O que é apresentado já a partir de seus instantes iniciais é um cenário regido por uma maturidade sonora notável. Unindo elementos que representam muito bem os seus próprios universos, a faixa mostra um equilíbrio bem desenvolvido entre as esferas da melodia, da harmonia e do ritmo. Proporcionando o contato direto entre uma guitarra de riff azedo, um teclado de notas adocicadamente ácidas e elementos percussivos como o toque opaco do bongô e o tilintar do pandeiro, os quais inserem os primeiros sinais de sensualidade, a canção já ilustra a sua imersão no campo do folk. Com direito à textura do shaker introduzindo uma superfície levemente áspera, Cowboy Armageddon funciona como um prelúdio instrumental bastante expressivo em relação ao universo da música country.
A maneira com que a guitarra puxa a introdução oferece, curiosamente, uma movimentação que muito lembra aquela assumida por Dan Auerbach no amanhecer de Lonely Boy, single creditado ao The Black Keys. Felizmente, assim que a bateria e a segunda guitarra entram em cena, a presente composição adquire contornos mais autênticos ao proporcionar uma espécie de explosão acústica. Sensual e com direito a ligeiros rompantes de um som adocicadamente ácido vindo do teclado em meio à reprodução da identidade do hammond, a faixa passa a caminhar diante de uma cadência mid-tempo pautada na métrica 4×4. Envolvendo o ouvinte em uma estrutura rítmico-melódica que se mostra linear conforme avança em meio ao seu próprio processo de desenvolvimento, a faixa-título traz um conteúdo lírico agraciado por uma forte crítica social que aborda a manutenção da própria identidade enquanto questiona a hipnose coletiva relacionada às normas moldadas com o intuito de manipular e padronizar aquilo que envolve o conceito de comunidade. É um ato de rebeldia ante o conservadorismo e à reciclagem da forma de propor os mesmos atos de domínio, apenas a partir de outra ótica.
Enquanto o escopo rítmico se anuncia perante uma superfície curiosamente digital que confere à introdução um andamento amaciado e levemente sensual, o sintetizador permite que a base sonora seja agraciada por uma brisa atmosférica que só não entorpece o ouvinte em razão da presença do baixo e de seu groove bojudo também nessa camada sônica. A partir do momento em que começa a se desenvolver, a canção combina a sensualidade da guitarra por meio dos seus riffs afinados e levemente aveludados com o teclado de notas brevemente amaciadas que fluem para um primeiro verso audaciosamente formado pelo refrão. Essa estratégia é, sem dúvida, um importante ponto alto da faixa, uma vez que ela se permite começar do topo e assumir um movimento decrescente. Diante dessas observações, Chatbot Don’t Like It convida o espectador a refletir sobre a presença cada vez maior do algoritmo na rotina, oferecendo uma curiosa visão perante a ideia de que o chatbot desaprova aqueles que questionam os seus termos de serviço, reforçando uma vez mais o preceito de hipnose coletiva e ausência de pensamento crítico por parte da sociedade atual.

Com um coro vocal afinado, sincronizado e de harmonia equilibrada, a canção evidencia uma breve imersão no campo da música gospel, mas com bastante cuidado. Conforme avança em meio à sua desenvoltura, baixo, bateria, teclado e guitarra se unem na ânsia de criar um ambiente melodioso e preciso, pulsante e atraente. Se felicitando da adoção do lap steel por parte da guitarra, o que cria um efeito uivante que delimita as fronteiras do folk em sua sonoridade, a composição permite a construção de um espectro rítmico-melódico amaciado, cativante e envolvente. Delicada em relação à sua natureza sincopada, Save Ourselves, ao questionar o crescimento do egoísmo e do personalismo, explora a ideia da ação e reação e a responsabilidade da própria sociedade perante os seus atos. Ainda assim, o núcleo do enredo é a busca por um salvador que vai colocar a população de volta nos trilhos da evolução.
A sensualidade surge mais bem trabalhada de forma a trazer um curioso contorno libidinoso, mas sem apelação. Tendo a guitarra como protagonista desse processo, a canção também combina os toques ácidos do teclado com a opacidade dos bongôs como forma de ampliar as texturas de seu som. Leve e amaciada, a composição, conforme avança em meio ao seu desenvolvimento, transpira contornos marcantes de um blues rock de nuances progressivas. Sincopada em relação ao seu aspecto rítmico, a faixa ainda se beneficia da superfície áspera e levemente trepidante do vibraslap como forma de expandir seu próprio aspecto sensorial. Diante desses conceitos, Not What They Seem traz um lirismo embasado na passagem do tempo. Abordando a transformação do pensamento humano saindo de filosofias socráticas e atingindo a modernidade, a faixa pensa como seriam os pensadores do passado em um tempo em que a informação transforma a definição de tudo aquilo que era intocável, ordinário. Certo.
A ideia de Problematic não é despejar, incentivar e espalhar o medo e o desespero em seus ouvintes e em todos aqueles que, de alguma forma, acessarem os seus conceitos. Porém, é inegável a percepção de que o álbum se vale essencialmente de uma postura crítica, ácida, incansável e questionadora acerca da modernidade. E no que tange ao atual, a tecnologia, a informação e os algoritmos são o centro de uma série de visões reflexivas desses elementos na sociedade.
A partir desse ponto, é importante destacar que o disco não é um material pacifista, que busca entregar apenas o positivo acerca dos cenários que adornam as comunidades globais. Aqui existe melancolia, existe desesperança, existe desespero e existe a busca pelo despertar do senso crítico. Sem medo de represálias, o Motihari Brigade entrega seus pontos de vista em seus contornos crus e puros, não se importando com as críticas alheias ou com a possível acidez com que eles sejam recebidos. A honestidade acima de tudo.
Muito bem explorada especialmente no decorrer das cinco primeiras faixas do álbum, essa postura também é igualmente vista em Headless Of The Storm, título que, além de transformar o groove do baixo em uma textura eletrônica, traz um lirismo de cadência sincopada que é completamente construído acerca de infindáveis questionamentos em relação ao ponto em que a sociedade se encontra. Com ela também na lista, Problematic escancara o fato de que, aqui, o Motihari Brigade disseca a sua própria marca de crime de pensamento rock n’ roll.
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