Nem sempre um trabalho experimental tem a intenção de ser experimental. Explicando melhor, muitas vezes, unir experimentos e elementos cabe a intenção de gerar algo realmente prático e isso é muito comum na música. O resultado, nesses casos, geralmente são sonoridades não tão habituais, que acabam por entregar coisas bem particulares.
Temos aqui um caso. Trata-se da união de estilos, nem todos convencionais, mas com uma proposta de criar uma identidade própria, o que acaba acontecendo de forma natural. E nada, absolutamente nada soa forçado, muito pelo contrário, a coisa flui normalmente e acaba atingindo diversos nichos, o que já faz com que o artista ganhe pontos.
Estamos falando do K6R6NZ6N, que, curiosamente, não é uma banda nem uma persona. Nascido do colapso e colisão de múltiplos projetos em um único núcleo hostil, K6R6NZ6N opera na interseção de witch house, dark trap, dark electro, pós-punk, ritual eletrônico e presença espectral falada. O som é familiar o suficiente para te atrair e instável o bastante para te deixar desconfortável.
O projeto funde as estruturas esqueléticas da música dark com correntes eletrônicas subterrâneas, vozes lentas vindas de baixo da superfície e contrastes femininos marcantes que cortam a mixagem como um sinal de alerta. O que resta é apenas uma forma moderna e abrasiva que se recusa a se resolver. O que sobreviveu foi a intenção.
As influências não são referenciadas como homenagem, mas absorvidas como matéria-prima: eletrônica sombria, witch house, trap sombrio, techno, pós-punk, estética black metal, repetição eletrônica, contenção industrial e a ideia da “entidade limiar” — algo que existe entre as formas, nunca totalmente visível. Isso não é música, é uma interferência projetada para interromper em vez de acompanhar. Não para confortar. K6R6NZ6N.
Mas, o disco em questão, que na verdade chega em formato de EP, “War Against Reality”, vai muito além da proposta e isso acontece exatamente devido à naturalidade que as coisas fluem. Tudo em seis faixas e pouco mais de 24 minutos, o que parece objetivo, mas é suficiente para entregar um trabalho consistente e com muita personalidade.
Nele, iremos encontrar até mesmo elementos eletrônicos, do rock alternativo e também industrial, além de uma proposta bilíngue, onde os temas giram em torno desde as reflexões sombrias, passando por temas ocultos e questões intimistas, o que acaba casando perfeitamente com a sonoridade incomum, mas que acaba não sendo um bicho de sete cabeças, como pode-se impressionar com estas descrições.
“Hotten Hallucinations”, a faixa de abertura, traz um mistério que cai muito bem como trabalho introdutório. E tudo já demonstrando do que se trata, afinal de contas, a batida inspirada pelo hip-hop tem camadas de fundo sinistras, enquanto os vocais guturais inteligíveis dão às ‘boas-vindas’ para a apreciação do trabalho.
A segunda faixa, “Dust In The Shadows” é menos burocrática e, guardadas as devidas proporções, traz um teor mais acessível. A música flerta com o gótico e erudito, sem perder a essência industrial experimentada do trabalho, inclusive nas guitarras pesadas e sintetizadas, o que faz com que as características sejam mantidas. Outro ponto é a primeira aparição dos mencionados vocais femininos e o refrão forte.
“Sathan Trismegistus” chega cantada em espanhol banhada a um ritmo com inspiração direta do hip-hop, principalmente na batida. A música soa diferenciada, mas ao mesmo tempo ‘comum’, no que concerne à sua estrutura e melodia. Destaque para os vocais versáteis.
Mais dinâmica, “Demon Of Swords” se destaca pela sua pegada intensa e vocais maléficos, onde a batida se mantém no que foi proposto, enquanto as camadas de sintetizadores caminham por trilhos futuristas. Os graves são mantidos, dando a vibração típica e as guitarras aparecem crescendo em riffs metálicos.
E se a gente não achasse que seria possível observar um conceito pop, “Putrefacción” chega para provar que, mesmo em meio a um som maléfico e caótico, isso é possível. E tudo com um vocal feminino doce e intimista cantando em espanhol. Tudo provando a versatilidade do trabalho.
Fechando o disco, chega “Maldición”, que irá deixar os fãs do pagan metal surpreso, pois a música transita pelo estilo, inclusive abandonando as batidas programadas do hip-hop. Um leve toque sinfônico dá as caras e tudo sem perder os aspectos sintetizados, inclusive nos efeitos dos vocais femininos. Um fechamento em alta, mostrando que o trabalho não se prende em absolutamente nada.
Falando nisso, é exatamente essa brecha que “War Against Reality” proporciona, mas sem se perder dentro de sua própria proposta. O EP prima por ser versátil, mas não soando descaracterizado, o que faz do disco uma verdadeira e ótima façanha.
Não bastasse isso, ele mexe com diversos aspectos, o que o torna abrangente e pode fazer com que fãs de eletrônico, rock, metal e até mesmo hip-hop se identifiquem, além das pessoas de mente aberta e fãs da boa música. Ouça no melhor volume e seja feliz (ou não).
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https://soundcloud.com/adren6kr6m6
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