Everything’s Fine | Zoe Konez anuncia álbum que explora a necessidade da conexão humana

O intimismo, a introspecção e suspiros melancólicos se fundem por entre as notas extraídas do piano durante a execução da introdução. Imersa em uma delicadeza nítida, mas cheia de sentimentalismo, a canção caminha vorazmente, mas a passos lentos, diante de um alicerce instrumentalmente minimalista que explora o muito com pouco. Profunda e intensa, ainda que apoiada somente na figura do piano, portanto, a canção começa a ganhar uma conotação intrigante conforme o violão, com dedilhares frágeis, vai surgindo em cena a partir da adoção do efeito fade in. Por meio dele, Paragon deixa de se prender a uma enxutez absoluta para se aventurar por uma espécie de torpor capaz de ser recebido sob as lentes da reflexão.

É impossível não trazer o conceito do brisante para o centro dos holofotes. Afinal, desde o seu início absoluto, a canção se permite explorar o fantástico e o onírico através de uma camada sonora sintética que sugere o etéreo e o atmosférico. Juntas e em perfeita sintonia, essas definições, mesmo na companhia do frescor amaciado do violão e dos dedilhares vulneráveis da guitarra, desembocam em um ambiente simplesmente transcendental. Talvez, até mesmo a palavra celestial defina melhor o que se vive em meio à continuidade de I Don’t Want To Be Lonely Anymore, uma faixa que, desde o momento em que põe o ouvinte em contato com o timbre equilibradamente açucarado de Zoe Konez, parece sugerir uma pesquisa pela beleza do intimismo associado a um torpor levemente cabisbaixo. 

Easy To Learn já avança ainda mais na conceituação do espirituoso. Rompendo os limites do som e daquilo que se conhece como limite terreno, a faixa não tem qualquer limitação em caminhar por ecossistemas que exploram o extraterreno e o denotativamente esotérico. Diante de uma camada sonora conjuntural simplesmente definida pelo seu caráter rigidamente etéreo, a faixa vai amadurecendo perante uma camada lírica embebida em reverb, o causa um efeito de eco que sugere extasiantes ímpetos de alucinação em meio à densa introspecção aqui proposta. Profundamente serena, a faixa traz uma leveza esvoaçante que se torna amaciadamente viciante, de forma a prender a atenção do ouvinte.

Perante o verso lírico vocálico e ululante proferido por Zoe, é como se o ouvinte estivesse diante de uma espécie de folk nórdico apreciando a valsa das auroras boreais no auge da noite. Curiosamente, assim que o primeiro verso se anuncia a faixa se vê respaldada por um conteúdo verbal apresentado de forma sussurrante que devolve, ao ouvinte, um mínimo de lucidez. O interessante é observar que é nesse momento, junto a um violão de riff firme, mas de movimentação ligeiramente amaciada, que a canção oferece sugestões de compasso rítmico. Melodiosa e de incursões radiofônicas diante de sua estrutura instrumentalmente minimalista, This Utopia se mostra viciante e graciosamente hipnótica, mas, o que mais chama a atenção nela, é o fato de que a sua harmonia rememora, mesmo que minimamente, a movimentação lírica adotada por Scott Weiland durante Sex Type Thing, faixa do Stone Temple Pilots.

Ao se atentar a Everything’s Fine, o ouvinte é convidado a mergulhar em um universo definido pelo transcendental. Em contato com uma energia etérea e uma densidade espirituosa que chega a ser celeste, o ouvinte flutua e perde toda a sua consciência terrena para conseguir entrar na sintonia exata da leveza proposta pelo material. Introspectivo e sedoso, eis aqui um produto em que a delicadeza ganha alma e humanidade.

Diante disso, o disco, conforme avança em meio à sua própria track list, vai apresentando ambientes pautados pelo atmosférico e pelo máximo de serenidade possível. Cheio de simplicidade, ele se mostra ousado por fundir sintetizador e violão perante camadas líricas de caráter puramente introspectivo de forma a caminhar pela densidade, a desorientação e a necessidade de conexão humana.

Ainda que tais visões estejam mais claramente visíveis perante as suas quatro primeiras faixas, o álbum tem outros importantes títulos que pesam em sua totalidade. Nudge, pela singeleza com que o violão assume o papel de protagonista sonoro; e Yeah I Know, pelo seu lirismo sussurrante, são exemplos disso. Com eles na conta, Everything’s Fine, álbum com lançamento marcado para 12 de junho, é moldado pela calma percepção de que a vida que se pensava ser um sonho, agora não serve mais.

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