Rage Agains The Machine. Audioslave, etc) com seus ruídos característicos. Sem dar muita corda para a melodia e alternando andamentos, a faixa prima pela sua essência original.

“Hills Are Shaking” chega com um clima de horror punk inspirado pelo gothic, assim como Glenn Danzig fez por muito tempo. Tudo também trazendo contextos mais introspectivos, aqui com destaque para o baixo martelado, que acompanha a bateria cadenciada.

“Good Friends” incorpora o post-punk em seus momentos mais másculos, com guitarras que ecoam, baixo marcante de bateria na levada branda, enquanto o trabalho vocal prima por linhas graves, trazendo uma mescla de Bowie com Morrissey (The Smiths), o que praticamente faz com que soe acima da média. A música tem um dos solos de guitarras mais viajantes do álbum.

Entrando na segunda metade, o que seria a abertura do lado B caso o trabalho fosse lançado em LP, “Take This Pain Away” é uma das faixas mais emblemáticas, com seu andamento lento e quebrado, onde a bateria se destaca com mudanças e viradas magistrais, além das linhas dramáticas do vocal. Uma das faixas mais intrigantes do disco, sem dúvidas.

“My Transformation” no entanto é uma faixa mais dinâmica (para os padrões do disco) e traz o vocalista cantando um pouco mais alto. Tudo em meio a guitarra reverberada e uma cozinha um pouco mais estridente, enquanto “We Are The Wanderers” é suja, de melodia sombria e a mais punk do disco, contando com elementos do garage rock, que colabora ainda mais para esse ar empoeirado da faixa.

Quem fecha o álbum é “Posthuman”, um dos singles que o antecederam, e serve bem como um resumo potente do álbum, trazendo claras referências de Joy Division em seus momentos mais insanos.

Por fim, ‘Questions Unanswered’, contrariando seu título, nos dá todas as respostas no que concerne ao som do Remit, que é uma banda de forte personalidade, sabe onde pisa e acerta em cheio com sua estreia. Que não parem por aí!

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