O violão é o instrumento responsável por puxar a introdução da composição. Diante de uma movimentação melódica ondulante, o instrumento não é só capaz de oferecer ao ouvinte boas doses de movimento e fluidez, mas também – e especialmente – um caráter de contágio curiosamente associado a um toque de intimismo. Caminhando, de maneira bastante equilibrada, pela extração de sons agudos e graves a partir do reverberar das cordas do elemento sônico, a canção, de maneira graciosa, acaba conquistando para si uma fusão harmônico-melódica bastante envolvente. Serena e possuidora de uma silhueta associada ao folk, a composição, enquanto bebe de uma temperatura mais fria, se destaca pelo seu caráter acústico e adensado na significância léxica da palavra minimalismo. Eis então que, no instante em que ganha a participação do enredo lírico, a faixa é abraçada por um timbre masculino de identidade aguda e equilibradamente rasgada, o que acaba lhe conferindo uma textura mais ácida que permite uma ligeira quebra no torpor gentilmente fornecido até então. Entre questionamentos e nuances reflexivas que pairam pelo alicerce lírico-interpretativo assumido por Ryan Bristow, a faixa-título acaba escancarando a sua máxima natureza. Intensa, em certo aspecto, a música se mostra uma obra pautada na simetria construída entre voz e violão de forma a criar um ambiente intimista em que as emoções podem ser melhor exploradas, o que lhe dá até mesmo um caráter de honestidade cru que caminha pela complexidade das relações familiares e pelos desafios que vêm quando se busca viver em outro ambiente.
Bebendo da mesma fórmula da canção anterior, a presente composição se inicia de forma crua e agraciada pela desenvoltura única do violão. Sempre explorando a sonoridade capaz de se extrair das cordas de bordão, o instrumento faz com que o ambiente seja preenchido por um tom grave que não necessariamente seja acompanhado de sensos dramáticos, pungentes ou sofridos. Aqui, ele simplesmente se mostra responsável por fornecer densidade ao som que desenha os contornos melódicos da obra em andamento. Igualmente intimista e, da mesma forma, tão reflexiva quanto sua predecessora, é interessante perceber como a presente obra consegue oferecer um aroma generosamente mais robusto em suas nuances interioranas. Surpreendendo por apresentar experimentos vocais de Bristow, que aqui explora com mais afinco as suas próprias extensões, a faixa traz consigo um quê folk que rememora muito bem a estética sônica da trilha sonora do longa-metragem Na Natureza Selvagem, composta inteiramente por Eddie Vedder. Ao mesmo tempo, ela consegue se familiarizar com a estética de Absolution, single do The Pretty Reckless, provando a sua versatilidade sônico-idiomática. Diante disso, Another Road, adornada por uma linha lírica adornada por modulações vocais melismáticas que fornecem uma paridade estética em relação ao sistema maqam, traz consigo uma profundidade emocional marcante que, curiosamente, chega a beirar um aspecto resiliente.

Denotativamente delicada em meio à sua fórmula introspectiva, a melodia construída pelo violão deixa de trazer densidade ou peso. No lugar, uma leveza mansa e aromática perfuma o ambiente com um senso de tranquilidade envolvente e viciante. Fresca e capaz até mesmo de soar relaxante, a faixa parece, a partir de sua identidade sônica, explorar a significância da palavra solitude, detalhe que se percebe por entre as modulações vocais e pela natureza da sonoridade fornecida pelo violão. De estrutura mais linear em relação àquela observada nas composições anteriores, Reeling bebe de uma atmosfera curiosamente entorpecente que contamina facilmente o campo sensorial do ouvinte. Ainda assim, o que mais chama a atenção na música é o fato de ela ser estruturada com uso de efeitos como delay,reverb e glitch, os quais lhe conferem um senso de vertigem, contribuindo para o senso central de uma espécie de desorientação controlada.
O dulçor segue firme, assim como as nuances de gentileza. Contudo, a movimentação melódica oferecida pelo violão, muito além de se mostrar devidamente madura, explora um caráter intimista que muito se associa àquele explorado durante a execução da faixa-título. Ainda que os melismas efetuados por Bristow tenham lá as suas diferenças, eles não deixam de mostrar a influência de Vedder no estilo de canto do vocalista. Especialmente nos momentos de respiro, essa técnica por ele utilizada lembra muito aquela executada pelo cantor do Pearl Jam em Black, respectivo single do grupo. Em compensação, aqui não há o mesmo grau de pungência, dramaticidade ou mesmo melancolia exploradas na faixa da banda de Seattle, pois bebe-se de uma esfera fresca de inclinações reflexivo-resilientes que destaca as firmezas vocais e a intensidade consistente que Bristow emprega em seu exercício. Escorregando em contornos levemente dramáticos, Strength se mostra a faixa de lirismo mais sincero e profundo do EP.
Em North, o ouvinte simplesmente se depara com um trabalho completo. Da melodia ao lirismo e à curiosa percepção de uma ausência parcial e, por vezes, total de conotação rítmica, o material se baseia em uma estrutura profundamente minimalista capaz de criar ambientes emocionais profundos e marcantes. Tudo elaborado perante a simetria alcançada entre voz e violão.
Como se fosse um ciclo, o EP sai de uma ambientação fria e introspectiva percebida na faixa-título, passa pelo movimento e pela ideia de ruptura e desemboca em uma resolução pautada em reconstrução e força. Diante da métrica folk, a qual auxilia o ouvinte a perceber, nos tons usados por Bristow, a influência por ele sofrida de nomes como Eddie Vedder, Layne Staley e Chris Cornell, North fornece ao ouvinte uma trajetória emocional completa e cheia de sinceridades cruas.
Mais informações:
Spotify: https://open.spotify.com/intl-fr/artist/0ITCYX6xlZza7FlVUXn86F
Instagram: https://www.instagram.com/ryanbristow.music?igsh=MWszb3FvYXlldHQzNA==




