É interessante perceber as propostas sensoriais distribuídas por meio de poucos e delicados sons produzidos pelo piano. Fazendo o ouvinte mergulhar em um estado introspectivo que, muito além de entorpecente, se vale pelo seu caráter dramático, a faixa vai caminhando por um terreno de natureza melancólica capaz de exortar a solidão em sua máxima essência. Não é difícil, a partir daí, que o espectador se sinta incomodado com certas vivências sugeridas com o andamento melódico. Em verdade, Whispertide se vende por uma fragilidade lacrimal que faz, da delicadeza, uma qualidade que representa uma espécie de sofrimento velado e vivido em meio à quietude do inconsciente. Uma faixa que, invariavelmente, permite que a audiência se emocione sem nem mesmo precisar entender e decifrar as origens desse sentimentalismo que chega a ser até mesmo pungente.
O sintetizador é o responsável por criar uma sonoridade sintética que preenche o despertar da faixa em um súbito de crescente. Depois que ele se encerra, uma paisagem nublada se firma diante dos olhos do espectador. Ainda assim, ela se dissipa rapidamente e permite a elucidação de um ambiente repleto de beleza. Uma beleza em que a introspecção tangencia o utópico e o maravilhoso. Diante da intersecção entre tonalidades ondulantes graves com outras agudas de nuances tilintantes, Abaluna é capaz de exprimir o máximo de bem-estar no que tange a sensorialidade do aconchego e do conforto. Inclusive, não é de se espantar que a faixa também permita uma vivência de proteção intensa, tornando a sua experiência sonora algo inesquecível.
A dramaticidade entra com tudo diante da introdução proposta diante desse novo cenário. Intensa, de certa forma, ela imprime a união de melancolia e pungência em uma receita sensorial equilibrada no que tange a experimentação de um sofrimento tão lancinante que chega a ser indolor. Destacando singelas influências de Beethoven em sua construção, a faixa-título traz uma narrativa melódica que, de uma maneira muito interessante, consegue trazer uma espécie de romantismo dramaticamente teatral, destacando desde a paixão avassaladora do início do romance com as tramas vivenciadas diante de seu amadurecimento.
Ela não é apenas utópica. Muito menos uma canção meramente onírica. Através de suas notas agudas ecoantes, é como se a faixa conseguisse realizar uma atividade regada a hipnotismo, fazendo com que o ouvinte se perceba adentrando em um mundo imagético lexicalmente maravilhoso e fantástico. Exortando uma delicadeza a um grau até então não vivenciados em Phraxia, a faixa traz as lágrimas como resposta a uma beleza sonora inimaginável. Diante de uma delicadeza tão intensa que chega a ser palpável, Aroha permite a perfeita reenergização do indivíduo. A equalização sensorial do ouvinte. É como se o contato com uma natureza virgem, regida por uma pureza expressiva, fosse capaz de extirpar todo o mau e toda a desarmonia existente no íntimo das pessoas que se permitem se aventurar pela sua audição, uma tarefa que, apesar de parecer simples, requer atenção e liberdade para se deixar sentir.
Seu minimalismo sonoro propõe uma diferente proposta de introspecção. A cada nota, uma pausa é colocada em cena. Esses espaços, muito mais do que incitar o intimismo, causam um movimento dramatúrgico que beira a reflexão. Com pouco, é interessante de se perceber que Deepward Glow propõe o mesmo grau de serenidade de uma brisa de verão ou, ainda, a mesma leveza do movimento das ondas do mar em um entardecer primaveril. Aqui, portanto, a plenitude é algo intrínseco à vivência sensorial em que o espectador é cuidadosamente convidado a experimentar.

Depois da influência beethoniana observada na faixa-título, Mick Pike surpreende por trazer, de forma explícita, essa pontuação. Deixando de ser uma mera ideia interpretativa, ela se torna um fato inquestionável. Afinal, em Für Beethoven, Pike apresenta uma releitura da clássica e atemporal Für Elise de autoria do compositor alemão. Brincando com a mudança da cadência rítmica, oferecendo, assim, momentos mais rápidos e outros mais lentos, músico inglês dá a essa obra-prima notas extras de dulçor a ponto de torná-la mais delicada, mais fresca e mais macia. Ao inserir novos versos, ocorre também a diminuição da densidade melancólica da original e a aquisição de uma utópica leveza que, ainda, ousa se aventurar por lapsos de sensualidade no que tange a experimentação de uma nova métrica de fluidez.
É inquestionável e incontestável. Mesmo que o ouvinte lute, ele não consegue se livrar do tamanho senso de conforto proposto pela canção. Com aromas doces e uma vivência sensorial nostálgica, a faixa não apenas explora o onírico. Ela explora o veludo. Explora a introspecção. Explora o senso de proteção e ternura que vem junto com aquele aconchegante e macio processo do adormecer. Vangise (Water Lullaby) é, simplesmente, uma obra que exclui todo o peso da rotina e as preocupações mundanas.
Phraxia é um álbum simplesmente encantador. São poucos aqueles que ousam compor um material inteiramente instrumental com poucos elementos. Aqui, Nick Pike dá ao piano a função de protagonista absoluto. É ele que molda a melodia, a harmônia e o ritmo. É ele que representa as emoções por meio de lirismos mudos na sua forma léxica, mas alto no que se refere ao canto do som.
Delicadeza, maciez. Nostalgia e melancolia. Densidade e leveza. Com o álbum, Pike é capaz de oferecer não apenas um processo de reequilíbrio energético, mas, principalmente, um convite generoso em meio à utopia do onírico. Afinal, no decorrer do álbum a audiência vive momentos de uma beleza inexplicável que faz nascer lágrimas de origens conscientes enigmáticas.
É aqui que, inclusive, existe até mesmo uma menção honrosa a um compositor que, certamente, está presente no DNA sonoro do pianista inglês. Beethoven, além de ser perceptível em determinadas sonoridades do álbum, é presenteado pela releitura de uma clássica composição de sua autoria.
Com um total de 10 faixas, a track list de Phraxia dá destaque às suas primeiras sete faixas pela profundidade de suas vivências cinemáticas. Mesmo assim, é um fato que o álbum é, por inteiro, um espetáculo cinemático de sentimentos e cenários que se completam pela musicalidade sensível de Nick Pike.
Mais informações:
Spotify: https://open.spotify.com/intl-fr/artist/6FGaEN1KQ3UpX1OJqtyeHF
Site Oficial: https://www.nickpikemusic.com
Bandcamp: https://nickpikemusic.bandcamp.com/
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