É impossível não ver essa capa do novo EP do Mesmonized, “In The House”, e não nos lembrar da expressão ‘elefante na sala’, por mais que ela não tenha sido a inspiração da banda (mas, é provável que tenha sido). Afinal de contas, é exatamente um elefante na sala que temos na arte com as bandeiras de Israel e Estados Unidos estampadas em seu corpo.
Para quem não sabe, é uma famosa expressão metafórica (do inglês ‘elephant in the room’) usada para se referir a um problema, assunto delicado ou verdade evidente que todo mundo sabe que existe, mas que ninguém quer comentar ou discutir. E ela tem uma origem curiosa, surgiu na fábula “O Homem Curioso”, do escritor russo Ivan Krylov, publicada em 1814. A história fala sobre um homem que visita um museu e repara em todo o tipo de pequenas coisas, mas não consegue ver um enorme elefante que está bem no meio do quarto.
A expressão prima por se encaixar em diversos contextos triviais. No ambiente de trabalho, por exemplo, quando uma grande empresa está prestes a falir ou passar por demissões em massa, mas a diretoria finge que está tudo bem nas reuniões. Já em relacionamentos é quando um casal convive com uma traição não resolvida ou desgaste contínuo, mas evita tocar no assunto para não brigar. Na política/sociedade consiste na existência de desigualdade social extrema, corrupção ou problemas estruturais que são ignorados pelo governo ou pela mídia. Enfim, cabe em tudo.
Tanto que o projeto não nega os temas do trabalho. As letras abordam lutas diárias juntamente com eventos mundiais significativos, humanizando histórias complexas para alcançar os corações e mentes dos ouvintes com relevância contemporânea.
Indo ainda mais profundamente, as canções são sobre nossas lutas diárias e eventos mundiais, como o genocídio em curso na Palestina e a prisão ilegal do prisioneiro 804 de Imran Khan. O objetivo sempre foi humanizar a narrativa para que ela pudesse alcançar os corações e as mentes das pessoas. Enfim, a capa está muito bem clara e explicada, como suspeitamos desde o início e já ganha muitos pontos.
Mas, nada teria sentido se a música, que é o principal, não fosse de qualidade. E, a primeira coisa que temos que deixar bem clara aqui é que o Mesmonized não se prende em absolutamente em nada, o que fica bem claro nas cinco faixas do disco e seus quase 18 minutos.
Aliás, a característica do trabalho é não se caracterizar e, por mais que isso pareça absurdo, o projeto não cai em mesmices, soando versátil e conseguindo atingir diversos públicos. Até mesmo o que não são tão apegados à música irão achar uma coisa ou outra que poderá os agradar, vide o conceito todo que envolve “In The House”.
O disco abre com o pop moderno “New World – Original 2”, uma faixa que abre o leque tão quanto a identidade do próprio projeto. Nela, com um toque refinado, notamos elementos do indie folk, que se entrelaça a elementos eletrônicos, criando uma mescla bem interessante.
Enquanto isso, a faixa “The Protector” chega com uma batida eletrônica empolgante, trilhando caminhos que passam pelo EDM e com leves toques de synthpop, o que dá um leve toque nostálgico. Mas, estamos longe de uma faixa datada, que se encaixa mais num conceito atemporal do que qualquer outra coisa.
Mantendo ainda o teor eletrônico, mas de forma mais intimista e caindo no contexto do R&B. Com beats cativantes e consistentes, a faixa mergulha numa balada dramática onde as linhas vocais chamam atenção, assim como o fundo sombrio e o tom épico, sendo uma das faixas mais intensas do disco.
Logo chega “Deep Blue Sea/Mary”, um rock alternativo que nos remete diretamente aos anos 90. Com guitarras pesadas e melodias introspectivas, a música traz um refrão cativante, além de uma cozinha que prima pelo andamento preciso e linhas de baixo que pulsam na medida.
O fechamento do disco não poderia ser diferente, já que uma das faixas mais abrangentes e enérgicas teve essa tarefa. Trata-se de “Where were you?” um rock alternativo que não dá espaço para firulas, engata um ritmo inspirado pelo hip-hop e ainda tem uma abordagem sisuda muito bem desenvolvida. Nada de pieguismos, enfim.
Como um prenúncio de um álbum completo previsto para o outono de 2026, “In the Room” aborda os elefantes metafóricos que exigem atenção artística — aquelas preocupações urgentes que alimentam o processo criativo — enquanto promete futuras explorações de amor, desilusão amorosa e alegria em diversos gêneros musicais.
Sem dúvidas, se partirmos do pressuposto do disco, teremos um grande trabalho à frente. Logo, os fãs de alternative rock, pop rock, rap, hip-hop, R&B e música eletrônica, podem ficar a postos, pois vem coisa boa aí. Mas, fãs de música boa em geral sem dúvidas já tem um encontro garantido. Ouça no melhor volume.
https://open.spotify.com/artist/6Qm7DrIhcuepJfEkCj5Emc?si=iRszRlhURvaeVBCZkd8D1g




