Muitas das coisas, ou melhor, gêneros que viveram no mainstream em outros tempos e não estão mais no topo, são vistos como algo que não existe mais. Principalmente em se tratando de música, do qual hoje em dia tudo está ainda mais nichado em bolhas, devido a algoritmos e redes sociais.
Porém, o que pouco se sabe é que há muita coisa boa circulando por aí, tanto inovadoras, quanto resgatando sonoridades ou ambos. Mas, alguns gêneros sempre primaram pro sobreviver no underground, mesmo passando por alguns breves períodos nas paradas e tendo representantes icônicos, que hoje se tornaram peças lendárias do cenário.
Um destes gêneros é a darkwave e seus derivados. E estamos falando de um estilo que não é primário e se originou de outros estilos, mas tornou-se base principal de muita coisa pela sua abrangência e imponência. Isso mostra a força do gênero, mas também a responsabilidade de quem aposta nele.
O darkwave surgiu em meados dos anos 80 na Europa, fundindo o rock gótico e pós-punk com a new wave e música eletrônica. O estilo (ou subestilo, como preferir) traz uma atmosfera sombria, reflexiva e densa, utilizando sintetizadores pesados e guitarras góticas, com forte influência da cena gótica.
Formando um movimento interessante, que se consolidou dentro do cenário dark e gótico, o movimento ganhou alguns representantes que se tornaram lendários na cena, tais quais como Clan of Xymox, Dead Can Dance, e Cocteau Twins, entre outros que são considerados pioneiras ou influências significativas no gênero.
Por mais que hoje em dia não ocupe uma posição no alto escalão, há artistas que investem na darkwave, a colocando nos tempos atuais, além de manter um legado que nunca deverá ser pagado. Temos aqui um conhecedor do assunto, que chega com um trabalho portentoso e resume em apenas três composições o que ele pode entregar.
Trata-se de Ezekiel Gauthier, artista meio humano, meio personagem digital, que apresenta um universo singular onde a escuridão e a melancolia se encontram com uma realidade distorcida pela artificialidade. Impulsionado por uma estética sonora e visual de vanguarda, ele convida você a mergulhar em uma jornada híbrida entre sonho e distopia.
Trata-se, como ele mesmo se apresenta, de uma figura “chique e monstruosa” com uma voz frágil, que transforma a dark electronica em um santuário para corações em busca do absoluto. Essa figura elegante explora, sem floreios, as áreas obscuras da identidade, as metamorfoses do ser e as falhas do desejo. Seu universo desdobra uma estética visual fluida, navegando entre a realidade crua e os horizontes do mundo digital.
Isso pode ser comprovado neste seu mais novo trabalho, o EP “Teenage Dark Love”, que acaba de ser lançado e oferece uma experiência musical imersiva em três faixas. Nelas, Ezekiel consegue incrivelmente transitar por sonoridade coirmãs, sem se perder e ainda criar uma identidade própria, além de apenas manter o teor nostálgico sem soar datado, atingindo uma atemporalidade impressionante.
Na temática em comum, Ezekiel Gauthier nos mergulha no âmago das emoções adolescentes, onde o amor se torna o único baluarte contra a angústia. Mas ele passa longe de melodias impregnantes e peguismos, mostrando uma veia mais incisiva e objetivo.
Isso já fica bem claro na faixa título, que abre o disco com forte influência do post-punk e mostrando algo mais orgânico. A música soa mais vanguardista que de costume no catálogo do artista, e traz um baixo que deixaria o Joy Division orgulhoso. O fundo sombrio em meio ao ritmo de boa dinâmica, com um refrão que já pega de início, faz da faixa carismática de imediato.
Diferindo bastante de sua antecessora, trazendo trejeitos futuristas e uma batida inspirada no industrial, “Bones and All” é uma faixa mais desconexa, mas isso não é algo pejorativo. Ela soa mais eletrônica e busca um fundo um pouco mais caótico, guardadas as devidas proporções.
Enquanto isso, “Bliss and Kiss” praticamente une suas antecessoras, mas sem parecer algo proposital. Muito pelo contrário, a faixa soa de uma forma natural. Com melodia sombria, andamento cadenciado e um fundo soturno, ela traz em suas lacunas teclados modernos, além de sintetizadores inspirados no industrial.
Todas as faixas contam com os vocais sombrios de Ezekiel, que se encaixam perfeitamente, mostrando ser uma das principais assinaturas do trabalho. Com certa frieza e um tom triste, como se realmente fosse um robô, ele destila os temas complexos, mas funcionais.
Ezekiel Gauthier cria um universo onde a elegância flerta com a vertigem e com seu novo disco, ele tem conquistado cada vez mais espaço na Europa, em especial em lugares culturalmente icônicos, tais quais Berlim, na Alemanha, e em sua Paris Natal.
Não tenha dúvida que, com este novo trabalho “Teenage Dark Love”, ele está pronto para avançar por outros continentes. Afinal de contas, além do disco complementar sua discografia, soa abrangente dentro do estilo que propõe. Ouça e comprove!




