É sempre interessante receber um trabalho do qual o artista está voltando ao cenário. Os motivos são muitos, mas quando nos deparamos com quem não desiste de uma arte tão encantadora, mas com um cenário tão disputado e ingrato como o da música, acaba se tornando revigorante para nós que a amamos.
E isso fica ainda mais interessante quando percebemos que o artista não perdeu seu tino e ainda se manteve antenado no cenário, mantendo suas origens, porém passando longe de soar datado. Temos em mãos um destes casos e ainda culminando em um disco completo, o que dá mais prazer.
Depois de liderar a banda britânica GIMIK, que alcançou o topo das paradas, PJ Abrol passou duas décadas no Maine, EUA, antes de retornar à Irlanda para finalmente registrar a música que vinha produzindo. Embora a paisagem acidentada do nordeste americano tenha se tornado seu lar, suas raízes musicais permaneceram firmemente plantadas no power-pop e na crueza alternativa dos anos 90.
Um retorno recente ao Condado de Down, na Irlanda do Norte, para apoiar sua família, tornou-se o catalisador para uma imersão intensiva de sete meses em estúdio. O resultado é seu mais novo disco, “The Good Static”, que vem sob sua alcunha e entrega praticamente tudo que ele moldou ‘solamente’.
O resultado é um “segundo ato” que une dois continentes e duas décadas. PJ primou por um trabalho focado em estúdio, o que lhe deu muitas possibilidades, mas tendo o rock alternativo como mote, sem fechar, em nenhum momento seu leque.
Logo, encontraremos no disco uma diversidade, mas que não perde a identidade, mantendo as características de PJ intactas. A diversidade ajuda na dinâmica do disco, deixando-o ainda mais fácil de ser ouvido, além de não cair na mesmice e soar maçante, como poderia ser caso ele se apresentasse engessado.
O disco abre com uma referência interessante ao pop punk, já que a batida inicial de “Waking Up” o irá levar aos anos 90 quando o Green Day não tinha problemas mentais. Mas, a personalidade de PJ aparece logo com os sintetizadores bem inseridos e seus vocais mais sisudos, soando bem característico.
A segunda faixa é o single prévio “Airspace”. Quase que autobiográfica dos últimos anos, a faixa explora a distância emocional entre a vida que ele deixou para trás e o lar que reconquistou. Com teores de ‘power ballad’, a música entrega guitarras densas e um refrão que vai te pegar de surpresa.
“Shine”, que traz guitarras limpas se entrelaçando a mais sujas, ganha uma melodia introspectiva e prima por trazer a primeira incursão pop, mas, como dito, mantendo a essência de PJ e emendando mais um ótimo refrão. Ela é precedida por “Edit In Real Life”, que traz um belíssimo piano, fundo psicodélico e o músico cantando inspirado nos Beatles. Detalhe para o baixo post-punk!
Se já estávamos a caminho dos anos 90, “Never Burn Out Kid” acelerou o processo, com tudo que o rock alternativo e o pop punk nos ofereceu naquele período. E dá-lhe refrão pegajoso (no bom sentido).
Enquanto isso, a aguda e estridente “Starfall” chega um pouco mais perto dos tempos atuais, ganhando leves contextos indie, provando o quanto PJ ficou antenado no cenário, além de mostrar o quando ele soube adaptar a faixa ao seu estilo. E quem imaginava que ele não entenderia de sintetizadores, basta ouvir “The Reset Nod”, um electrorock empolgante e muito bem estruturado.
E, mesclando um violão orgânico com sintetizadores psicodélicos, “Unadulterated Love Song” chega mandando a vez, soando como uma balada pop rock alternativa cativante. Enquanto isso “Fight Like You Mean It” mostra um flerte com o ska, mas nada que coloque o som de PJ neste nicho, apenas um ritmo mantendo a essência rock que ele sempre primou.
Já em “Broken Pirouette”, do qual PJ retorna ao power-pop categórico, ele entrega mais uma faixa com densidade, melodia cativante e um refrão que emociona, entrando na trinca final com primazia. Com “Masking Magnificent”, ele mostra que o groove está em dia, mostrando uma veia do pop rock noventista muito bem representada.
Por fim, fechando o disco, PJ Abrol chega com uma faixa potente e marcante chamada “Star”. Com a melodia de um hino e um instrumental carregado na guitarra, a música traz o baixo preenchendo as lacunas, além de uma bateria na medida, com a cadência em dia. De teor emotivo, a faixa encanta com aquilo que o artista mais soube trabalhar no disco, os refrãos. Não poderia ser diferente!
Por fim, além de marcar um retorno, “The Good Static” é um disco que soa, mesmo que sem querer, como um desabafo de coisas boas, mostrando uma personalidade versátil e segura de alguém que entende o cenário a que pertence, mas sem se prender ou depender dele. Que PJ Abrol continue firme, pois, quem ama boa música agradece.




