Um som ambiente, ainda indecifrável, enigmático, coloca o ouvinte em contato com uma atmosfera de caráter orgânico. Eis então que beeps são percebidos, indicando o funcionamento de uma máquina cardíaca que informa a presença de vida perante um corpo internado. Só isso já seria capaz de trazer o drama para a pauta da canção, mas há, ainda, o som drástico e denso do badalar de sinos de catedrais, o que confere uma ambiência ainda mais intensa e pungente. Quando o compasso rítmico passa a ser percebido fornecendo um andamento cadenciado, mas levemente truncado, o viés lírico tem seu nascimento declarado com a entrada de uma voz masculina de timbre agudo e delicado. Vindo de Lee Clark Allen, ele oferece vislumbres raps em meio às suas pronúncias sincopadas que dão, ao ouvinte, a chance de compreender a natureza de seu enredo lírico. Com auxílio da bateria a partir do refrão, momento em que se torna ainda mais profunda, Alive não apenas conta uma história realista de um indivíduo comum que luta para ganhar honestamente um dinheiro suficiente para viver uma vida sem luxo, mas suficiente. Um indivíduo de mente consciente, coração maduro e olhares de confiança que mostram uma trajetória desgastada.

É realmente de surpreender. Afinal, enquanto a faixa anterior colocou o ouvinte em contato com uma atmosfera profundamente melancólica, soturna e densa, o que acontece aqui é o oposto. A sonoridade, ainda mantendo sua veia sintética, fornece uma identidade mais brada, contagiante e, até, pode se dizer, lúdica. Através do piano, notas agudas e levemente graves, em união com um enredo rítmico ainda embrionário, faz com que o ecossistema transpire um caráter pegajosamente onírico, entorpecendo o espectador. Contudo, assim que o primeiro verso se inicia, a consciência recobra seu curso graças ao beat agora preciso e ao lirismo construído nos moldes do rap. Se destacando por uma união de palavras repetitiva, o conteúdo lírico que se apresenta mostra uma verdade que beira a súplica. Um desejo desesperado. Dramática em sua essência, mas não necessariamente pungente ou pegajosa, Little Fish Little Bread é onde Allen mostra a sua determinação em se manter fiel à sua própria essência, à sua dignidade, mesmo que isso signifique menos reconhecimento ou menos aquisição. Aqui, portanto, mora um recado crítico em relação à cobiça, à ganância. Consequentemente, eis, na canção, um estímulo para o contento com o próprio sonho. A satisfação em se ver pleno diante da própria idealização.

Não é apenas pela sonoridade diferenciada que a presente composição chama a atenção. Bom, na verdade, seu contexto rítmico-melódico traz o ouro da experiência sonoro-sensorial vivenciada pelo ouvinte. Afinal, enquanto o wurlitzer enriquece o ecossistema com seu sonar tipicamente adocicado e ácido, a bateria, surpreendentemente, surge construindo um enredo rítmico que, por alguns instantes, parece se inclinar para com a paisagem do forró. Sensual, pulsante e com ligeiras notas de frescor, ela tenta trazer requintes de suavidade à composição em desenvolvimento. Ainda que isso de fato aconteça, a bateria vem na ânsia de, simplesmente, oferecer uma noção de movimento mais fluida e, portanto, sem amarras rígidas. Esse detalhe ganha força principalmente pela experimentação que a faixa-título executa ao convidar o ouvinte a conviver com texturas suavemente psicodélicas em razão da melodia retirada do teclado. Ainda assim, o que acaba chamando a atenção do ouvinte em relação à presente composição é o fato de ela também ser capaz de transpirar aromas românticos em meio a uma textura frágil. Eis então que o ouvinte percebe que, como em uma sintonia espiritual, o som se funde à letra. Aqui, portanto, Clark se usa realmente de uma ambiência romanceada para se entregar a uma paixão em que pode ser ele mesmo. Uma relação em que pode dissecar a sua essência, mostrar a sua dor. O seu passado. As suas cicatrizes. O seu mundo.

Ainda que de melodia serena e, portanto, delicada, o compasso rítmico mostra inclinações para com uma alegria um tanto premeditada. Sensual, é verdade, a faixa mostra ao espectador uma curiosa imersão de Clark em relação ao universo do R&B. Mesmo que bastante sutil, esse detalhe é perceptível graças a algumas variações na forma como ele interpreta alguns versos líricos, denotando maciez e um compasso mais fluido ao ecossistema. Suspirante, a canção quase consegue esconder sua base harmônica. Diante do hammond, a composição tem, em si, um sonar ácido e levemente opaco moldando a base melódica ao mesmo tempo em que permite a identificação de vislumbres harmônicos. Esse detalhe mostra que a composição ousa experimentar nuances gospels no que tange a sua receita conjuntural, a tornando sonoramente tocante e penetrante. Frágil em sua máxima essência, é até curioso que existam brisas melancólicas pairando sobre seu céu, uma vez que Ebb & Flow traz consigo uma mistura inteligente de libido com incursões inerentes à ideia de fé e perseverança.

A beleza de um disco não reside, necessariamente, em sua paisagem sônica ou nas palavras que moldam seus diversos enredos líricos. Ela mora na combinação, na junção, na fusão desses elementos em meio à interpretação lírica. E a verdade é que My World Is Yours, muito além de ser um bom exemplo dessa constatação, torna a postura intimista em algo atraente e chamativo aos ouvidos e um alento à sensibilidade do espectador.

Caminhando por diversas texturas, mas ganhando destaque pela maciez, pelo veludo e pela sensualidade que irrompe diante de brisas frescas que trazem consigo noções de melancolia, o álbum ainda ousa trazer outras experiências sensoriais. Com direito a paisagens oníricas, mergulhos no torpor e ligeiras ascensões de vivacidade, o conteúdo leva o ouvinte a compreender, na pele, o que é romantismo e o que é fé.

O que mais se destaca, contudo, é a identidade honesta, sincera, crua e orgânica que preenche a postura de My World Is Yours. Cheio de confissões, de dissecações da própria essência do vocalista e de mergulhos às profundezas do mundo emocional, o álbum explora particularidades de Lee Clark Allen com a devida pungência e delicadeza. 

Mesmo que esses detalhes estejam mais destacados em meio à execução das três primeiras faixas de sua track list, o álbum, em meio ao seu total de 20 títulos, vai muito além do rap. Ele se funde ao R&B e ainda se aventura em brisas do forró. Ainda assim, nada supera o seu intimismo. Nada supera a sua verdade. A sua dramaticidade. Aqui reside a história de um homem real. Que vive uma vida real e não tem medo de evidenciar as suas vulnerabilidades.

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