A maneira como a guitarra se movimenta durante os primeiros momentos introdutórios da canção sugere um ambiente intimista e regido por uma suave delicadeza. Diante de um frescor sereno proporcionado por uma identidade sonora ecoante, o instrumental minimalista que pauta a introdução da obra ainda incita o introspectivo, mas sem a adesão da pungência ou da melancolia. Ritmicamente precisa em meio à desenvoltura de uma bateria responsável por desenhar frases percussivas firmes, a canção acaba sendo agraciada por boas doses de densidade. Ainda que bastante sereno, um violão é percebido ao fundo entregando nuances de uma fragilidade adocicada que embebe o ouvinte em prelúdios de torpor que, curiosamente, chegam a ser amplificados pelo tom suave da voz de Jax Fleming. Colocada em cena por meio de pronúncias intimistas e sussurrantes, ela amplifica, também, a percepção sensorial inerente ao indie como base da ambiência sônica. Regida pela presença de um baixo de groove marcante em razão de sua natureza encorpada e, portanto, bojuda, através de seu toque levemente grave, Superficial segue uma base percussiva linear, enquanto o restante dos instrumentos, bem como a performance e a cadência vocais, vão se encarregando da construção de vieses harmônicos vulneráveis. De texturas amorfinantes, a obra dialoga sobre a questão de identidade, autoaceitação e autoconfiança de uma maneira serena.
Ao som opaco do tilintar do encontro das baquetas, com direito a uma contagem crescente percebida bem ao fundo, a composição permite se anunciar ao espectador. Estruturalmente macia, a faixa se mostra apoiada em uma guitarra de riff agudo contagiante e um baixo de groove firme em destaque na dianteira melódica. Ao mesmo tempo, é interessante notar a presença de um toque tilintante do pandeiro desenhando os sinais da cadência rítmica. Contagiante diante de seu formato propriamente mais cativante, o que acontece devido a uma ligeira inclinação mais solar, a canção chama a atenção por, mesmo que soe confortável e, até, radiofonicamente atraente, seja agraciada pela presença de brisas melancólicas que marcam o seu aroma. Explorando uma temática indie, mas com flertes mais notáveis para com uma espécie de evolução em direção ao rock alternativo, a faixa conta com a presença de pulsos sequenciais produzidos pelo teclado de forma que cria, destaca e enaltece a presença de uma silhueta dramática e ainda mais melancólica que aquela vivenciada na canção anterior. Diante desse especto, a faixa-título soa como um produto que, perfeitamente, explora e difunde uma sensibilidade inquestionavelmente entorpecente.
Aqui, a introdução não é pautada exclusivamente em uma camada instrumental, mas, sim, em um vislumbre lírico entoado de forma simultaneamente harmônica e de nuances transcendentais. Dando ao escopo lírico holofotes maiores e indiscriminados, a canção permite se deleitar na exploração da contribuição de novos elementos percussivos em meio à sua paisagem sônica. A bateria, claro, continua sendo um importante aliado nesse contexto, mas entre seus pulsos, existe outro detalhe que o torna mais macio e, portanto, de conotações fluidas. O toque levemente áspero do chacoalhar do chocalho acaba contribuindo, de fato, para a aquisição de uma inclinação mais aveludada em relação ao movimento rítmico, permitindo uma guinada na postura introspectiva em aquisição pela obra. Diante dos pulsos espaçados e amaciados do teclado regendo os instantes sonoros seguintes, o escopo lírico se encarrega de preencher os espaços formados com uma cadência fofa pronunciada por um Fleming que, agora, se percebe em meio a uma tomada lírico-interpretativa curiosamente sensual. A partir desse arranjo, Macie acaba garantindo para si uma postura dramático-melancólica que ainda se apoia em interessantes silhuetas contagiantes perante a base pop que a molda.

A crueza é um elemento que se percebe logo a partir dos primeiros instantes em que a bateria é percebida na ânsia de oferecer os primeiros sinais rítmicos. Percebida diante de uma sonoridade percussiva propositadamente distante, essa característica inerente ao bruto felizmente se esvai no instante em que a melodia se anuncia diante de silhuetas não apenas introspectivas, mas melancólicas de uma forma lexicalmente pegajosa. Macia e entorpecente ao mesmo tempo em que traz o baixo em destaque com seu groove bojudo ofertando certo grau de linearidade à melodia, é importante pontuar que a canção, quanto mais tem sua estrutura desenvolvida, mais evidencia a sua natureza soturna. Entorpecente e suspirante, 3am conta com frases líricas uivantes que trazem consigo um audacioso toque fantasmagórico, enaltecendo, assim, seu caráter cuidadosamente alucinante.
Um rápido vislumbre lírico é percebido pronunciando um verso monossilábico de maneira sussurrante. A partir dele, o ouvinte é levado para um contexto rítmico-melódico denso e um tanto sombrio. Escura como a noite, a temática que a obra vai construindo é quase mitológica, ao passo que seu contexto faz parecer que, a qualquer momento, um lobisomem será visto uivando para a lua. Com um baixo de linhas marcantes a ponto de intensificar a percepção da densidade, Twilight, quanto mais se desenvolve, mais transpira uma natureza estrutural post-punk. Soturna, a faixa ainda consegue se apoiar em pronúncias líricas que, de certa forma, suavizam essa nuance sombria.
Intimista e minimalista. Essas palavras conseguem descrever, com certa exatidão, aquilo que o ouvinte pode encontrar em HiLo. Aromática e de textura curiosamente confortável em meio às suas silhuetas amorfinantes, a faixa vai ganhando certos toques de precisão conforme os pulsos secos do bumbo se apropriam dos primeiros vislumbres rítmicos. Quando a bateria se anuncia em sua forma completa, a faixa não apenas é tomada por um bom senso de fluidez, mas é agraciada por texturas orgânicas levemente sincopadas capazes de fornecer um mínimo de contágio que já a torna atraente.
I’ll Be Fine, de primeiro momento, parece ser um material desenvolvido apenas perante uma paisagem sônica. Amadurecendo seu viés indie, ao passo que pincela, nele, inclinações tanto ao pop quanto ao rock, o material oferece uma interessante gama de texturas que vai do torpor ao místico, passando pelo transcendental e o dramático com muita versatilidade.
Chamando a atenção pelo seu exímio trabalho no que tange a mixagem, o EP consegue oferecer ao ouvinte um áudio transparente e, portanto, cristalino de cada elemento sonoro que o compõe. Nesse aspecto, é inevitável que se entenda que o baixo tenha um destaque diferenciado, uma vez que sua presença é demasiadamente necessária para a aquisição de consistência e densidade. Resultado de um trabalho de um ano e meio, I’ll Be Fine é um material que soa como um diário de Fleming dividido em seis capítulos em razão da sua vasta pessoalidade.
Mais informações:
Spotify: https://open.spotify.com/intl-fr/artist/0EF4YG0DfM6HNVbfsmg9RE
