La Lotería | Lefty Barnes lança álbum boom bap rap conceitual

É uma movimentação ondulante embebida em uma textura amaciada. Com os devidos contornos de uma sensualidade tímida, mas marcante, a canção exibe uma leveza provocante com direito a superfícies levemente ásperas introduzidas a partir do shaker. É então que uma voz feminina aguda se anuncia com uma estética que soa como se viesse de um autofalante recepcionando o ouvinte à La Lotería. Conforme ela evolui seus versos líricos puramente narrativos, Intro tem a sua sonoridade desenvovida a tal ponto que denuncia a presença do saxofone no que tange ao escopo harmônico. Com ele assumindo certo grau de protagonismo ante a base percussiva de nuances aveludadas, a faixa acaba denunciando os seus próprios contornos jazz-hop de forma a trazer uma atmosfera retro requintada e charmosa. Em menos de um minuto de duração, a composição se apresenta como um prelúdio envolvente e instigante que desperta a curiosidade do espectador pelo que o álbum pode oferecer.

Mesmo que a maciez marolenta seja a textura que salte à percepção sensorial do ouvinte, a presença do chiado não se faz de despercebida. Com seus pipocares ásperos, ele indica uma proposital ausência de lapidação sonora, o que significa a aquisição de crueza estética com o lo-fi permeando a paisagem sônica. E por falar nela, ainda que a guitarra se apresente perante uma melodia mansa e repetitiva junto à secura do chimbal indicando o compasso temporal, é o toque tilintante, aparentemente vindo do xilofone, que induz aos sensos de hipnotismo e torpor. Introspectiva mesmo diante da entrada da bateria e de sua estética acústica, El Diablito sai da base rítmica do blues sugerida até aqui e passa a desfilar um compasso mais fluido e sequencial para entrar em uma maior sintonia com os versos verbais pautados na esfera sincopada do rap. A partir daí, o ouvinte se depara com uma movimentação mais atraente e contagiante que tem, no próprio conteúdo verbal, um artifício que prende, com mais eficácia, a atenção do ouvinte.

Entre o burburinho de vozes encontradas, se apresenta o som de indícios da abertura de latas de cerveja. É nesse meandro que a base melódica se mostra ocupado por uma guitarra de riff repetitivo, macio e denotativamente embriagante que rouba a lucidez do ouvinte até a chegada do groove bojudo do baixo. Entregando um montante de densidade ideal para que a sonoridade não seja de postura vulnerável, o instrumento é aquele fator que carrega a identidade rappeada da composição antes mesmo da chegada do lirismo. Apresentando terminações rimadas como forma de garantir maior atração em relação ao espectador, El Borracho se destaca, também, pela presença de backing vocals masculinos que intensificam a sensorialidade do torpor. Estético-estruturalmente linear também no que tange aos âmbitos do ritmo e da melodia, a faixa chama a atenção por trazer os dramas da rotina de forma escancarada e, portanto, sem filtros.

É interessante observar que a presença do trompete, no caso referente à presente introdução, não justifica e não se associa a algo vivaz e aberto como a sonoridade padrão do instrumento sugere. Aqui, perante um compasso rítmico levemente trotante e em simetria com o groove grave do baixo, o instrumento sugere uma melancolia nítida envolta nas diretrizes estéticas do mariachi, surtindo e exaltando um bom grau de regionalismo. Introspectiva em sua máxima essência, El Soldado chama a atenção especialmente pelo tom usado pelo vocalista em seu processo de dar vida ao enredo lírico. Enfático, preciso, empoderado e autoconfiante, ele parece trazer consigo a intenção de reforçar a maturidade e a consciência do eu lírico de uma forma que, invariavelmente, deixa escapar resquícios de dramaturgia.

Trazendo o lo-fi com ainda mais evidência que em El Diablito em razão da proeminência com que os chiados dominam a esfera sonora, a presente canção ainda se pauta em trechos instrumentais de tomadas valsantes que evidenciam o dulçor daquilo que parece ser uma flauta, e o grave seco do baixo permeando a base melódica. Introspectiva, mas ao mesmo tempo generosamente hipnótica, está aqui uma obra que recicla aquela mesma voz feminina e aguda de Intro de forma a oferecer versos líricos puramente narrativos. Curta em duração, não passando sequer do um minuto e meio, Interlude se destaca por trazer consigo um curioso quê de lúdico em seu formato estético, transformando-se em um interlúdio entorpecente que chega a até mesmo beirar o onírico.

É chegado o momento em que o álbum oferece aquela canção definida por ser a mais macia, a mais embriagante e, portanto, a mais brisante de sua track list. Diante de uma melodia macia, de pulsos rítmicos firmes e versos líricos solfejantes em movimentação ondulante, a faixa chega a oferecer um lirismo que, invariavelmente, induz o ouvinte à reflexão. Entorpecente em sua máxima essência, La Luna se apresenta como uma faixa linear em relação ao escopo rítmico-melódico e traz consigo uma sonoridade ácida e ligeiramente tremulante, preenchendo a base harmônica de uma forma a sugerir ser do mellotron, elemento que insere incentivos, inclusive, psicodélicos.

O que o Lefty Barnes apresenta com La Lotería não pode ser pautado apenas como um escopo rítmico-melódico pautado na roupagem de um simples rap. Ainda que esse seja um gênero musical em notável proeminência diante da totalidade do material, ele divide um igual espaço com atmosferas inerentes ao boom bap, à psicodelia, ao lo-fi e ao jazz-hop.

De roupagem propositadamente crua, o disco se destaca pela construção de texturas que transitam livremente entre o macio e o ácido ao mesmo tempo em que assume posturas introspectivas. Nesse meandro, até mesmo a melancolia, a contemplação e a nostalgia possuem seus momentos de glória, ampliando a profundidade emocional de cada um dos 10 títulos que preenchem o material.

Com lirismos completamente entoados no idioma espanhol, o produto acaba apresentando um comportamento irreverente por parte de Lefty Barnes por defender as suas origens, algo observado também nas inserções delicadas do mariachi entre as sonoridades exploradas. É assim que La Lotería, em sua totalidade, se apresenta como um álbum conceitual que reimagina o adorado jogo de bingo mexicano pela ótica do rap.

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