Uma sonoridade de caráter percussivo e trepidante vai moldando a atmosfera sonora. Mesmo que de audição distante, ela já consegue moldar um embrionário escopo no que tange a cadência da obra, a qual, no momento, se apresenta intimista e minimalista. Entre pulsos de leve menção oca, a canção vai exortando uma natureza estrutural gradualmente precisa e firme que, de maneira surpreendente, passa a ser regida por uma agudez doce e estridente vinda do piano. Tal instrumento, além de surgir em cena com o propósito de moldar o escopo harmônico-melódico, se sobressai diante da camada rítmica, a qual se mantém com postura introspectiva. O interessante é que chega um ponto em que Lønahorgi exorta, mesmo que de maneira profundamente tímida, o jazz como sua base de diálogo sonoro através da união de instrumentos como saxofone, trompete, flauta, trombone e bateria. Com tal interação, a faixa, inclusive, mostra proeminência na elaboração de estruturas equilibradas e sensorialmente delicadas.

Ela soa como o processo nascente do Sol além do horizonte. Trazendo o dia de maneira gradativa, a instrumentação, minimalista, tímida e delicada, combina crueza e um toque crepuscular penetrante que lhe confere uma sensibilidade, inclusive, mística. De caráter experimental, é interessante perceber que existem brisas de uma melancolia singela flutuando livremente pela sua atmosfera, mas sem ser apelativa ou, mesmo, pegajosa. Como a faixa mais longa de Graosido, superando a marca dos oito minutos de duração, Grøvona coloca em cena outros elementos para somar à sua conjuntura harmônico-melódica. Instrumentos como a flauta e o clarinete inserem, aqui, um dulçor extra associado em um delicado toque de dulçor. Necessário pontuar, também, que a música conta com a presença da guitarra, a qual, por entre riffs de uma agudez seca, coopera com a inserção de uma textura levemente áspera, rompendo, mesmo que brevemente, a embriagante e inebriante maciez.

Até o momento, Tjørni se mostra a canção com a estrutura jazz mais limpa, clara e transparente. Afinal, desde seu início imediato a faixa traz o ritmo em uma forma impecável e sem rodeios. Ainda que de fato apresentada de forma intimista, ela é marcada por uma espécie de veludo envolvente e aconchegante que, curiosa e surpreendentemente, combina elementos sonoros sintéticos que a fazem flertar com a psicodelia e com nuances curiosamente sci-fis. De natureza brisante, portanto, a faixa faz com que o espectador se perca em seu próprio mundo inconsciente, mas sem perder, definitivamente, o elo com a lucidez.

Taoe chama a atenção pela sua aparência experimental, espontânea e confiante. Ainda assim, o que marca a presente canção é uma postura de audácia relacionada com pungentes noções de liberdade e independência criativas. Afinal, por entre camadas sonoras curtas que parecem um ensaio acidentalmente executado, a faixa traz consigo um caráter embrionário e, portanto, prematuro do que se configura a significância de jam session. Na forma da segunda canção mais extensa de Graosido, Taoe é marcada por uma performance propositadamente truncada que, quanto mais se desenvolve, mais lhe proporciona uma aparência original e independente destacada, inclusive, pela desenvoltura do piano a partir de determinado trecho de seu andamento rítmico-melódico.

Kave, contra todas as performances anteriores, apresenta uma atmosfera densa e com toques surpreendentemente sombrios. Trazidas a partir das notas do piano, essas sensorialidades moldam a atmosfera de modo a causar um singelo desconforto por parte do ouvinte. Pulsante em meio de seus sons ligeiramente graves, a faixa é uma obra que traz, de fato, o piano como uma espécie de protagonista durante a introdução, mas que cede lugar a outros elementos conforme a estrutura se desenvolve. Com a entrada dos metais e dos instrumentos de sopro, a faixa acaba sendo envolta em uma tensão ainda maior do que aquela identificada em seu início. Sem uma esfera rítmica bem definida por parte da bateria, Kave se mostra uma canção propositadamente sem rumo como uma forma de dialogar sobre a vulnerabilidade e a ausência de um senso de propósito.

Chiados e uma sonoridade incompreensível. Crua em sua máxima e léxica essência, Fela ver se mostra um interlúdio dissonante e de uma curiosa leveza caótica no que tange as qualidades de espontaneidade e experimentalidade. Ainda que a canção mais curta da lista de faixas do álbum, a composição desfila uma excentricidade inquebrável, inabalável e inquestionável.

Apesar do som de ruídos que se apresenta no momento imediato de sua introdução, a canção se apresenta como uma perfeita repetição de Kave. Isso acontece porque a melodia e a cadência das notas aqui expostas pelo piano são as mesmas da canção anteriormente referida. Ainda assim, a presente faixa apresenta uma diferença marcante que mostra uma identidade autônoma em relação à sua gêmea não-idêntica. Em Vadlasletta as harmonias melódicas ofertadas não caminham pelo sombrio, pelo temeroso e pelo dissonante. Elas trazem a maciez, o veludo e o lado léxico do que se entende por melodia, ocasionando em uma experiência sonora confortável e até mesmo charmosa desenvolvida por silhuetas delicadas e elegantes. 

Graosido pode ser recebido como um álbum instrumental que oferece uma viagem sônica perante o universo do jazz. Marcada por posturas excêntricas, autênticas, independentes e espontâneas, o material caminha por terrenos que exortam silhuetas desenhadas pela pura arte da experimentação tanto no que tange texturas e cenografias. Graças ao auxílio da orquestra norueguesa OJKOS, Knut Kvifte Nesheim foi muito feliz ao apresentar um produto moderno a partir de um enredo sonoro clássico e charmoso. Sua beleza é, enfim, mostrar que o dissonante e o estridente também podem cooperar para uma vivência sonora engrandecedora e necessária.

Mais informações:

Spotify: https://open.spotify.com/intl-fr/artist/48XEwop9iu4fep5yhUzlt8

Site Oficial: https://www.knutkviftenesheim.com

Bandcamp: https://knutkviftenesheim.bandcamp.com/album/graosido

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *