Ouça o exato novo álbum ao vivo de UDEiGWE

UDEiGWE (pronuncia-se oo-DEE-gweh) é o nome artístico de Lawrence Udeigwe, artista nascido na Nigéria e radicado em Nova York, nos Estados Unidos que, em seu trabalho, funde jazz moderno, soul e ritmos da África Ocidental. Mas, antes de falar deste mais novo disco do artista, precisamos destacar alguns pontos em comum.

Discos ao vivo muitas vezes são gravados em diversos shows e junta-se as partes destes trabalhos em uma ‘bolacha’ apenas. Com isso, há um advento, comumente chamado de ‘overdubs’, na maior parte para corrigir erros grosseiros ou, em alguns casos, pra maquiar tudo mesmo. Outro fator é o improviso que é captado durante o show e soa como um dos grandes diferenciais.

Outro ponto que não poderia passar em branco. Em meio a tanta coisa artificial, inclusive fabricada por inteligência artificial, ouvir um disco ao vivo com esses requintes é um verdadeiro deleite para os amantes da boa música. Logo, fazer um disco nestes moldes atualmente é algo revolucionário.

“Live in Williamsburg”, novo disco de UDEiGWE, foi gravado em março do ano passado no Williamsburg Music Center, no Brooklyn. É uma apresentação única, sem overdubs ou regravações. O repertório revisita músicas antigas, além de algumas covers, apresentadas em um formato acústico e ao vivo.

Talvez, só de saber que a gravação conta com estes elementos, já é um alívio para quem não aguenta mais nenhum tipo de artificialidade. E, fica aqui o aviso, antes mesmo de destrincharmos as faixas. Estamos diante de um disco magistral, de músicas encantadoras e de uma banda que talento inegável.

Aliás, enquanto Lawrence Udeigwe toma conta do piano e do vocal, o baixo fica por conta de Rade Bema, Joshua Green comanda a bateria e Stephan Clement o trompete, provando que para um grande show o que se precisa é o necessário. A gravação ficou a cargo de Brandon Vaden e Matthew Zheng, enquanto a mixagem e masterização coube a Dave Darlington.

Produção de um modo geral que traz um som nítido, capta a coesão da banda, que toca com perfeição no cerne da música, onde os timbres muito bem escolhidos colaboram e muito com a execução. O resultado é um show de pouco mais de uma hora e 10 músicas.

Claro, como se trata de um trabalho que envolve jazz, as ‘jams’ no meio das canções e fazem presentes e isso soa muito satisfatório, afinal de contas, qualquer fã do estilo prima por tal abordagem, o que já acontece na magistral primeira faixa “Reflections”. A música praticamente começa como uma ‘jam’, com UDEiGWE já discursando e destilando este hit onde ele mescla jazz, pop e afromusic. O refrão é simplesmente demais, assim como a levada dançante.

Não dá muito tempo e logo entra a bem inspirada pelo afromusic “Mr. Sabi”, que conta com uma base inspirada no soul, mas traz um ritmo africano encantador, além de uma gana interessante na interpretação vocal do artista. Enquanto isso “What’s Going On”, cover de Marvin Gaye, chega com um teor e mais cara de balada, entonando mais um refrão que encanta, além de um solo ‘plot twist’ de trompete. Trompete aliás que é um show à parte, aparecendo de forma quase protagonista nas faixas.

Depois de explicar um pouco sobre a concepção e tema da música, coisa que UDEiGWE faz bem entre as canções, ele chega na suave e vibrante “Falling”, colocando todo o sentimento à tona.

Para encerrar a primeira parte do disco, “Footprints” de Wayne Shorter é entonada com um trabalho primordial do trompete, sendo uma faixa instrumental do qual também se destaca as linhas magistrais de baixo. Com seus mais de 10 minutos, “Come My Way” é responsável por abrir a segunda metade do disco com um show de sensibilidade e transitando por diversos estilos.

Com um ritmo que nos lembra a bossa nova, “Easy Busy” é uma faixa que encanta mostrando ainda mais versatilidade por parte da banda, que não deixa a peteca cair e ainda conta com um piano magistral. Mais introspectiva, “Wait” mantém essa chama acesa, deixando tudo mais intimista e trazendo uma veia progressiva que surpreende.

E, por falar em surpresa, é incrível encontrar uma música de Bob Marley no repertório e destilada da forma que é. “Wainting In Vain” é uma jam de mais de oito minutos onde UDEiGWE consegue inserir ela em seu contexto sem desrespeitar as características originais da faixa. O disco fecha de forma épica com “Do”, que é destilada em mais de 10 minutos sem a banda perder o controle ou deixar a peteca cair, consolidando ainda mais a qualidade do show.

E olha que interessante, além do artista magistral que é, Lawrence Udeigwe é matemático e professor na Universidade de Manhattan. Talvez isso explique a exatidão que sua música ressoa, afinal de contas, o disco beira à perfeição e se fosse perfeito, estragaria tudo.

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