Hamish nos brinda com novo velho disco!

Imagina se formos recapitular todos os discos que fizeram na história e não publicaram. Sim, aqueles materiais que ficaram engavetados por anos, o quanto de coisas não teríamos. Afinal de contas, não sabemos exatamente, pois muitos deles não vieram a nosso conhecimento e ficaram como talentos desperdiçados pelo resto da vida.

Pois bem, isso acontece e é mais comum do que imaginamos. Temos aqui um bom exemplo disso, apesar de não ser exatamente algo de alguém que nunca publicou sua arte. No entanto, não deixa de ser algo que poderia ter ficado perdido no tempo, correndo esse risco de deixar de nos brindar com boa música.

Pois bem, o artista responsável por tal é Hamish. Trata-se de um músico britânico atuante na cena alternativa do Reino Unido há três décadas. Ele fundou o hoje famoso “Rabbit Hole” no Festival de Glastonbury, onde se dedicou a apoiar jovens talentos promissores de todos os gêneros musicais. Sua música é conhecida pela melodia e pela narrativa, conquistando uma base sólida de fãs que apreciam seu trabalho.

Ele chega agora com álbum “Significant Others”, que ficou esquecido em meio a uma pilha de gravações e rascunhos por dezesseis anos, sucedendo “Picture In My Bag” (1999, produzido por Les Penning, mais conhecido por seu trabalho com Mike Oldfield).

Para gravar o disco, uma banda de músicos locais e um produtor enviado pelos céus ajudaram Hamish a lapidar até chegar ao resultado que vocês ouvem agora, em 15 faixas e pouco mais de 1h hora de um folk pouco visto nos últimos tempos.

Dentre as principais características desse artista magistral, está em resgatar o que realmente é feito a mão, com um instrumental básico, mas rico nos detalhes, além da produção orgânica e timbres que deixam sua música mais honesta do que nos acostumamos a ver ultimamente.

O disco abre com a faixa “I’d Never Make It Through”, uma composição que chega com um violão dinâmico, encantando pela bela voz imposta e uma melodia introspectiva, mas que não cai no marasmo. “Bruhaha”, a segunda do disco, chama atenção pelo elemento percussivo e o andamento diferenciado, que hipnotizam o ouvinte, como o bom folk deve ser.

“Funny One” é mais diversão, com um ar descontraído e um fundo orquestrado belíssimo, que invade a alma e dá um sopro de resiliência. Já “The Worm Forgives The Plow” é uma faixa mias sisuda, com um trabalho de violão robusto e uma interpretação mais direta de Hamish.

“Gentleman” chega com uma veia mais sombria, porém bela, que deixaria Nick Drake bem feliz (ou seria triste?). Enquanto isso, “Borrowed Time” é uma faixa que traz um chocalho que invade a mente e volta naquele teor que hipnotiza o ouvinte com um ritmo constante.

Agora em “Helpless” é difícil não se apaixonar pelo violino de abertura e seu som maravilhoso. Mas, a faixa não se resume a isso e encanta pela incursão de um acordeão discreto, mas que a torna uma das melhores do disco. “I’d Like To Say I’m sorry” tem um piano magistral, escondido em seus detalhes, mas que quando descoberto encanta imediatamente e ganha um contexto mais pop, que é o seu grande diferencial.

“I’m Prepared To Wait”, por falar em teclas, encanta com seu órgão quase que tubular, numa introdução que traz muito de vanguarda e traz ainda mais versatilidade ao som de Hamish. As teclas continuam na introdução de “Don’t Try and Break My Heart”, mas quem manda é um violão de aço e um refrão todo sessentista.

Eis que surge “Love All Around”, uma música de melodia encantadora e um dos melhores entrelaces entre piano e violão, além de uma interpretação equilibrada de Hamish. Enquanto isso, a cozinha aparece com frescor em “Close The Bedroom Door”, soando como uma das faixas mais consistentes do trabalho e encantando pelo ar robusto que a distingue das demais.

Eis que o jazz, mesmo que de forma comedida, dê as caras em “Struggled”, que em seu contexto mais amplo soa como uma faixa de folk mais moderno. Tudo sem perder a essência original e ainda trazendo um fundo timidamente orquestrado que mantém as características.

“Shor Sharp Shock Of Your Love” é uma das faixas que traz o melhor violão, com versatilidade e bases sólidas, além de linhas vocais que nos remetem ao Bob Dylan, o que é muito justo, afinal de contas um disco de folk sem referências à lenda seria sem sentido. Por fim, “The End Is Always Hard” é uma composição poderosa, que serve muito bem para fechar o disco e encanta pelo teor de ‘até logo’.

No mais, como começamos esse texto, imagina se “Significant Others” tivesse sido engavetado? Jamais teríamos a oportunidade de conhecer essa beldade, seus detalhes, seus belos arranjos e o afeto que sua sonoridade traz. Amantes de folk, em todas as suas facetas, além de música boa em geral, ouça imediatamente!

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