Nem sempre a música chega mastigada e com melodias fáceis aos ouvintes e isso não tem problema nenhum. Muitas vezes caímos num conceito de arte que parece ser obrigatório nos entregar trabalhos de mãos beijadas ou quando isso não acontece e nção conseguimos compreender, tendem a julgar algo ou alguém por isso.
Arte é arte em sua forma e quem chegou depois foi a veia comercial, responsável pelos padrões criados dentro da mesma. A música se insere nesse contexto, afinal de contas também é arte. Mas por quê estamos ‘filosofando’ sobre isso? Pois bem, o material que temos em mãos não é algo convencional. Longe disso.
Mas, para isso, vamos primeiro apresentar um pouco desse artista seminal, que é o responsável por este trabalho. FELD, conhecimento em seus meios familiares como Marlon Feld, passou a vida inteira explorando os recônditos da música. Formado em teoria musical, estudou a fundo musicais da Broadway, glitch alemão dos anos 2000 e música de cinema contemporânea. Ele se apresenta usando um teclado MIDI, uma máquina de escrever Blickensderfer de 1893 adaptada e gestos de mãos contorcidas e trêmulas.
Pois bem, só isso já deu uma dimensão do que ele apronta em seu som, certo? Pois bem, ainda não é tudo, pois o artista entrega muito mais, não se prendendo a nada, mas mantendo um foco que talvez ajude o ouvinte a se situar melhor. Esse foco se resume no piano, e sua abordagem não é convencional, mas também pode ser compreendida por um grande público.
Isso pode ser conferido em seu mais novo disco, do qual destrincharemos as faixas e mostraremos nossa compreensão. Compreensão que está longe de ser exata, pois os parâmetros que o disco nos proporciona fazem com que tenhamos ideias tão abstratas como boas partes das notas e ruídos que as músicas entregam.
Estamos falando de “Luster”, um álbum que desconstrói a música para piano do final do Romantismo em peças eletrônicas surreais e cheias de glitches, transformando a sofisticação secular em algo brutal e sombriamente humorístico. Algumas faixas são refrações da música do compositor francês Louis Vierne; outras são baseadas em obras originais. Todas elas subvertem a música neoclássica.
Só um adendo, porque esse elemento é muito comum por aqui. O ‘glitch’ (ou clicks and cuts), segundo pesquisas, é um gênero de música eletrônica que utiliza falhas técnicas intencionais, como ruídos digitais, travamentos de CD, e distorções, como elementos rítmicos e estéticos. Surgido nos anos 90, foca na “estética do fracasso”, transformando erros sonoros em arte, com forte presença na cena experimental e produções modernas.
“Luster” conta com sete composições, onde o piano dá a melodia em meio a estes glitches, grandes experimentos, além de variações sonoras que chegam a nos remeter a trilhas de séries, vinhetas, trilhas de filmes e até mesmo música ambiente.
O primeiro teste disso fica por conta da faixa de abertura “Bebe Marie”. Com um piano dramático, mas belíssimo de início, a faixa prima por trazer em seu cerne elementos industriais, que a faz parecer um longa metragem do cinema mudo, cheia de beleza e suspense.
“The Knell” ganha um pouco mais de intensidade, soando mais alta e caótica, mas na mesma dinâmica. Mantendo o mistério em dia, a faixa traz até vocalizações insanas e barulhos de um avião decolando, mostrando que FELD não economiza na criatividade.
“Corridor” é uma faixa que traz certa tensão, criada por um suspense de um piano moderno, vocalizações esporádicas e sintetizadores que emulam bases sinistras distorcidas, dando um ar um tanto quando de terror. Ou seja, pode se encaixar perfeitamente neste contexto.
Exatamente o marco da metade do disco, “White Nights” é uma das faixas que mais exploram os ‘glitches’, provando a habilidade ímpar de FELD, que consegue entrelaçar um piano dinâmico no cerne da faixa, soando simplesmente encantador. E nessa música que conseguimos digerir o disco de uma forma melhor, mas na primeira audição, pois ele, como um todo exige muito mais.
Já “Illucid” é uma faixa que traz uma fórmula parecida com sua antecessora, mas com os ruídos primando pelo lado industrial e o piano soando moderno e com notas mais graves, além de FEDL trazer pentes que emulam o som de caixinhas de música, deixando o som agridoce. A faixa progride e se torna de bela a tensa.
Entrando na reta final, “Haunts” é uma faixa que começa como uma locomotiva andando devagar, tem um meio uma peça magistral de piano e termina como se um navio tivesse afundado em meio a sinistras melodias de teclas aflitas. Mas ainda não é o fim.
Afinal de contas, fechar um disco que mexe com a imaginação e com os sentimentos da forma mais firme do que “Luster”, não poderia ser diferente da faixa “Cathedral and Stars”, que por mais que soe sombria, é a peça que traz o piano em sua forma mais ‘normal’ e sentimental do disco. Simplesmente um trabalho fenomenal!
https://feldforward.bandcamp.com/album/luster
https://www.youtube.com/playlist?list=PLZwo1kzfR146am8MseLFLaHkHRWU3Itys




