Temos que ser honestos e realistas quanto ao cenário musical atual com a chegada da famigerada IA, também conhecida como Inteligência Artificial. Muitos a viram como ferramenta de aperfeiçoamento de seu som, enquanto outros a pegaram como ferramenta de composição e execução, ou seja, colocou em prática seu senso criativo através da tecnologia.
Ame ou odeie, este é o mundo real, e esse mundo gira. Porém, enquanto alguns artistas ludibriam o público compondo totalmente neste formato novo, outros o usa como complemento daquilo que oferecem, potencializando a qualidade de sua música. Neste último caso, é o que faz o projeto Music By Jeremy.
Porém, o artista não esconde nenhuma artimanha, o que deixa tudo mais honesto e claro. Inclusive ele mesmo o faz em sua apresentação. Estamos diante de um artista que soube aliar seu senso de composição e ainda se adaptar aos novos tempos, desenvolvendo isso nesta sua mais nova obra.
Jeremy, o cara por trás do projeto, é um cantor, compositor e multi-instrumentista de Banbury, Inglaterra, que estreia com um projeto que desafia os limites habituais de um primeiro lançamento. Inspirando-se em uma vida inteira de vivência musical — moldada pela honestidade confessional de John Lennon, pela arte narrativa de Bob Dylan e Randy Newman e pela reinvenção destemida de David Bowie —, Jeremy criou algo raro: uma obra madura e plenamente realizada, que não abre mão da ambição nem da verdade emocional.
Trabalhando de forma totalmente independente em um estúdio caseiro, ele mesmo toca todas as guitarras e o baixo ‘fretless’ (sem os trastes), utilizando ferramentas de IA generativa treinadas com sua própria voz para completar a banda que não pôde reunir pessoalmente. Aqui fica claro que há instrumentos orgânicos, mas complementos da IA, o que deixa tudo muito transparente.
O resultado não é um experimento técnico, mas um disco profundamente humano — que utiliza a tecnologia como uma extensão da intenção criativa, permitindo-lhe deixar de apenas “atuar” para ser verdadeiramente honesto. O que surge é uma voz curiosa, politicamente engajada, liricamente inteligente e sem medo de explorar territórios que a maioria dos compositores mantém ocultos.
Ah, o disco se chama “Scenes from a Well Worn Path – Side Two” e chega em um formato de EP. O novo trabalho segue a recepção extremamente positiva de “Side One”, lançado em agosto. O “Side Two” dá continuidade à jornada através da dor, do luto, da alegria e do medo, com o entusiasmo de quem vive uma vida plena.
São seis novas faixas onde Jeremy transita por estilos variados conseguindo manter uma característica própria, o que deixa claro que seu senso de composição é real. E isso é muito significativo, o que faz os poucos mais de 20 minutos do disco serem de fácil compreensão.
O disco começa com “Do Birds Sing the News”, uma faixa que é um dos carros-chefes do trabalho e encanta pela veia levemente inspirada na música latina. Aqui Jeremy deixa bem claro que o violão é um de seus principais fios condutores, transitando entre o clássico e o popular.
“So Cold” é uma composição que traz um trabalho orquestral de fundo maravilhoso, fazendo uma cama excelente para o violão que entoa um pop intimista e levemente introspectivo. Uma faixa que mantém a abrangência do projeto em dia e chama atenção pela sensibilidade.
Com um trabalho primordial no violão, onde mescla dedilhados com bases sólidas, “Moving On” mostra Jeremy dando uma dinâmica maior e mantendo o timbre vocal da faixa anterior, provando uma versatilidade incrível e uma sensibilidade em variar que somente músicos de alto gabarito possuem. Fãs do pop britânico irão se deleitar com essa.
Enquanto isso, “4 o’clcok Train” entrega um ritmo ainda mais dinâmico, com o violão tornando a trazer uma veia levemente latina (aqui mais homeopática) e Jeremy se entregando à bateria num ritmo digno do indie. Mais uma faixa que mantém os passos à frente do álbum. Detalhe para os teclados discretos, mas que fazem muita diferença.
Já em “No. 9”, Music By Jeremy se entrega de vez aos elementos elétricos, com uma guitarra limpa e uma cozinha com um groove levíssimo, mas que soa fundamental para fazer com que a faixa soe mais alternativa possível. Tudo com uma dinâmica e melodia incríveis.
Por fim, “Idonella Sakaiensis”, que fecha o disco e também é considerada pelo próprio Jeremy como uma de suas principais faixas, fecha o disco como um belíssimo folk moderno. O ouvinte mais atento irá notar que a faixa prima por trazer até mesmo um leve toque de bossa nova, o que mostra o quão requintada é.
Não tenha dúvidas que com “Scenes from a Well Worn Path – Side Two”, que acaba de ser lançado, Music By Jeremy quebra algumas barreiras e mostra que é possível fazer música honesta utilizando a IA. No mais, aperte o play e ouça sem moderação.




