Na história da música sempre houve tendências… Sim, cada década ganhou uma ou mais, estilos que estavam vigor naquele período, graças ao apelo popular e midiático, mas que nunca definiu qualidade. Ou seja, se fosse bom ou ruim não importava, mas tinha que estar em voga e as chances de se destacar eram maiores se estivesse dentro da tendência do momento.
Claro, a indústria da música evoluiu e/ou mudou, como tudo nessa vida. Estilos como o power pop e o rock dominaram as paradas nos anos 60, o progressivo e o punk na década de 70, o AOR, hard rock e synthpop na década de 80, o hip-hop, rock alternativo na década de 90, o emo nos anos 2000 e hoje parece que o R&B tem contaminado as paradas. Só pra citar alguns exemplos um tanto quanto mais superficiais.
Porém, muitos estilos perduram e com qualidade, na verdade a maioria dos mencionados. Neles, os artistas de vanguarda se renovam e os novos artistas dão roupagens atuais, o que ajuda a preservar a música, como ela deve ser. Enfim, um resumo do que a história da música recente, onde podemos chama-la de pop, se encontra.
Temos aqui um conjunto que vivem as três últimas décadas, o que explica sua abrangência e entendimento do que é tendência. Formado em Grimsby no final de 1995, o Hovercraft surgiu de um começo improvável, quando o compositor Piers “Pepper” Wildman respondeu a um anúncio enigmático na vitrine de uma loja de bebidas local em busca de “um poste de luz tranquilo para liderar uma banda de pop espacial retrô”.
O projeto se readaptou tanto, que, quase três décadas depois, o Hovercraft foi ressuscitado por meio de uma tecnologia inovadora de reconstrução por IA no projeto “Re:Creation”. Usando cifras, partituras e gravações de arquivo remanescentes, seu catálogo perdido foi meticulosamente reconstruído, revelando músicas que estavam décadas à frente de seu tempo.
Ou seja, além da vivência nestas três últimas décadas, o projeto abrange os dois lados da moeda, sendo outrora orgânico e realista e agora caindo na tendência do uso da ferramenta mais em voga na música, a indispensável inteligência artificial.
Um dos resultados deste trabalho é este mais novo disco chamado “Shaken Not Stirred”, onde entregam 9 faixas em pouco mais de meia hora, abrangendo o R&B, jazz, soul e funk com o besunte necessário do pop, encantando do início ao fim com a riqueza criativa que as faixas apresentam.
Mas, é bom ressaltar que, não se trata de uma recriação nostálgica, mas de uma inovação contemporânea. Faixas como “The Promised Land” (transformada de “New Pine Overcoat”) e “Higher Ground” (evolução de “Concrete Hill”) demonstram como composições excepcionais transcendem as fronteiras do gênero. As mesmas progressões harmônicas sofisticadas que funcionaram no indie rock dos anos 1990 agora dão suporte a arranjos contemporâneos de R&B com vocais femininos e seções de metais.
A primeira faixa, “Crazy Over You” chega com um ar intimista e sensual, onde o soul se mescla a um obscuro R&B, convidando ao deleite do qual o álbum nos proporciona (sim, a música nos permite viajar no tempo). Logo, “Revolution” entrega algo mais belo e levemente mais agitado, com uma batida hip-hop, mas melodias encantadoras. Destaque para o piano discreto, mas fundamental.
Porém, o agito mesmo surge com “Oh Yeah” e sua orquestra de metal, onde o funk ganha vibrações extras e o ritmo cativa com percussões jazzísticas. Sem dúvidas uma das melhores faixas do disco, com sua leve mudança de ritmo que prima por um refrão espetacular.
Enquanto isso, a emoção vem novamente à flor-da-pele com a balda “Come On (Children)”, que tem um piano essencial e vocais magistrais. Logo, o jazz vanguardista com leves toques de música latina retorna em “Bring My Baby Back To Me”, uma música dançante e vintage, que encanta pela energia.
“Mr. Tooting Brown” é uma faixa que traz ares intimistas, mas desta vez emprestando um ritmo a lá blues e mais uma leve mudança de andamento, onde a melodia sai de um verso introspectivo e entra num refrão mais acessível. Enquanto isso, “Here Now” traz o R&B mais atual e em forma de balada, sendo uma das faixas mais atuais.
E, entrando na reta final, temos a felicidade de encontrar um funk explodindo nos metais novamente, já que a agitada “Higher Ground” nos dá essa graça. Com um hino em forma de balada, “The Promised Land” fecha o disco de uma forma sensacional, soando acessível e contando com o equilíbrio entre melodia e drama.
Não tenha dúvidas que com “Shaken Not Stirred”, como eles mesmos dizem, o Hovercraft 2024 representa a convergência da sofisticação da composição dos anos 1990 com a inovação tecnológica do século XXI. Mas, acima de tudo, traz um trabalho versátil que consegue soar homogêneo graças à forte personalidade que o projeto desenvolveu. Deleite-se.
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