Ao mesmo tempo em que muitas sonoridades moldadas à americana têm se expandido pelo mundo, o cenário norte-americano tem absorvido influências de outros países. Isso prova que a música não tem fronteira, o que faz a gente se apaixonar ainda mais por essa arte que, como diria o escritor e filósofo Victor Hugo, é o barulho que pensa.
E estamos falando isso porque temos em mãos uma banda vinda dos Estados Unidos que bebe bastante na fonte do rock inglês e seus derivados, além de dar seu próprio tempero e trazer um som que parece comum, mas é cheio de particularidades. E, claro, antes de destrincharmos as seis faixas deste magistral EP chamado “You’ll Talk About It!”, apresentemos um pouco dos caras!
O Lyons Lane foi fundado pelo compositor e vocalista Mark Leo, um autoproclamado artista de “canção e dança” (‘song & dance man’) que começou a compor e a tocar em bandas aos oito anos de idade.
Leo frequentemente se sentia um deslocado enquanto crescia, pois ouvia Little Richard enquanto seus colegas de classe ouviam Lil Yachty. Ele conheceu seu parceiro musical, Thomas “Tomcat” Thompson, no ensino médio, e os dois criaram um vínculo imediato graças ao amor compartilhado pelo rockabilly e pelo doo-wop.
No início, tocavam em bares simples, com apresentações de quatro horas e repertórios compostos principalmente por covers dos anos 1950. Mais tarde, a formação foi ampliada com a entrada de Darrian Loehne na guitarra, Matty Stevens no saxofone tenor e Shane Wheeler na bateria, conferindo ao Lyons Lane a sonoridade encorpada e marcada pelos metais que define a banda hoje.
O momento de grande destaque do Lyons Lane surgiu de uma fonte inesperada. Sua versão de “Love Potion No. 9” acumulou milhões de visualizações no Instagram e no Facebook, gerando reações muito distintas em dois públicos diferentes. Muitos espectadores do Instagram ouviam a música pela primeira vez e, ou se encantavam com o carisma da banda, ou a descartavam comentando que o som lembrava o Arctic Monkeys.
Desde então, a banda alcançou a marca de quase dois milhões de reproduções no Spotify, e esse sucesso culminou em um show com ingressos esgotados em sua cidade natal, Detroit, no histórico Magic Bag Theatre, em Ferndale — o mesmo local onde, anos antes, o White Stripes, ainda no início da carreira, celebrou o lançamento de seu álbum de estreia. Mais de 500 fãs lotaram a casa naquela noite.
Tudo que você pôde ler como influência nesses parágrafos, aparecem na sonoridade que eles apresentam em “You’ll Talk About It!” e mais um pouco. Afinal de contas, o Lyons Lane tem uma forte personalidade que os ajuda a criar uma identidade, fazendo muito bem à fórmula que eles apresentam.
O EP é de estreia, mas vale informar que eles vinham trabalham com singles anteriormente, o que não os coloca como uma banda ‘crua’. Por isso já chamam atenção na fantástica faixa de abertura “Don’t Shoot The Messenger”, onde eles não economizam no groove, transformando o indie e um rock funkeado de cair o queixo. Liricamente, a faixa apresenta aos ouvintes o estilo característico de contar histórias da banda por meio de uma narrativa bem-humorada sobre um homem que confessa a outro que sua namorada o traiu — justamente com o próprio portador da notícia.
Falando em bom-humor, “Tahitian Pearls” é uma faixa que conquista exatamente por ter uma energia positiva e uma levada empolgante. Aqui os metais tomam conta da parte vibrante, deixando a música bem agitada. O refrão é praticamente um sitcom musical e isso realmente chama atenção.
“Bitten” carrega um fundo mais sombrio do country e americana, mostrando que eles não deixam suas origens de lado. O trabalho remete levemente ao Muse, mas sem cair nos tons excessivamente modernos, pelo contrário, o que chama atenção aqui é realmente a organicidade e um órgão discreto, mas providencial.
Falando em órgão, o piano bem sacado de “A Stop at Willoughby”, um power-pop de refrão cheio de redenção, chama atenção. Mas, nessa altura do campeonato o que realmente deixa impressionado é como a banda entregou um disco onde não deixa a peteca cair de jeito nenhum!
“Emma’s Addiction” chega como se Beatles e Elvis se unissem, mantendo uma veia power-pop, mas ganhando contextos rockabilly e bubblegum, soando dançante, honrando o legado de Leo. Por fim, “Sugar & Spices” mantém a energia, mas abranda o ritmo e traz uma veia mais acústica, provando, aos 45 minutos do segundo tempo, que o Lyons Lane sabe ser versátil. Unindo arranjos de metais com o elétrico, entregam, talvez, a faixa mais sofisticada do álbum.
Por fim, constatamos que, além do talento e qualidade sonora, “You’ll Talk About It!” é um disco de energia intensa, a ponto de realmente ‘levantar um defunto’. O mais legal ainda é que eles trazem letras inteligentes, em sua maior parte sobre amor, perda, obsessão e ego, tudo isso abordado com uma mistura equilibrada de sagacidade e autenticidade.
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