No Paradise | Malkotron anuncia álbum com paisagens atmosféricas

Já a partir da introdução de sua faixa de abertura, o álbum mostra uma atitude bastante ousada por parte de Malkotron. Afinal, não é apenas pelo fato de a obra demorar para trazer o primeiro sinal sonoro, mas especialmente em razão da utilização do silêncio também como uma espécie de sonoridade, além de uma forma de contemplar uma espécie de textura intangível. Conforme o relógio avança e a mudez continua seu reinado, o ouvinte chega a até ficar incômodo por estar em contato com o seu próprio inconsciente. Felizmente, no instante em que o torpor involuntário se anuncia no limite de seu poder dominador, Woeful Dusk vai introduzindo um som de natureza sintética de maneira gradativa. Trazendo consigo contornos atmosféricos pungentes e hipnóticos, a faixa parece oferecer a presença de sons ambientes ao passo que o teclado invade o contexto harmônico-melódico com pulsos duplos de identidade dramática. Evidenciando, a partir daí, contornos melancólicos e pegajosos, a faixa funde uma linearidade harmônica com uma conotação comportamental de contemplação e choro.

Duas coisas acontecem aqui a ponto de criar um distanciamento estético-estrutural marcante em relação àquele vivenciado na obra anterior. Primeiro é o fato de que o sintetizador se apresenta com mais destaque diante de sua sonoridade áspera e de contornos brevemente estridentes. Em segundo, vem a presença de uma linha lírica que permite o seu desenvolvimento sem demora durante os primeiros instantes introdutórios. A partir daí, o ouvinte consegue degustar os sinais de delicadeza, veludo e fragilidade no tom do vocalista, o que acaba, invariavelmente, contribuindo para a elevação de uma sensorialidade introspectiva. Enquanto o teclado acaba se combinando ao movimento sonoro do sintetizador perante a formulação de uma atmosfera de traços espaciais, a reflexão, misturada com pincelas de pesar, se combina com a aparição de uma guitarra de riff agradavelmente amaciado e bluesado. Ainda que harmonicamente linear, Sleep Is Free, com a sua sensualidade ambiente e entorpecente, se destaca pela construção de um enredo que traz o sono como uma espécie de ópio que afasta o indivíduo das memórias que podem lhe trazer algum sinal de sofrimento. 

Nascendo de maneira paulatina e cuidadosa a partir da adoção do efeito fade in, a canção evidencia o violão como o seu primeiro protagonista instrumental. Diante de uma melodia marcada pela maciez e pela fragilidade estética, a faixa cresce a ponto de denunciar silhuetas dramáticas marcantes disponíveis a partir da base sintética oferecida pelo teclado. Com as nuances sonoras melodramáticas que ganham um impulso notável em meio à interpretação lírica lamentosa assumida pelo vocalista diante da pronúncia de versos em falsete, a composição aumenta a sua complexidade estrutural com a entrada de uma bateria precisa e pulsante. Com a pressão ideal para fazer a paisagem soar forte e ao mesmo tempo minimamente sensual, a faixa fornece momentos de solo em que se destaca uma perfeita sintonia entre guitarra e sintetizador. Em meio aos seus mais de 14 minutos de execução, Lost And Found ainda é consagrada por recortes em que se aventura pelo psicodélico e pelo atmosférico como embasamento para um enredo verbal que reflete a desvalorização da vida e o enfraquecimento do senso de humanidade em razão da ganância e da discórdia generalizada.

A guitarra e o teclado se fundem de uma maneira tão uníssona que quase faz com que o ouvinte entenda ser a sonoridade em vigor natural de apenas um instrumento. Semeando a introspecção em conluio com a melancolia, a faixa deixa escapar curiosos contornos contemplativos que não se veem livres de um denso pesar. Introspectiva e com um corpo harmônico-melódico emotivo, a faixa não consegue esconder um fio de lamento existente no tom e na forma como o vocalista vive cada uma das palavras que formam o contexto lírico. Trazendo curiosas brisas de semelhança harmônica com aquela construída pelo Skank em Dois Rios, seu respectivo single, Dusty Beams Of Light traz o duelo entre os estímulos da vida e a introspecção sedutora que leva ao mundo das sombras.

É interessante como a presente canção procura oferecer a fusão de uma sonoridade ambiente, como o vaivém das ondas do mar e o canto dos pássaros, com uma ondulação hipnótica proveniente da guitarra e seu veludo brevemente distorcido. Na presença de uma linha lírica vivida de forma suavemente intimista, a canção começa a ser resdpaldada por sinais de drama a partir dos pulsos duplos e cuidadosamente adocicados fornecidos pelo teclado. One Bad Day, engolida em traços atmosféricos entorpecentes, convida o espectador a mergulhar na perfeita representação verborrágica-melodiosa de como é um dia ruim. Um momento da rotina que evidencia certo cansaço na vida em razão de sua mesmice e de sua previsibilidade repetitiva. Na forma da segunda maior canção do álbum com uma duração que supera os 11 minutos, a faixa combina o torpor de trechos vocálicos guturais com uma introspecção indubitavelmente dramática.

O que No Paradise apresenta ao ouvinte é uma coleção de composições que se vale pela exploração de texturas e por sonoridades capazes de promoverem desde a introspecção até a mais incômoda dramaticidade. Melodioso e cheio de tracejados atmosféricos, ele ainda se consagra por obter momentos em que o esotérico tenta trazer um pouco de leveza verdadeira.

Ainda assim, a natureza do material é a reflexão em sua forma pura. Afinal, perante as suas oito composições verbais, o disco apresenta uma série de conteúdos que faz o ouvinte pensar sobre a vida, sobre a culpa e sobre o amor. Entre o caos e o torpor, as experiências dispostas no decorrer do material fazem com que a delicadeza nem sempre seja algo propriamente agradável. Afinal, o contexto transforma a sua natureza superficial.

Cru, mas sem esconder a sua identidade progressiva, No Paradise, além dos seus cinco primeiros títulos, que evidenciam com mais afinco o que até aqui foi pontuado, dá destaque a Another Day pela sua pungência pegajosa e hipnótica cheia de lamento desesperançoso. É assim que No Paradise fixa a sua base sônica como um rock progressivo com influência estético-estrutural das décadas de 70, 80 e 90.

Mais informações:

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